Sexo, satisfação e trauma em Outlander

Uma das coisas que mais atrai o público de Outlander é a maneira como o programa aborda o sexo e a satisfação feminina. Os telespectadores ao redor de todo o mundo são em grande maioria mulheres, o que não é de maneira alguma surpreendente, tendo em vista que a personagem principal é uma mulher destemida, moderna e muito à frente de seu tempo. Ver Claire se entregar de corpo e alma e atingir e dar satisfação na cama é tão satisfatório quanto catártico. Muitas fãs dos livros e do programa de TV revelam terem se inspirado a renovar seus relacionamentos por causa de Outlander.

Seria simplório demais, entretanto, resumir Outlander a um programa de TV que mostra uma mulher moderna atingindo satisfação sexual verossímil — além de viajar no tempo, tratar escorbuto, enfrentar superstição e costurar feridas de batalhas. Outlander nos expõe ao lado desconfortável da sexualidade humana — a violência sexual e seus subsequentes traumas. Na primeira temporada, Claire chega muito perto de ser violentada por 3 vezes, e Jamie sofre violência física, sexual e emocional inimaginável nas mãos de Black Jack Randall. É extremamente doloroso acompanhar a recuperação de Jamie, e muitos telespectadores confessam ter pulado as partes mais gráficas das cenas de estupro e resgate.

Quando Jamie está enfim voltando a ser ele mesmo e a se reconectar com sua esposa, mais personagens da história sofrem abuso sexual. Mary Hawkins é violentada nas ruas de Paris, e Fergus, o menino de 10 anos que acaba sendo filho adotivo de Jamie e Claire, é violentado, também por Black Jack. Até mesmo os fãs mais ávidos de Outlander tem de admitir que esses acontecimentos são difíceis de digerir. Os críticos do show chegam a dizer que tamanha violência é desnecessária. Para que mostrar tantas pessoas sofrendo violência sexual? Por que a autora do material original, Diana Gabaldon, incluiu tantos casos de abuso em sua narrativa?

Bom, veja bem, estamos falando de uma história que se passa no século 18. Se em 2014, o Brasil tinha um caso de estupro notificado a cada 11 minutos e, às vésperas de 2018, qualquer mulher brasileira ainda tem receio de caminhar sozinha tarde da noite por uma rua deserta de nosso país, o que diremos de uma época na história em que mulheres e crianças eram consideradas propriedade? Violência sexual sempre existiu, em maiores e menores graus, e suas vítimas mais frequentes continuam sendo mulheres e crianças. Sob esse ponto de vista, Outlander inova ao mostrar o caso de um homem adulto sendo submetido a esse tipo de violência. A narrativa dessa ficção histórica não nos poupa de seus detalhes mais sórdidos — os mais fracos e vulneráveis sofrem e são abusados.

Nesta terceira temporada de Outlander temos um vislumbre de ainda outro aspecto de abuso, aquele que ocorre dentro do quarto conjugal, sob sanção e autorização do matrimônio. Em meio a hostilidade e raiva que praticamente todos nós sentimos ao saber que Laoghaire era a segunda esposa de Jamie, também foi possível sentir pena quando os detalhes desse casamento nos foram revelados. Jamie deixa claro que há tempos não divide a cama com Laoghaire, pois ela tinha medo do toque dele. Jamie não elabora, não nos explica o porquê. Ele supõe que alguma coisa, seja no primeiro ou segundo casamento, tenha ocorrido que a deixou traumatizada. Em um primeiro momento, sentimos um certo alívio, uma satisfação vingativa ao saber que Laoghaire não atingiu satisfação com Jamie. Após uma reflexão mais longa, como não se perguntar o que aconteceu com ela, odiada por nós ou não, para que não pudesse desfrutar de algo que é tão celebrado pelo casal principal de Outlander?

Aí está a questão, e a triste realidade daquela e, infelizmente, desta época: sexo não é uma atividade íntima e satisfatória para todos. Existem muitas Laoghaires mundo afora, mulheres que foram machucadas, abusadas de alguma forma, mesmo dentro da “segurança ” do casamento. Existem muitos Fergus e Marys, que apesar de terem conseguido seguir em frente e até mesmo desfrutar de relacionamentos sexuais saudáveis, precisam conviver com a realidade da violência que lhes foi imposta, e muito provavelmente lidar com “gatilhos”, situações ou coisas que lhes trazem à tona memórias da violência que sofreram. Para esses telespectadores, assistir essas cenas de Outlander é um desafio.

Eu acredito que, além de nos trazer entretenimento, o que Outlander faz é levantar estas questões ainda polêmicas sobre sexo e violência sexual, para que possamos discuti-las e refletir sobre elas. Outlander me fez questionar minha própria satisfação sexual e como eu poderia melhorá-la dentro do meu relacionamento com meu marido. Para aqueles telespectadores que sofreram algum tipo de violência sexual, eu acredito que Outlander traga não apenas a memória do trauma, mas uma conscientização de que eles não devem se calar, que não estão sozinhos, pois infelizmente isso ocorre e sempre ocorreu, e que para que possamos diminuir estatísticas tão trágicas como um estupro a cada 11 minutos, precisamos discutir, expor, bater na mesma tecla se preciso for, para que esse assunto não seja mais tabu.

Respondendo ao questionamento dos críticos de Outlander e, consequentemente, de Diana Gabaldon, o programa mostra tanta violência sexual porque tal violência simplesmente existe. Podemos reinventar um mundo em que abuso e violência fisicos não existam, mas para isso será preciso enfrentar o mundo de hoje, expondo seus aspectos mais dolorosos, para enfim chegar a um futuro que não se pareça tanto ao século 18. Em 2017, em se tratando de abuso e assédio sexual, a impressão que tenho é que não evoluimos muita coisa.

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