Daily Line: Sonhos com batalhas

POSSUI SPOILER DO LIVRO 9 | Leia outros em Trechos da Diana

trechos da diana

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Eu estava tendo aquele tipo de sonho onde você percebe que está dormindo e aproveita ao máximo. Eu estava aquecida, relaxada até os ossos, e minha mente estava deliciosamente vazia. Eu estava justamente começando a mergulhar nessa névoa de felicidade que chegava até os reinos mais profundos da inconsciência quando um movimento súbito no colchão me deixou alerta.

Por puro reflexo eu virei para o lado à procura de Jamie. Eu ainda não tinha atingido um estágio de consciência, mas minhas sinapses já tinham chegado a uma conclusão: ele ainda estava na cama. Então, não estávamos sendo atacados e a casa não estava pegando fogo. Eu não ouvia nada além da sua respiração rápida; as crianças estavam bem e ninguém estava entrando correndo no quarto. Logo… foi o sonho dele que me despertou.

Tal pensamento passou pela minha cabeça assim que coloquei a mão no seu ombro. Ele se afastou mas não da forma violenta como sempre fazia quando eu o tocava inesperadamente após um pesadelo. Então, ele estava acordado; ele sabia que era eu. Dei graças a Deus por isso e suspirei aliviada.

“Jamie”? Eu disse suavemente. Meus olhos já estavam adaptados à escuridão; eu conseguia vê-lo, meio curvado do meu lado, tenso, olhando para mim.

“Não me toque, Sassenach,” ele disse também de maneira suave. “Ainda não. Deixe a sensação passar.” Ele tinha se deitado vestindo uma camisa de dormir, o quarto estava frio. Mas, ele estava nu agora. Em que momento ele tinha tirado a camisa? E por quê?

Ele não se mexia, mas o seu corpo parecia estar flutuando. O brilho fraco do fogo desaparecia na sua pele enquanto ele relaxava, pelo por pelo, enquanto sua respiração se acalmava.

Eu também fiquei mais tranquila, embora ainda o observasse com cautela. Não era um pesadelo com a prisão de Wentworth, ele não estava suando. Eu literalmente conseguia sentir o cheiro de medo e sangue no seu corpo quando ele despertava de um desses sonhos. Não era um sonho muito frequente mas era terrível quando acontecia.

Um campo de batalha, talvez? Eu esperava que não. Alguns pesadelos eram piores do que outros, mas ele normalmente voltava do sonho de uma batalha bem rápido, e deixava que eu o embalasse nos meus braços para que, gentilmente, ele voltasse a dormir. Eu ansiava por isso.

Uma brasa se partiu na lareira atrás de mim e as pequenas faíscas iluminaram seu rosto por um instante, me surpreendendo. Ele parecia estar… em paz. Seus olhos estavam bem abertos e fixados em alguma coisa que ele ainda podia ver.

“O que é?” Eu sussurrei depois de alguns momentos. “O que você está vendo, Jamie:”

Ele sacudiu a cabeça devagar, com os olhos ainda fixados naquele ponto. Vagarosamente, ele retomou o foco e me viu. Ele suspirou profundamente e seus ombros relaxaram. Ele se aproximou de mim e eu praticamente me joguei nos seus braços, apertando-o com força.

“Está tudo bem, Sassenach,” ele sussurrou entre os meus cabelos. “Eu não… está tudo bem.”

Sua voz estava estranha, um pouco confusa. Mas ele tinha razão, ele estava bem. Ele gentilmente acariciou minhas costas, na região entre os ombros, e eu relaxei um pouco. Ele estava quente, apesar do frio que fazia e a parte clínica da minha mente o examinou rapidamente: sem calafrios, sem hesitações, a respiração estava normal assim como seu batimento cardíaco, facilmente perceptível pela proximidade com o meu peito.

“Você… pode me falar sobre isso?” Eu perguntei depois de um tempo. Às vezes ele podia, e parecia que aquilo o ajudava. Mais frequentemente, ele não podia falar e tudo o que fazia era tremer até que o pesadelo desaparecesse da sua mente.

“Eu não sei,” ele respondeu com uma nota de surpresa na voz. “Quero dizer, era Culloden, mas, estava diferente.”

“Como?” Eu perguntei com cautela. Pelo que ele havia me contado, eu sabia que só se lembrava de algumas pequenas partes da batalha, só tinha algumas poucas imagens vivas. Eu nunca o encorajei a forçar a lembrança mas notei que estes pesadelos ocorriam com mais frequência quando nos aproximávamos de algum conflito. “Você viu Murtagh?”

“Sim, eu o vi.” O tom de surpresa na sua voz parecia mais profundo e sua mão ficou parada nas minhas costas. “Ele estava comigo, do meu lado. Mas eu não conseguia ver seu rosto, seu rosto brilhava como o sol.”

17

Aquela descrição do seu padrinho falecido era mais do que peculiar. Murtagh tinha sido uma das espécies mais sisudas entre os escoceses das Highlands.

“E ele estava… feliz?” Eu ousei perguntar. Não podia imaginar alguém que tivesse colocados os pés no pântano de Culloden naquele dia e que tenha conseguido dar um sorriso, nem mesmo o Duque de Cumberland.

“Ah, mais do que feliz, Sassenach, cheio de alegria.” Ele me soltou e olhou para mim. “Nós todos estávamos.”

“Todos vocês? Quem mais estava lá?” Minha preocupação com ele tinha sido substituída pela curiosidade.

“Eu não sei bem… o Alex Kincaid, o Ronnie…”

“Ronnie MacNab?” Perguntei abismada.

“Sim,” ele disse, mal notando minha interrupção. Suas sobrancelhas estavam franzidas por conta de toda a concentração, e havia também um brilho estranho no seu rosto. “Meu pai estava lá também, e meu avô.” Ele riu alto, novamente surpreso. “Eu não posso imaginar porque ele estava lá, mas estava, claro como o dia, de pé no campo, fazendo cara feia para os acontecimentos e, mesmo assim, tão iluminado quanto um nabo no Samhain.

Eu não quis chamar sua atenção para o fato de que todas aquelas pessoas que ele mencionou estavam mortas. Muitas nem sequer tinham estado no pântano naquele dia: Alex Kincaid tinha morrido na Batalha de Prestonpans e Ronnie MacNab… sem querer, eu olhei para o fogo que brilhava na nova pedra negra da lareira, mas Jamie estava ainda entretido com o sonho.

“Você sabe, quando está lutando, a maior parte do tempo você se esforça muito. Você fica cansado. A espada fica tão pesada que você pensa que não poderá erguê-la mais uma vez, mas você consegue, é claro.” Ele se esticou, dobrou o braço esquerdo e o virou observando o jogo de luz sobre os pelos clareados pelo sol e os músculos profundamente marcados. “Pode fazer calor ou muito frio, não importa, tudo o que você quer é estar em algum outro lugar. Você está assustado ou está muito ocupado para ficar assustado até que tudo tenha terminado e, então, você começa a tremer por tudo o que passou…” Ele sacudiu a cabeça mais forte desta vez, afastando os pensamentos.

“Mas não desta vez.”

Fonte: Diana Gabaldon
Data de publicação: 04/07/2018

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