Diana Gabaldon fala sobre ficar entre os 10 mais em The Great American Read e sobre a 4ª. Temporada de Outlander

Diana Gabaldon at the Grand Canyon

Diana Gabaldon no Grand Canyon (cortesia de Diana Gabaldon)

Quando Diana Gabaldon sentou-se para começar a escrever Outlander, a ideia inicial era que fosse um simples romance, mas os comentários daqueles que tiveram permissão para ler algumas partes foram tão positivos que acabou se tornando seu primeiro lançamento.

Com isso em mente, vocês podem imaginar o quanto foi gratificante para ela não apenas ficar na lista dos 100 romances mais amados da América elaborada por The Great American Read mas também, agora que a votação está chegando ao fim, saber que está entre os 10 mais.

“Eu fiquei impressionada com a lista dos 10 mais, apenas dois autores (JK Rowling e Gabaldon) ainda estão vivos… o que explica o desejo da PBS de contar comigo no último show,” disse Gabaldon ao Parade.com nesta entrevista exclusiva.

Outlander será apresentado como um dos livros do episódio de terça-feira – “Other Worlds” em The Great American Read, que indica obras que levam os leitores em uma jornada mágica. Além de Outlander, “Other Worlds” também contará com a Terra Média (série de livros O Senhor dos Anéis de JRR Tolkien) e Lilliput (As Viagens de Gulliver de Jonathan Swift).

Então, assim que a votação terminar, The Great American Read transmitirá seu episódio “Grand Finale” e revelará a escolha da América por seu livro número 1 na terça-feira, dia 23 de outubro, com a participação de Gabaldon, do ator Wil Wheaton, dos autores Robert McCammon e Amy Tan, da jornalista Lesley Stahl, do perito literário Baratunde Thurston e outros.

Diana Gabaldon at a book signing

Diana Gabaldon em uma sessão de autógrafos (cortesia de Diana Gabaldon)

Na sequência, mais uma pouco sobre a conversa entre Parade.com e a autora do best-seller que nos conta um pouco sobre seu processo de escrita e nos provoca sobre o que está por vir na sua franquia Outlander, série muito popular da STARZ.

ALERTA DE SPOILER: Se você ainda não leu Os Tambores de Outono e apenas acompanha a série na TV, há alguns pontos da história nesta entrevista que você deve evitar até assistir a 4ª. temporada de Outlander, que estreia em 4 de novembro.

O que significa fazer parte de uma lista de tanto prestígio?

Para começar, eu fiquei realmente chocada quando soube que Outlander estava na lista. É muito gratificante estar em tal companhia. É uma amostra muito rica do gosto dos leitores e alguns dos livros constantes da lista, eu não leria. Eles não fazem meu tipo, mas há outros que sempre quis ler, mas nunca li. Acredito que tenha lido cerca de dois terços da lista. Todos eles são livros fabulosos.

Uma das coisas que você disse como parte da sua entrevista para The Great American Read é que, se todos só escrevessem sobre aquilo que sabem, nós só teríamos biografias. Então, escrever sobre o que você não sabe permite que se faça mágica. Quando daquilo que você escreve é sua imaginação e magia, e quanto é pesquisa?

As coisas se misturam, a pesquisa estimula minha imaginação e permite que eu conecte vários pequenos pedaços da minha experiência pessoal com algo que literalmente não faz parte da minha experiência pessoal.

Por exemplo, eu tive três filhos em diferentes tipos de partos. Então, ao mesmo tempo em que nenhuma das cenas de parto nos livros tenham sido baseadas na minha experiência pessoal, alguns detalhes estão lá, por exemplo, o fato de você suar como uma leitoa. Então, eu incluo alguns detalhes, essas coisas físicas. Eles dão um toque de proximidade e autenticidade, sem que sejam realmente biográficos.

Você já falou anteriormente sobre escrever algumas partes e depois ter de encaixá-las em uma história. Você precisa escrever alguns atalhos para poder encaixá-las?

Às vezes.

E é mais difícil de fazer?

Sim, é mais entediante do que escrever a cena real. Algumas cenas são como talhar rochas em uma montanha e então empurrá-las para cima com o nariz. As pessoas dizem: “Oh, isso deve fluir naturalmente”, e eu só quero dar um tapa nelas. Elas dizem, “Mas é essa a impressão que dá”. E eu digo, “Sim, porque dá muito trabalho causar essa impressão”. Mas, como elas podem saber disso? Elas não escrevem livros.

É um trabalho delicado projetar uma cena para fazer várias coisas diferentes ao mesmo tempo e ainda manter o foco. Se você pretende deixar algumas pistas sobre algo misterioso que está acontecendo, você deve combinar a revelação desta pista com algo realmente excitante que esteja acontecendo na cena. As pessoas vão absorver a pista sem saber. Então, mais tarde, quando você chamar a atenção delas para o fato, elas vão dizer, “Ah”.

Há muita, se assim quiser chamar, engenharia envolvida em livros longos como estes, porque parte disso é que você está tentando criar uma história de imersão que atrairá as pessoas. Fazer isso em um contexto histórico envolve a descrição de muitos detalhes da vida cotidiana das pessoas naquele período, e isso exige muita pesquisa.

Mas a questão é que estes são livros muito longos e complexos. Além disso, é uma longa série de longos livros. Muitas pessoas, especialmente agora que a série tornou os títulos mais conhecidos, algumas pessoas, por exemplo, estão em um aeroporto e veem um dos meus livros. Elas vão reconhecer o título e pensar, eu deveria ler um desses livros porque ouço todo mundo falando sobre a série. Mas o livro que está no aeroporto é o livro oito ou nove. Você tem que escrever aquele livro de forma que as pessoas que estão chegando agora possam sentir prazer na leitura mesmo sem ter lido os sete ou oito livros enormes que o antecedem.

Ao mesmo tempo, você não quer recapitular o que aconteceu nos outros livros porque vai ser maçante para aqueles que estão te acompanhando. Então, para conseguir isso você precisa de uma técnica que eu chamo de Jacquard, que é uma forma de tecelagem onde você pega alguns fios e cria um padrão em relevo na superfície do tecido. Mas, como tudo é da mesma cor, você só percebe o Jacquard quando olha para ele de lado. O efeito é agradável e natural.

Então, é isso o que eu faço. Eu apanho esses pequenos segmentos de partes das histórias anteriores e os entrelaço com o ponto principal da história presente. Geralmente, é o suficiente para dar às pessoas alguma orientação para desfrutar da leitura. Mas é preciso muita engenharia para conseguir esse efeito. Esta é uma das razões pelas quais eu levo mais tempo hoje para escrever um livro do que costumava levar.

Uma outra questão é o fato de estar lidando com uma vasta quantidade de material que poderá ser usada novamente, sendo que qualquer parte desse material poderá aparecer de novo e eu não sei porque não planejo os livros com muita antecedência. Mas, enquanto estou trabalhando, eu penso, “Eu realmente quero usar esta batalha em particular por causa da época e da sua importância histórica, e porque tem um escocês nela. Será que devo escrever sobre isso?” Eu estou apenas usando pequenos pedaços dessa batalha enquanto continuamos. Então, de repente, por exemplo, King’s Mountain é uma batalha sobre a qual estou escrevendo no livro nove (Vá dizer às abelhas que parti).

Eu tive que ir para a Carolina do Norte com meu marido por causa de um trabalho que ele estava fazendo lá. Nós tiramos uma manhã de folga e dirigimos até a fronteira da King’s Mountain, para que eu pudesse andar pelo campo de batalha. É um campo de batalha bem pequeno. Ficava no topo dessa única montanha, então nós subimos até lá. Foi fascinante e a história é ótima. Meu marido adorou.

Mas como estava no local da cena, vi coisas que imediatamente fizeram sentido para mim. Comecei, não exatamente escrevendo na minha mente, mas visualizando o que aconteceu. Eu trago uma foto no meu celular, um instantâneo de um afloramento rochoso, porque quando passamos pelo lugar, eu disse ao meu marido: “Jamie se escondeu atrás das rochas para atirar através da clareira aqui em cima”. Ele disse “Eu imaginei isso”. Depois de ver a rocha, eu soube exatamente o que ele sentiu quando ficou atrás dela e também o que ele estava pensando.

Isso vai se tornando mais refinado na medida em que prossigo e desenvolvo outras coisas. Neste momento, estou trabalhando em coisas que contribuem para o seu estado de espírito quando ele foi para a batalha. Porque esta é uma batalha da qual ele sabe o resultado, assim como sabia em Culloden. É uma batalha menor e mais pessoal, por assim dizer, e faz parte da revolução. Mas, entrar em uma batalha sabendo o que vai acontecer é diferente de quando você não sabe.

A Claire estudou história quando soube que estava voltando para Jamie, para poder ajudar com esse tipo de coisa?

Na verdade, Roger é um historiador, então ele está sempre lá para trazer fatos extras e coisas assim, se precisarmos de algo mais específico.

Uma vez você disse que sabe o final da história.

Eu sei.

Mas se você não faz um esboço e vai com o fluxo…

Também não é isso. Não é nem mesmo questão de ir com o fluxo porque eu não escrevo em linha reta. Eu vou para onde a história me leva.

Então, houve algum ajuste na sua mente sobre o final por causa de algum caminho que você seguiu?

Oh, não, o final não depende de outras coisas. Ele se basta. Eu não tenho a menor ideia de como chegaremos lá. Eu só sei que é assim que termina.

Vai haver uma grande mudança na 4ª. temporada da série da TV porque vamos ver Murtagh novamente, que tinha morrido em Culloden nos livros. Você foi consultada? Uma vez você disse que não haveria problemas em mantê-lo vivo, você fez alguma contribuição enquanto eles falavam sobre as histórias onde ele apareceria?

Quando visitei a sala dos roteiristas, conversamos sobre o que eles tinham preparado para a quarte temporada e assim por diante. Eu disse: “Eu penso que, supondo, é claro, que se você está mantendo Murtagh vivo, seria interessante se isso acontecesse ou você talvez poderia usá-lo nesta parte do enredo”. E, na verdade, eles acataram ambas as sugestões. Mas, em geral, eu deixo as coisas para eles resolverem porque eles têm que construir a história.

Mas eles perguntaram a sua opinião quando terminaram?

Sim, eu sou uma consultora, o que significa que eles me mostram tudo, os esboços, os roteiros e as revisões dos roteiros. Eles me mostram as cenas que filmaram no dia e os episódios conforme são editados. Eles analisam várias versões diferentes antes de chegar à final, então eu assisto com música, sem música, vejo coisas diferentes sendo adicionadas e removidas. Eu posso fazer qualquer comentário durante o processo e eu digo a eles tudo o que penso.

Para mim, Os Tambores de Outono é um livro mais pessoal porque não se trata de interromper uma guerra ou resgatar o jovem Ian. Como você acha que ele será traduzido para a TV? Acha que atrairá o público? Que eles vão gostar dos momentos íntimos?

Vão, sim. Mas existem algumas tramas menores que manterão as coisas em movimento e eles tiveram que lidar com uma faceta da história de maneira diferente do livro. Mas eles conseguiram inseri-la de forma inteligente em outra trama que dava suporte a uma nova trama que não existia no livro. Esta é uma das suas invenções que funcionam muito bem. Mas nós mantemos a ação: há conflitos com os indígenas e coisas assim.

Stephen Bonnet, por exemplo?

Stephen Bonnet é um verdadeiro presente. Você o vê desde o início e ele praticamente percorre a coisa toda, reaparecendo periodicamente para causar problemas.

O que está acontecendo com Game of Thrones agora, George RR Martin está atrás das filmagens. Você se preocupa que isso possa acontecer com Outlander?

Não, eles nunca me alcançarão. Tem o livro nove, que devo terminar de escrever em oito ou nove meses. E depois tem apenas mais um livro, o livro dez. Leva em torno de 18 meses para filmar um livro e eles só filmaram quatro até agora e ainda nem terminaram a pós-produção, sem falar na exibição da quarta temporada.

Nós já acertamos a quinta e sexta temporadas. Esse deve ser o final. Não devemos continuar depois disso e, nesse caso, não há problemas. Mas, se continuarmos, lá se vão três anos. No máximo, eu levo cinco anos para terminar um livro, normalmente só quatro, dependendo do quanto eu preciso viajar.

Digamos que leve quatro anos. Quando eles estiverem terminando a sétima temporada, eu já terei terminado. É como eu disse, eles nunca me alcançarão. Estou cerca de dez anos à frente deles.

Uma vez você comentou que alguns personagens são mais sólidos. Poderia explicar?

Algumas pessoas são impostas a você, como os personagens históricos. Outras são impostas pelo roteiro. Por exemplo, Claire estava grávida no final de A Libélula no Âmbar. Obviamente havia um bebê. Então, quem é essa criança? Há uma razão para o intervalo de 20 anos entre A Libélula e A Viajante do Tempo e é por isso que não gosto de escrever sobre criancinhas. Elas são chatas. Eu não quero percorrer os vinte anos.

Claire é uma pessoa aventureira por natureza e também por vocação. Eu queria que ela acompanhasse Jamie nos campos de batalha, reunindo as pessoas, coisas assim. Mas esta é uma tarefa muito arriscada para uma mãe com uma criança pequena. Você provavelmente não faria nada disso se não fosse preciso. E, ao mesmo tempo, eu não queria vê-la acenando para Jamie que partia para a luta com uma criança mal-humorada repetindo: “Mamãe, mamãe, mamãe”, enquanto puxava sua saia. Além de não ser interessante, não é o que queria que ela fizesse.

Então, eu pensei: “Ok, vamos esperar e enfrentar a criança quando ela estiver crescida. Eu a conheci aos 18 anos de idade, sem ideia de como era. Eu sabia como eram seus pais, inclusive Frank. Então, o que foi resultado da sua natureza e o que foi resultado da sua criação? O quanto ela tinha de Frank em comparação com o pai que nunca conheceu? Ela não aprendeu nada com Jamie especificamente, mas quanto dele havia nela naturalmente? E quanto de Claire, e como eles se misturavam? Quais os aspectos das personalidades de todos eles que havia nela?

Apesar do que algumas pessoas pensam, não é como se você fizesse um esboço de giz e usasse pequenos blocos de Lego para construir sua personalidade, sua família, seus conflitos com irmãos, preferências por manteiga de amendoim e, então você dá um passo atrás e num passe de mágica o personagem cria vida. Você descobre o personagem, basicamente, é assim que funciona.

E é muito mais difícil descobrir um personagem sólido do que personagens formados em camadas como Jamie ou Claire. Eu imediatamente capto suas essências quando eles entram em cena. Mas, quanto mais trabalho com eles, mais camadas eles desenvolvem e mais arredondadas e pungentes são suas vidas.

Ainda há aqueles de natureza bem simples, como Lord John, que simplesmente aparecem do nada, se afastam e você olha pare eles e diz: “esse tipo de personagem é o mais fácil”.

Você desenvolveu os próprios contos de Lord John

Sim. Ele tem uma vida interessante longe da cena.

Diana Gabaldon watching wild geese fly overhead.

Diana Gabaldon observando gansos selvagens voando (cortesia Diana Gabaldon)

Alguma vez você já escreveu alguma cena e pensou: não, esta será um conto?

Às vezes. Embora eu possa achar que é um conto no início, as coisas acontecem. Eu vou trabalhar no livro nove e algo aparece de repente. Eu vou ouvir alguém dizer alguma coisa e vou imediatamente abrir uma nova janela. Às vezes, a coisa decola e se torna um conto. Mas eu sempre saberei de onde surgiu, como em Uma Praga de Zumbis, escreva o nome corretamente.

Eu consigo acompanhar o trabalho que estou desenvolvendo porque trabalho em vários projetos ao mesmo tempo. Cada livro ou cada conto tem seu próprio diretório ou pasta. Assim, todos os arquivos daquele livro ou conto entram em um único diretório. Cada um deles tem um arquivo M, um arquivo mestre, que é uma lista de nomes dos arquivos das cenas que estão armazenadas. E cada um tem cinco ou seis palavras-chave anexadas.

Então, se estou escrevendo alguma coisa e penso: “A-há! Isso explica porque aquele fato em particular aconteceu. Onde está arquivado, porque eu escrevi seis meses atrás?” Não me lembro do nome e, de fato, todos os nomes dos meus arquivos levam apenas o nome do livro. Todos são agora Jamie 9 e, em seguida, um símbolo para o ano em que estou trabalhando. Este é “Jamie 9#” e, em seguida, uma extensão de três dígitos que representa a data em que iniciei a cena. A única coisa importante é que o nome do arquivo deve ser exclusivo. Então, eu tenho os nomes exclusivos e as palavras-chave.

Eu abro o arquivo e talvez a única palavra-chave da qual eu me lembre seja mingau. Eu digito mingau e ele irá aparecer. Eu posso ver qual o arquivo que procuro e, então, posso abri-lo, ler através dele, ter certeza de que é o arquivo que procuro para só então anexá-lo. Às vezes, preciso adicionar algum atalho. Ás vezes, as coisas se encaixam, dependendo do quão orgânica elas são.

Brianna vem para a América para trazer notícias que poderão salvar a vida dos seus pais. Mas, quando voltar para o futuro, ela vai tentar saber o que aconteceu com eles?

Ela não vai precisar porque Jamie e Claire lhe escrevem cartas desde que ela partiu. Ela e Roger, assim que retornam, descobrem o esconderijo das cartas na garagem do reverendo. Elas estão todas empilhadas. Quando ela abre a primeira carta, as primeiras palavras são: “Nós estamos vivos”. No livro nove, você vai descobrir como a caixa chegou até o esconderijo.

The Great American Read vai ao ar nas noites de terça na PBS. Outlander estreia no domingo, dia 4 de novembro.

Fonte: Parade – 15/10/2018

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