A Escravidão Retratada em Outlander

Por: Ivana Kennedy

12/11/2018

O segundo episódio de Outlander acontece em River Run, propriedade de Jocasta Cameron, tia de Jamie. Como uma fazenda típica da Carolina do Norte no século 18, River Run cultivava algodão, tabaco, índigo, e pinho. Para manter a propriedade, Jocasta utliza 152 escravos. Claire, vinda do século 20, não consegue esconder seu choque e desgosto com a utilização de mão de obra escrava na fazenda. Jamie, apesar de ser do século 18, também não aparenta estar de acordo com o que era mais do que comum no mundo novo.

Quando Claire chega em seus aposentos na casa de Jocasta, duas escravas lhe cumprimentam como “Senhora Fraser”, ao que Claire imediatamente refuta “me chamem de Claire”. Não é à toa que as duas mulheres se espantam, afinal de contas, uma mulher branca, de classe alta, se dirigir de tal maneira a um escravo era inédito, quebrava todas as regras sociais estabelecidas para a época. Apesar de não presenciar a cena, Jocasta percebe o desconforto de Claire com a “situação” presente na fazenda.

Para uma mulher como Jocasta, que estava há mais de 20 anos vivendo na colônia britânica da Carolina do Norte, ter escravos era parte do status quo. Todos – e eu repito, TODOS – os fazendeiros das colônias possuíam escravos. No ano em que o episódio se passa, 1767, ainda existiam os leilões de escravos, prática que foi abolida cerca de uma década mais tarde, mais ou menos na mesma época da independência americana, 1776. Porém, mesmo após a extinção do tráfego de escravos da África para a América do Norte, os africanos que já residiam no mundo novo continuavam procriando e, por conseguinte, “gerando” novos escravos.

Nos séculos 18 e 19, na América do Norte, a escravidão era chamada de “instituição peculiar”, considerada um “mal necessário” ao estilo de vida das colônias. A visão que os próprios pais da revolução americana tinham da raça negra é de que ela era “inferior à raça branca em raciocínio crítico e beleza, mas superior em habilidade musical.” O autor de tal afirmação é Thomas Jefferson, em seu Notes on the State of Virginia, de 1785. Jefferson criticou a escravidão, mas possuiu escravos durante toda sua vida. Jefferson também escreveu que a existência de negros livres causaria uma guerra racial nos Estados Unidos. Para acabar com a escravidão, ele sugeriu que os filhos dos escravos fossem educados e enviados a uma terra estrangeira para colonizá-la, obtendo, assim, sua liberdade e extinguido a “instituição peculiar” dos estados americanos.

Jocasta quer que Jamie tome as rédeas da fazenda, o que consequentemente faria com que ele e Claire fossem donos dos 152 escravos que moravam em River Run. Levando-se em conta o contexto histórico, não é de se admirar que Jocasta e seus amigos se espantem ao ouvirem a ideia de Jamie e Claire de emancipar todos os escravos, para que eles sejam empregados normais, recebendo um salário justo por seu trabalho. A lei da época só permitia que um escravo fosse libertado caso ele executasse uma ação nobre, valorosa, como salvar a vida de seu senhor. Essa ação deveria ser documentada e levada até o magistrado local, para que o mesmo autorizasse a liberdade do escravo e lhe providenciasse papéis que atestassem tal liberdade. O dono do escravo ainda precisaria pagar uma taxa por cada escravo emancipado.

Ainda no final do primeiro episódio, Claire e Jamie conhecem um negro livre, que salvou a vida de seu senhor e recebera emancipação. Não demora muito para nosso casal protagonista se dar conta de que a ideia deles é praticamente impossível de ser posta em prática. Primeiro, como provar que cada um dos escravos agiu para salvar a vida de um homem ou mulher branco? Segundo, os fazendeiros vizinhos sentiriam-se ameaçados com a emancipação de tantos escravos de uma vez só. Esses escravos livres perturbariam a paz local, os escravos dos vizinhos poderiam se rebelar para que fossem libertos também. Terceiro, os lucros obtidos pelo cultivo do algodão, tabaco, índigo e pinho cairiam drasticamente uma vez que, a mão de obra que era livre, passasse a custar um salário.

Após testemunharmos todo o dilema com a posse de escravos em River Run, o segundo episódio desta temporada de Outlander ainda nos traz mais um exemplo verossímil do que acontecia caso um escravo se rebelasse, ou causasse dano a um homem branco. Jocasta pede a Jamie que vá até um dos locais de trabalho dos escravos, onde o “overseer”, o capitão que era responsável por gerenciar e punir os escravos, tem um deles pendurado pela barriga com um gancho. O motivo: o escravo em questão derramou sangue de um homem branco, o “overseer”. A punição para esse ato é a morte. É claro que Claire acompanha Jamie e, imediatamente, se empenha em salvar a vida do escravo. Num ato completamente radical para a época, ela comanda os servos da casa, mais Jamie e Ian, a trazerem o escravo para a sala de jantar, cuja mesa se transforma em uma mesa de operação!

Não demora muito para a notícia se espalhar pela vizinhança que, sentindo-se ameaçada, acompanha o capitão até a casa de Jocasta, exigindo que o escravo infrator seja entregue para que receba sua punição. Independentemente de como o escravo morra, ele deve ser pendurado pelo pescoço, estilo “hangman”, e exposto em um local de alto tráfego na fazenda, para servir de exemplo e aviso aos outros escravos – é isso que acontece com quem se rebela e infringe a lei. Essa prática se chamava “lynching”, e continuou ocorrendo, especialmente nos estados do sul, até muitos anos após a abolição da escravidão nos EUA, que se deu em 1865, imediatamente após o final da guerra civil americana. Abraham Lincoln, presidente na época, declarou a abolição de todos os escravos. Após o assassinato de Lincoln, e seguido do período de reconstrução do país, iniciou-se a segregação entre negros e brancos no sul americano. A segregação durou praticamente um século depois da abolição, chegando ao final durante o movimento dos direitos civis, ao redor de 1965 (Lembram de Martin Luther King Jr. e seu discurso “eu tenho um sonho?” Pois é, nessa época).

Sabendo que o homem cuja vida ela acabou de salvar sera inevitavelmente brutalizado e morto pela multidão de homens enraivecidos que espera em frente à casa de Jocasta, Claire toma a decisão de dar-lhe algo para evitar o pior. A sugestão vem de Jamie, ao lembrar de seu tio, para o qual Claire fez o mesmo. Após dar-lhe de beber a substância fatal, Claire pergunta ao homem, que se chama Rufus, sobre sua vida na África, sua família, o que faziam lá, do que ele lembra. Ao revelar esses detalhes pessoais sobre o escravo, o episódio o humaniza, dá-lhe identidade, o que faz com que as cenas finais do episódio sejam ainda mais chocantes. O relógio marca meia-noite, prazo máximo para que o escravo seja entregue ao motim. Ao recebê-lo, os homens em comando imediatamente colocam uma corda ao redor de seu pescoço, e erguem-no em um poste, para que seja visto por todos.

Essa cena final me lembrou muito a famosa música cantada por Billie Holiday, Strange Fruit – fruta estranha. A canção, lançada em 1939, diz que “as árvores do sul geram fruta estranha/ sangue nas folhas e sangue na raíz/ corpos negros balançando na brisa sulina/ fruta estranha pendurada nos álamos”. As “frutas” são os corpos dos negros linchados e pendurados como exemplo, muito semelhante ao final desse episódio de Outlander. A diferença entre o final desse episódio e a cena retratada na música é o “status” do negro e a legalidade da punição. Em Outlander, ele era escravo, e sua morte era lei; na música, em 1939, o negro era livre, e se fosse suspeito de um crime, merecia ir a julgamento como qualquer outro cidadão. A prática nos estados do sul, porém, era outra.

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(Foto acima: linchamento de Thomas Shipp e Abram Smith, em 07/08/1930, em Marion, Indiana. Essa imagem foi a inspiração para a cançãStrange Fruit, composta por Abel Meeropol)

Os escritores e diretores da série Outlander mais uma vez fizeram jus à obra de Diana Gabaldon, e nos presentearam com um episódio dramático, real e, apesar da morbidade do tema, fascinante. A “instituição peculiar” não deve ser glamorizada, mostrando o Senhor como um grande pai amoroso e seus escravos como seres protegidos e bem cuidados. Outlander conseguiu mostrar, em apenas um episódio, um retrato sincero do escravo africano nas colônias americanas do século 18.

Obras de referência para os dados mencionados no texto:

The Peculiar Institution: Slavery in the Ante-Bellum South, Kenneth M. Stampp

Notes on the State of Virginia, Thomas Jefferson

Battle Cry of Freedom: the Civil War Era, James M. McPherson

The Era of Reconstruction 1865-1877, Kenneth M. Stampp

Strange Fruit, cantada por Billie Holiday, com letra:

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2 comentários sobre “A Escravidão Retratada em Outlander

  1. Não tem como não se emocionar com esse episódio. Uma pergunta que sempre me faço é o que levou as pessoas a pensarem que outra por causa da sua cor fossem inferiores? É algo que pretendo pesquisar a fundo, é um tema que dói muito de ser abordado e acho que a série o fez primorosamente.

    Curtido por 1 pessoa

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