Livro vs Série – 2×03 – Useful Occupations and Deceptions

Conflitos, intrigas, dramas, conspirações e muito mais é o que encontramos nesse terceiro episódio da segunda temporada. Como já começamos a observar no episódio anterior, a trama da série segue seu próprio caminho, no que diz respeito a ordem de acontecimentos e alguns meios utilizados, porém chegando ao mesmo fim. Vamos a nossa análise comparativa, apontando as principais diferenças.

Como lembram, dissemos que Claire participava de um coro junto com outras damas, e é o seu regente que sugere que nossa enfermeira se voluntarie no Hôpital des Anges. Esse cenário, exclusivo do livo, foi adaptado. Jamie realmente não gosta da ideia de sua esposa passar seus dias no hospital e eles discutem seriamente, principalmente por Jamie se preocupar com os perigos que Claire pode se expor. Porém após o episódio da depilação, nosso ruivinho muda de ideia.

Confira os trechos:

— Ele tinha a garganta inflamada e isso me levou a lhe dizer o que deveria tomar e a falar um pouco sobre remédios em geral, e em como eu era interessada em doenças e, bem, você sabe como uma coisa leva a outra.
— Com você, sempre leva — concordou ele, com distinto cinismo. Ignorei o tom de sua voz e continuei.
— Assim, vou ao hospital amanhã. — Estiquei-me na ponta dos pés para pegar minha caixa de remédios de sua prateleira. — Talvez eu não a leve comigo da primeira vez — disse, examinando o conteúdo pensativamente. — Poderia parecer muito intrometida. O que acha?
— Intrometida? — Ele parecia perplexo. — Está pensando em visitar o lugar ou em se mudar para lá?
— Hã, bem — disse. Respirei fundo. — Eu, hã, achei que talvez pudesse trabalhar lá regularmente. Herr Gerstmann diz que todos os médicos e curandeiros que vão lá trabalham como voluntários. A maioria não vai lá todos os dias, mas eu tenho tempo de sobra e poderia…
— Sassenach, você está grávida! Não pretende sair para cuidar de mendigos e criminosos, não é? — Ele soava um pouco desamparado agora, como se imaginasse como lidar com alguém que acabou de enlouquecer bem diante dele.
— Eu não me esqueci — afirmei. Pressionei as mãos sobre minha barriga, baixando o olhar.
— Na verdade, ainda nem dá para notar; com um vestido largo posso escapar impune durante algum tempo. E não há nada de errado comigo, exceto o enjoo matinal. Não há nenhuma razão para eu não poder trabalhar por mais alguns meses.
— Nenhuma razão, exceto que eu não vou permitir que faça isso! — Como não teríamos visitas esta noite, ele tirara a echarpe do pescoço e abrira a gola da camisa ao chegar em casa. Eu podia ver a onda de cabelos ruivos avançando até seu pescoço.
— Jamie — protestei, procurando ser racional. — Você sabe o que eu sou.
— Você é minha mulher.
— Bem, isso também. — Afastei num acenar de desdém. — Sou enfermeira, Jamie. Uma curandeira. Você devia saber.
Ele ficou vermelho.
— Sim, sei. E porque você me curou quando eu estava ferido, eu deveria achar certo que você cuidasse de mendigos e prostitutas? Sassenach, você não conhece o tipo de gente que vai para o Hôpital des Anges? — Olhou-me com um olhar de súplica, como se esperasse que eu recobrasse o juízo a qualquer instante.
— Que diferença isso faz?
Olhou desesperadamente ao redor da sala, implorando o testemunho do retrato acima da lareira quanto à minha irracionalidade.
— Você pode pegar uma doença grave, pelo amor de Deus! Não tem nenhuma consideração pelo seu filho, ainda que não tenha nenhuma por mim?
Racionalidade parecia um objetivo cada vez menos desejável.
— Claro que tenho! Que tipo de pessoa irresponsável, insensível, você pensa que sou?
— O tipo que abandonaria o marido para ir brincar com esgoto na sarjeta! — retorquiu ele. — Já que perguntou. — Passou a enorme mão pelos cabelos, arrepiando-os no alto da cabeça.
— Abandoná-lo? Desde quando sugerir que preciso fazer alguma coisa é abandoná-lo? Não quero mais ficar apodrecendo no salão dos d’Arbanville, vendo Louise de Rohan entupir-se de doces e ouvindo poesia ruim e música pior ainda. Quero ser útil! […]
— Ah, é? E se eu proibi-la de ir?
Aquilo me paralisou por um instante. Empertiguei-me e olhei-o de cima a baixo. Seus olhos tinham a cor da ardósia cinza-escura, a boca larga e generosa apertada numa linha reta. Com os ombros largos e eretos, os braços cruzados sobre o peito como uma estátua de ferro fundido, “ameaçador” era a palavra certa para descrevê-lo.
— Você me proíbe? — A tensão entre nós crepitava. Eu queria piscar, mas não iria lhe dar a satisfação de interromper meu próprio olhar glacial. O que eu faria se ele me proibisse de ir? As opções corriam pela minha mente, tudo desde plantar o abridor de cartas de marfim entre suas costelas a atear fogo à casa com ele dentro. A única ideia que eu rejeitava completamente era a de ceder.
Ele parou e respirou fundo antes de falar. Seus punhos estavam cerrados junto às laterais do corpo e ele abriu as mãos num esforço consciente.
— Não — disse ele. — Não, eu não a proíbo. — Sua voz estremeceu um pouco com o esforço para controlá-la. — Mas e se eu lhe pedisse?
Abaixei os olhos e fitei seu reflexo no tampo lustrado da mesa. No começo, a ideia de visitar o Hôpital des Anges parecera-me meramente interessante, uma alternativa atraente para os infindáveis mexericos e intrigas mesquinhas da sociedade parisiense. Mas agora… podia sentir os músculos do meu braço avolumarem-se enquanto eu cerrava meus punhos. Eu não apenas queria trabalhar outra vez, eu precisava.
— Não sei — respondi finalmente.
Ele respirou fundo e soltou o ar devagar.
— Pensará nisso, Claire? — Podia sentir seus olhos em mim. Depois do que pareceu um longo tempo, assenti.
— Sim, pensarei.
— Ótimo. — A tensão quebrada, ele desviou-se, irrequieto. Ficou vagando pela sala de visitas, pegando pequenos objetos e devolvendo-os aleatoriamente, até parar junto à estante de livros, onde se apoiou, fitando sem ver os títulos nas capas de couro. Aproximei-me, hesitante, e coloquei a mão em seu braço.
[…]
— Está bem — disse Jamie resignadamente durante o desjejum. Apontou uma colher para mim, avisando: — Pode ir, então. Mas Murtagh a acompanhará, além do lacaio; é uma vizinhança pobre ali perto da catedral.
— Irá me acompanhar? — Sentei-me empertigada, empurrando para longe a tigela de mingau que eu vinha examinando com pouco entusiasmo. — Jamie! Quer dizer que você não se importa que eu visite o Hôpital des Anges?
— Não sei se não me importo — disse ele, comendo uma colherada do próprio mingau metodicamente. — Mas acho que vou me importar muito mais se ele não for com você. E se você trabalhar no hospital, ao menos isso impedirá que passe todo o seu tempo com Louise de Rohan. Imagino que haja coisas piores do que conviver com mendigos e criminosos — disse, com ar soturno. — Pelo menos, espero, não vai voltar do hospital com suas partes íntimas depenadas.
— Farei todo o possível — assegurei-lhe.

Outro ponto diferente ocorre quando Claire se dá conta de quem é Mary Hawkins, no livro isso ocorre antes mesmo de nossa viajante conhecer a jovem. Jamie tem uma reunião de negócios com o tio de Mary, e ao final Claire liga os pontos, o que leva a uma conversa sobre ser possível ou não mudar o futuro, já que Claire ainda possui sua aliança de ouro, porém não chegam a uma conclusão. O pensamento fica em aberto até que nosso casal descobre que o capital Randall ainda está vivo, muito capítulos à frente. Essa é outra adaptação. Claire descobre primeiro, porém apenas minutos antes de Jamie, em um encontro que vamos entrar em detalhes quando este for retratado na série. A adaptação acrescenta mais drama a história, além de condensar de forma que dê mais sentido ao público. Confira como nossa viajante descobre sobre a jovem Mary Hawkins e sua conversa com Jamie:

O sr. Hawkins saiu esfregando as mãos num verdadeiro frenesi de expectativa, e eu me virei imediatamente para Jamie.
— Gascogne! Ele deve estar se referindo… mas não é possível, é? Aquele velho nojento com manchas de rapé no queixo que veio jantar aqui na semana passada?
— O visconde de Marigny? — disse Jamie, sorrindo diante de minha descrição. — Acho que é ele mesmo; é viúvo e o único homem disponível da linhagem, até onde sei. Mas não acho que era rapé; é que a barba dele cresce daquele jeito. Um pouco roído pelas traças — admitiu —, mas deve ser um inferno fazer a barba com todas aquelas verrugas.
— Ele não pode casar uma menina de quinze anos com… com… aquilo! E sem nem ao menos consultá-la!
— Ah, acho que pode, sim — disse Jamie, com uma calma irritante. — De qualquer modo, Sassenach, não é da sua conta. — Segurou-me pelos dois braços com firmeza e sacudiu-me de leve. — Você me ouviu? Sei que parece estranho a você, mas é assim que as coisas são. Afinal — a boca larga curvou-se em um dos cantos —, você teve que se casar comigo contra a vontade. Ainda não se conformou com isso?
— Às vezes tenho dúvidas! — retruquei, com um safanão, tentando me desvencilhar, mas ele simplesmente me puxou, rindo, e me beijou. Após um instante, desisti de lutar.
Relaxei em seus braços, admitindo a capitulação, ainda que temporária. Eu iria me encontrar com Mary Hawkins, pensei, e veríamos exatamente o que ela pensava de tal proposta de casamento. Se ela não quisesse ver seu nome em um contrato de casamento, ligada ao visconde de Marigny, então… De repente, fiquei rígida, afastando-me do abraço de Jamie.
— O que foi? — perguntou ele, alarmado. — Está se sentindo mal, Sassenach? Você ficou lívida de repente!
E não era de se admirar. Porque subitamente me lembrei de onde eu tinha visto o nome de Mary Hawkins. Jamie estava errado. Aquilo era da minha conta. Porque eu havia visto esse nome, manuscrito com base em calcografia, no topo de um mapa genealógico, a tinta envelhecida e desbotada pelo tempo, a cor original transformada num tom sépia. Mary Hawkins não estava destinada a ser a mulher do decrépito visconde Marigny. Ela iria se casar com Jonathan Randall, no ano de 1745 de Nosso Senhor Jesus Cristo.
[…]
— Você sabe que ele está morto, não é, mo duinne? — sussurrou Jamie devagar, os dedos pousados no meu pulso, e eu sei que ele falava de Frank, não de Jonathan.
— Talvez não — respondi, os olhos ainda fixos na aliança. Ergui a mão, de modo que o metal brilhou na luz do final de tarde. — Se ele estiver morto, Jamie, se ele não vier a existir porque Jonathan está morto, então por que eu ainda tenho a aliança que ele me deu?
Ele fitou o anel e eu vi um pequeno músculo contorcer-se junto à sua boca. Vi que seu rosto também estava pálido. Não sabia se seria prejudicial para ele pensar em Jonathan Randall agora, mas não havia muita escolha.
— Tem certeza de que Randall não teve um filho antes de morrer? — perguntou ele. — Isso explicaria tudo.
— Sim, explicaria — disse. — Mas, não, tenho certeza de que não. Frank… — minha voz tremeu um pouco ao pronunciar seu nome e a mão de Jamie apertou meu pulso com mais força — Frank explicou-me com detalhes as circunstâncias trágicas da morte de Jonathan Randall. Disse que ele, Jack Randall, morreu no Campo de Culloden, na última batalha da revolução, e que seu filho nasceu alguns meses depois da morte do pai. Sua viúva casou-se outra vez, alguns anos mais tarde. Ainda que houvesse um filho ilegítimo, ele não estaria na linha de antepassados de Frank.
A testa de Jamie estava franzida e uma fina linha vertical corria entre as sobrancelhas.
— Poderia talvez ser um erro, que a criança não fosse de Randall? Frank pode descender apenas da linhagem de Mary Hawkins, pois sabemos que ela ainda vive.
Balancei a cabeça, desanimada.
— Não vejo como. Se você tivesse conhecido Frank… mas, não, acho que nunca lhe contei. Quando me deparei com Jonathan Randall pela primeira vez, pensei naquele instante que ele era Frank. Não eram iguais, é claro, mas a semelhança era… impressionante. Não, Jack Randall foi um antepassado de Frank, sem dúvida.
— Entendi. — Os dedos de Jamie haviam ficado úmidos; retirou-os do meu pulso e limpou-os distraidamente em seu kilt.
— Então… talvez a aliança não signifique nada, mo duinne — sugeriu ele meigamente.
— Talvez não. — Toquei o metal, quente como minha própria pele, depois deixei a mão cair desamparadamente. — Ah, Jamie, eu não sei! Eu não sei de nada!
Ele esfregou os nós dos dedos na ruga entre seus olhos, cansado.
— Nem eu, Sassenach.

Por fim, a carta cifrada e a ajuda de madre Hildegarde. Como na série, Jamie soube do conhecimento da madre supeiora sobre música e pede sua ajuda para decifrar o código. A diferença aqui é que em vez de só fornecer apenas os meios para Jamie decodifique a carta, é própria madre que a decodifica, com a ajuda de Claire, que passa a noite no convento auxiliando na tarefa. O tarefa leva a uma noite de trabalho e conversa entre as duas, além de solidificar sua amizade. Confira um trecho das conversas:

— Seja como for, madre. Acredita que pode, com seu dom, discernir qual é esse padrão em particular? Seria difícil; tenho razões para supor que seja um código e que a linguagem da mensagem esteja em inglês, embora as letras das músicas estejam em alemão.
Madre Hildegarde emitiu um pequeno murmúrio de surpresa.
— Inglês? Tem certeza?
Jamie balançou a cabeça.
— Não, não tenho certeza, mas acho que é. Uma das razões é o país de origem; as canções foram enviadas da Inglaterra.
— Bem, monsieur — disse ela, arqueando uma das sobrancelhas. — Sua mulher fala inglês, certo? E imagino que estaria disposto a sacrificar sua companhia para que ela me auxilie na realização desse trabalho para o senhor, não?
Jamie olhou para ela, o ligeiro sorriso em seu rosto refletindo a expressão da madre superiora. Abaixou os olhos para os pés, onde os bigodes de Bouton estremeciam com o resquício de um rosnado.
— Vou fazer um acordo com a senhora, madre — disse ele. — Se o seu cachorrinho não morder meu traseiro na saída, pode contar com a ajuda de minha mulher.
Assim, naquela noite, em vez de retornar para casa, a residência de Jared na rue Tremoulins, jantei com as irmãs do Couvent des Anges em sua longa mesa de refeitório e, em seguida, retirei-me para o trabalho noturno nos aposentos particulares de madre Hildegarde. […]
— Seu nariz está sujo de tinta — observou madre Hildegarde. Espreitou por cima do meu ombro. — Faz sentido?
— Sim — confirmei, a boca repentinamente seca. — Sim, faz sentido. Decifrada, a mensagem era breve e simples. Também profundamente perturbadora.
— “Os fiéis súditos de Sua Majestade da Inglaterra aguardam sua restauração legal. A quantia de cinquenta mil libras está à sua disposição. Como garantia de boa-fé, esta somente será paga pessoalmente, à chegada de Sua Alteza em solo inglês” — li. — E há uma letra sobrando, um S. Não sei se é uma espécie de assinatura ou apenas algo que a pessoa que escreveu precisou fazer para a palavra em alemão ficar correta.
— Hummm… — Madre Hildegarde olhou com curiosidade para a mensagem rabiscada, depois para mim. — Você já deve saber, é claro — disse ela, assentindo —, mas pode assegurar a seu marido que vou manter isso em segredo.
— Ele não teria pedido sua ajuda se não confiasse na senhora — protestei.
As sobrancelhas grosseiras ergueram-se até a borda de sua touca de freira e ela bateu de leve, mas com firmeza, no papel rabiscado.
— Se este for o tipo de atividade em que seu marido está empenhado, ele corre um sério risco em confiar em quem quer que seja. Assegure-lhe que fico sensibilizada com a honra — acrescentou ela secamente.
— Farei isso — disse, sorrindo.

Então, ficamos por aqui Sasses. E você gostou do episódio? Mudaria algo na adaptação? Comente!

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