Livro vs Série – 2×06 – Best Laid Schemes…

Sasses, prontas para mais intrigas, conspirações e ter um gostinho do drama forte vem por aí, e que provavelmente é uma das histórias a mais tristes dessa série? (sim estamos falando do 2×07). Por hora vamos para a nossa análise comparativa do sexto episódio pois, como sempre, a série foi bem fiel, porém adaptou diversos contextos, além de trazer alguns adicionais para a trama.

Vamos começar com a gravidez de Claire. Na trama original, nossa enfermeira percebe o sangramento e concluiu que sua gravidez é de risco em casa, em uma noite após voltar de um evento na corte, a ida ao haras que vimos no episódio passado. Sua gravidez também não está em estado tão avançado quando na série, pouco cinco meses. Com isso, ela passa as semanas seguintes em casa, em repouso, enquanto a trama vai se desenvolvendo. Confira o trecho em nosso casal se depara com rico da gravidez:

— O que foi, Sassenach? Eu não estou com aquele cheiro ainda, estou? — perguntou ele enquanto eu me mantinha encolhida e imóvel sob os cobertores, envolvendo o corpo com meus próprios braços.
— Não — disse. — Estou com medo. Jamie, estou sangrando.
— Santo Deus — disse ele num sussurro. Pude sentir o repentino tremor de medo que percorreu seu corpo às minhas palavras, idêntico ao que percorrera o meu. Apertou-me contra si, alisando meus cabelos e acariciando minhas costas, mas nós dois sentíamos a terrível sensação de impotência diante do desastre físico que torna inúteis suas ações. Apesar de ser tão forte, ele não podia me proteger; por mais vontade que tivesse, não podia ajudar. Pela primeira vez, eu não estava a salvo em seus braços e o conhecimento desse fato nos aterrorizava. — Você acha — começou ele, depois se interrompeu e engoliu em seco. Pude sentir o tremor percorrer sua garganta e ouvir o som do medo ao ser deglutido. — É grave, Sassenach? Você sabe?
— Não — disse. Abracei-o com mais força, tentando encontrar um porto seguro. — Não sei. Não é um sangramento forte; pelo menos, ainda não.
A vela ainda estava acesa. Olhou-me, a expressão sombria de preocupação.
— Quer que eu vá buscar alguém para você, Claire? Uma parteira, uma das mulheres do Hôpital?
Balancei a cabeça e umedeci meus lábios secos.
— Não. Eu não… eu não acho que haja alguma coisa que se possa fazer. — Era a última coisa que eu queria dizer; mais do que tudo, queria que pudéssemos encontrar alguém que soubesse como fazer tudo voltar ao normal.
Mas lembrei-me do início do meu estágio em enfermagem, dos poucos dias que passei na enfermaria obstétrica e das palavras de um dos médicos, dando de ombros ao deixar a cabeceira de uma paciente que sofrera um aborto espontâneo. “Não há realmente nada que se possa fazer”, dissera ele. “Se vão perder uma criança, em geral perdem mesmo, independentemente do que você faça. Repouso é a única recomendação possível, e às vezes, nem isso adianta.”
— Pode não ser nada — continuei, tentando nos animar. — Não é incomum as mulheres terem leves sangramentos às vezes, durante a gravidez. — Não era incomum nos primeiros três meses. Eu já estava com mais de cinco meses e isso não era de modo algum habitual. Entretanto, havia inúmeras causas de sangramento possíveis e nem todas eram graves. — Pode ser que esteja tudo bem — disse. Coloquei a mão sobre o ventre, pressionando delicadamente, e senti uma reação imediata do ocupante, um empurrão de quem está se espreguiçando, que no mesmo instante me fez sentir melhor. Senti uma onda de esfuziante gratidão que fez as lágrimas brotarem em meus olhos.
— Sassenach, o que posso fazer? — sussurrou Jamie. Passou o braço ao meu redor e sua mão repousou sobre a minha, segurando meu abdômen ameaçado.
Coloquei a outra mão sobre a dele e fiquei segurando-a no lugar.
— Apenas reze — disse. — Reze por nós, Jamie.

Apesar do repouso, temos alguns momentos divertidos do nosso querido casal, que acabaram sendo cortados, devido ao resumo da história como um todo. Mas não se alija, a gente traz esse trecho pra você:

Vendo que eu o fitava, Jamie enrubesceu levemente e retornou depressa a um exagerado interesse em seu livro. Virei de lado e coloquei a mão em sua coxa.
— Livro interessante? — perguntei, acariciando-o preguiçosamente.
— Hummm. Ah, sim. — O rubor intensificou-se, mas ele não tirou os olhos da página.
Rindo sozinha, enfiei a mão embaixo das cobertas. Ele deixou o livro cair.
— Sassenach! — disse ele. — Você sabe que não pode…
— Eu sei — disse —, mas você pode. Ou melhor, eu posso, por você.
Ele retirou minha mão com firmeza e devolveu-a para mim.
— Não, Sassenach. Não seria certo.
— Não? — questionei, surpresa. — Por que não?
Ele contorceu-se desconfortavelmente, evitando meus olhos.
— Bem, eu… eu não me sentiria bem, Sassenach. Ter o meu prazer, sem poder lhe dar… bem, acho que não seria certo, só isso.
Desatei a rir, deitando a cabeça em sua coxa.
— Jamie, você é gentil demais!
— Não sou gentil — disse ele, indignado. — Mas também não sou tão egoísta… Claire, pare com isso!
— Planejava esperar ainda vários meses? — perguntei, sem parar.
— Eu poderia — disse ele, com toda a dignidade possível nas circunstâncias. — Esperei vin-vin-te e dois anos e posso…
— Não, não pode — disse, afastando as cobertas e admirando a forma tão claramente visível sob seu camisolão de dormir. Toquei-o e ele remexeu-se levemente, ansioso sob minha mão. — O que quer que Deus tenha planejado para você ser, Jamie Fraser, não era um monge.
Com firmeza, ergui sua roupa de dormir.
— Mas… — começou ele a protestar.
— Dois contra um — disse, inclinando-me para baixo. — Você perdeu.

Dando continuidade, toda a história do investimento de Charles Stuart com o conde St. Germain também faz parte da história original, porém foi adaptada. Quando descobrem detalhes do carregamento, Claire já está em seu período de repouso em casa. A principal diferença é que eles planejam interceptar a carga na Espanha, e não na França. Então Claire cria do mesmo jeito todos os sintomas de Varíola, depois Murtagh parte em viagem para armar tudo, sendo ele a vítima. O combinado é que Jamie o encontre em algumas semanas, para concluir o plano, oferecendo-se para comprar a carga “contaminada” a um preço de custo, depois vendendo essa ilegalmente para que não chegue a França. Temos mais uma grande armação e menos ação. A parte e roubo à mão armada não existe. Outra diferença, nosso querido Murtagh não sabe a verdade sobre Claire no livro. Confira o plano original:

Murtagh, equipado com uma pequena bolsa cheia de essência de alecrim, extrato de urtiga e raiz de garança, partiria no fim de semana para Lisboa, aonde iria se infiltrar entre os marujos nas tavernas, descobrir qual o navio fretado pelo conde de St. Germain e dar um jeito de viajar nele, enquanto mandaria de volta a informação do nome do navio e da data de partida para Paris.
— Não, isso é comum — disse Jamie, em resposta à minha pergunta sobre a possibilidade de o capitão achar seu comportamento estranho. — Quase todos os navios de carga transportam alguns passageiros; quantos conseguirem espremer entre os conveses. E Murtagh terá dinheiro suficiente para fazer dele um acréscimo bem-vindo, nem que tenham que lhe dar a cabine do capitão. — Agitou o dedo indicador advertindo Murtagh. — E alugue uma cabine, entendeu? Não importa quanto custe; vai precisar de privacidade para tomar as ervas e não queremos correr o risco de alguém vê-lo, se você não tiver nada além de uma rede pendurada no fundo do navio. — Examinou seu padrinho com um ar crítico. — Tem um casaco decente? Se subir a bordo parecendo um mendigo, é provável que o joguem no porto antes de descobrirem o que carrega na bolsa.
— Hummm — disse Murtagh. O pequeno escocês em geral pouco contribuía para a discussão, mas o pouco que dizia sempre era pertinente e direto ao ponto. — E quando é que eu tomo o remédio? — perguntou ele.
Retirei do bolso a folha de papel onde havia escrito as instruções e dosagens. […]
— Não, eu me lembrarei. Há mais risco em ser encontrado com o papel do que em esquecer quanto tomar. — Virou-se para Jamie. — E você encontrará o navio em Orvieto, rapaz?
Jamie assentiu.
— Sim. Com certeza ele vai atracar lá; todos os transportadores de vinho o fazem, para pegar água potável. Se por acaso ele não o fizer, então… — Encolheu os ombros. — Alugarei um barco e tentarei alcançá-lo. Desde que eu suba a bordo antes de o navio chegar a Le Havre, tudo deve dar certo, mas será melhor se pudermos executar o plano enquanto ainda estivermos perto da costa da Espanha. Não pretendo ficar mais tempo ao mar do que o necessário. — Apontou com o queixo para a garrafa na mão de Murtagh. — É melhor esperar para tomar esse negócio depois que me vir subir a bordo. Sem testemunhas, o capitão pode seguir o caminho mais fácil e simplesmente jogá-lo pela popa à noite.
Murtagh grunhiu.
— Sim, eles podem tentar. — Tocou o punho de sua adaga, dando uma ênfase ligeiramente irônica à palavra “tentar”.
Jamie franziu a testa.
— Não se esqueça do seu papel. Para todos os efeitos, você deve estar com varíola. Com sorte, terão medo de tocar em você, mas, só por garantia… espere até eu estar ao alcance do seu chamado e estarmos seguros em alto-mar.
— Hummm.
Olhei de um para o outro. Embora fosse um plano rebuscado, era provável que funcionasse. Se o capitão do navio pudesse ser convencido de que um de seus passageiros estava infectado com varíola, não iria, em hipótese alguma, levar seu navio para o porto de Le Havre, onde as restrições sanitárias francesas exigiriam sua destruição. E, diante da necessidade de voltar com sua carga para Lisboa e perder todo o lucro da viagem, ou perder duas semanas em Orvieto enquanto a notícia era enviada a Paris, ele poderia muito bem, em vez disso, consentir na venda da carga para o rico comerciante escocês que acabara de subir a bordo. […]
O pequeno escocês guardou os frascos na bolsa do seu kilt, embrulhando cada um metodicamente num pedaço de couro fino e macio para impedir que quebrassem.
— Enviarei notícias sobre o navio e sua partida assim que puder. E encontro com você na costa da Espanha dentro de um mês. Terá o dinheiro antes disso?
Jamie meneou a cabeça afirmativamente.

Outro ponto adaptado foi a conversa de Claire com o monsieur Forez, que na série para que nossa enfermeira alertasse seu amigo, Master Raymond, dos riscos que ele corria. No livro, o carrasco visita nosso casal em casa, levando alguns remédios e saudações de Madre Hildegarde para Claire, que se encontra em repouso. Todo o procedimento de execução relatado por Forez acontece em uma conversa casual com nosso casal, na qual o tema principal é a execução de traidores. Fica claro a visita do executor foi a forma que a madre superiora encontrou de avisar Claire e Jamie dos riscos que estavam correndo. Confira o trecho da conversa do nosso casal após a visita, que também deixa claro a ignorância de Murtagh sobre a verdadeira história de Claire:

— Bem, no que diz respeito a avisos — disse ele —, esse foi muito eficaz.
Estremeci ligeiramente.
— Foi mesmo, não?
— Quem você acha que o enviou? — perguntou Jamie. — Madre Hildegarde?
— Acredito que sim. Ela me avisou, quando decodificamos a música. Disse que o que você estava fazendo era perigoso. — Não percebi o quanto era perigoso até a visita do carrasco. Eu já não sofria de enjoo matinal há algum tempo, mas senti meu estômago revirarse. Se qualquer um dos senhores jacobitas vier a saber o que andei fazendo, acho que considerarão isso traição. E que medidas tomariam, se viessem a descobrir?
Para todos os efeitos externos, Jamie era um partidário jacobita declarado; sob esse disfarce, ele visitava Charles, recebia o conde Marischal para jantar e frequentava a corte. E até agora ele fora muito habilidoso, nos jogos de xadrez, nas visitas às tavernas e nas suas festas, em minar a causa Stuart, ao mesmo tempo que parecia apoiá-la externamente. Além de nós dois, somente Murtagh sabia que pretendíamos frustrar a revolta dos Stuart e nem mesmo ele sabia o motivo, apenas aceitando a palavra de seu patrão. A dissimulação era necessária enquanto estivéssemos operando na França. Mas o mesmo disfarce marcaria Jamie como traidor caso ele um dia pusesse os pés em solo britânico.
Eu sabia disso, é claro, mas em minha ignorância havia pouca diferença entre ser enforcado como um fora da lei e executado como um traidor. A visita de monsieur Forez dera um jeito nessa ingenuidade.

Por fim, o duelo. Toda a sequência foi muito fiel ao livro, incluindo Claire perdendo os sentidos fechado o episódio, assim como fechou o capítulo correspondente. O que você pode ser perguntar é: se no livro ela está há semanas em casa de repouso, como ela soube do duelo. Jamie saiu para resolver um problema, que levou ao duelo. Nossa viajante recebeu a visita de algumas senhoras da corte, que enquanto a esperavam fofocavam sobre Lord Broch Tuarach e a situação que levou a um duelo com um oficial inglês. Claire estava ouvindo atrás da porta.

Confira:

Eu estava suficientemente desajeitada para descer a escada devagar, meu peso fazendo os degraus rangerem sob a sola dos meus pés a cada passo. A porta de almofadas da sala de visitas estava fechada, mas ouvi claramente uma voz em seu interior.
— Você acha que ela já sabe?
A pergunta, feita no tom de voz baixo que pressagia os mexericos mais escandalosos, chegou a mim quando eu estava prestes a entrar na sala. Em vez disso, parei na soleira, fora do alcance de visão.
Fora Marie d’Arbanville quem falara. Bem-vinda em todo lugar por causa da posição de seu idoso marido, e muito afeita à vida social até para os padrões franceses, Marie ouvia tudo que valia a pena ser ouvido nos círculos de Paris.
— Já sabe do quê? — A resposta foi de Louise; sua voz alta, sonora, possuía a perfeita autoconfiança da aristocrata inata, que não se importava com quem pudesse ouvir o que dizia.— Ah, você ainda não sabe! — Marie agarrou-se à oportunidade como uma gatinha, encantada por achar um novo ratinho para brincar. — Meu Deus! É claro, eu mesma só soube uma hora atrás.
E veio correndo até aqui para me contar tudo, pensei. O que quer que fosse. Achei que, de minha posição no corredor, eu tinha uma chance melhor de ouvir a versão não expurgada.
— Trata-se de milorde Broch Tuarach — disse Marie. Eu não precisava vê-la para imaginá-la inclinando-se para frente, os olhos verdes correndo de um lado a outro, saltando de prazer com as novidades. — Hoje de manhã, ele desafiou um inglês para um duelo por causa de uma prostituta! […]
— A senhora está bem, madame? — A voz ansiosa de Magnus abafou as subsequentes
exclamações de Louise. Estendi a mão, tateando, e ele agarrou-a imediatamente, colocando a
outra sob meu cotovelo para apoiar-me.
— Não. Não estou bem. Por favor… poderia dizer isso às senhoras? — Fiz um gesto fraco indicando a sala de visitas.
— Claro, madame. Logo em seguida, mas deixe-me levá-la ao seu quarto primeiro. Por aqui, chère madame… — Conduziu-me pelas escadas, murmurando palavras de conforto enquanto me amparava. Acompanhou-me até a chaise do quarto, onde me deixou, prometendo enviar uma criada imediatamente para me assistir.
Não esperei pela ajuda; depois do choque inicial, eu conseguia me movimentar bem.
Levantei-me e atravessei o cômodo até onde estava minha pequena caixa de remédios, sobre a penteadeira. Eu não sentia que ia desmaiar agora, mas havia um frasco de amônia na caixa que eu queria ter à mão, só por garantia. Levantei a tampa e parei, imóvel, olhando fixamente para a caixa. Por um instante, minha mente recusou-se a registrar o que meus olhos viam; a folha de papel branco dobrada, desveladamente colocada entre as garrafinhas multicores. Notei, um pouco abstraidamente, que meus dedos tremiam quando peguei o papel; foram necessárias várias tentativas para abri-lo.
Sinto muito. As palavras eram arrojadas e pretas, as letras cuidadosamente alinhadas no centro do papel, um “J” solitário desenhado com igual esmero. E abaixo delas, mais duas palavras, essas rabiscadas de modo apressado, como um postscript de desespero: Eu preciso!

Então por hoje é isso! Gostou episódio Sasse? Curtiu as adaptações? Faria diferente? Comente, deixe sua opinião! 😊

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