Livro vs Série – 2×10 – Prestonpans

Que comecem as batalhas da Revolução Jacobita! O décimo episódio da segunda temporada, Prestonpans, é marcado por muita ação, retratando a batalha que dá título ao capítulo. Foi um marco histórico real, muito bem retratado tanto no livro, quanto na série. Claro que houve adaptações, mas todo o teor narrativo em si foi bem fiel.

Vamos começar com algumas adições que tivemos ao episódio. Como já foi dito, Dougal só dá as caras no livro mais a frente, então sua presença na batalha é exclusiva da série. O teste do terreno lamacento também foi um adicional bem-vindo e bem humorado. A presença de Charles também é menor no livro, ele está sempre em reunião com seus comandantes, mas aparece fazendo um belo discurso para os feridos após a batalha, todavia não o vemos muito além disso. Sua interação com Jamie ocorre nesse momento.

No episódio, eles mostraram o atendimento médico centrado em Claire, numa única casa. Uma pequena adaptação. Apesar de Claire comandar boa parte do atendimento aos feridos, o atendimento foi dividido, tendo ajuda de uma escocesa, de quem vamos falar a seguir, e seu primo (um médico que Claire não confiava muito rs). Até mesmo a ideia de construir um hospital de campanha foi de nossa enfermeira, que contou com a ajuda de Jenny Camaron, uma mulher forte, que guiou os homens de seu Clã para batalha até a chegada atrasada de seu irmão. Confira um trecho sobre a criação do hospital e a divisão dos atendimentos após a batalha:

Logo descobri que eu estava certa em minha suposição quanto à força da personalidade de Jenny. Uma mulher capaz de incitar trezentos homens e conduzi-los através das montanhas para lutar por um almofadinha de sotaque italiano muito chegado a um conhaque sem dúvida tinha pouca paciência com o tédio e um raro talento para convencer as pessoas a fazerem o que ela queria.
— Muito bem pensado — disse ela, ao ouvir meu plano. — Meu primo Archie fez alguns preparativos, eu espero, mas é claro que ele quer estar com o exército neste momento. — Seu queixo firme projetou-se um pouco mais. — É onde está toda a diversão, afinal — disse com ironia.
— Surpreende-me que você não tenha insistido em acompanhá-los — falei.
Ela riu, o rosto pequeno, sem atrativos, com seu maxilar retraído, fazendo-a parecer um buldogue bem-humorado.
— Eu o faria, se pudesse, mas não posso — admitiu ela francamente. — Agora que Hugh chegou, ele fica tentando me mandar de volta para casa. Eu lhe disse — olhou ao redor para se certificar que não estávamos sendo ouvidas e abaixou a voz em tom de conspiração — que era mais fácil eu ir para o inferno do que voltar para casa e ficar sentada. Não enquanto eu puder ser útil aqui.
Parada à soleira da porta da cabana, olhou com todo o cuidado para baixo e para cima da rua.
— Achei que não me dariam ouvidos — disse. — Sendo inglesa.
— Sim, tem razão, mas ouvirão a mim. Não sei quantos serão os feridos, Deus queira que não muitos. — Ela benzeu-se discretamente. — Mas é melhor começarmos pelas cabanas próximas à casa paroquial; vai dar menos trabalho transportar água do poço. — Com ar decidido, ela saiu da soleira e começou a descer a rua, eu seguindo-a logo atrás.
Fomos ajudadas não só pelo poder de persuasão da posição e da personalidade da srta. Cameron, quanto pelo fato de a espera ser uma das situações mais infelizes para um homem — não que lhes aconteça amiúde; as mulheres o fazem com muito mais frequência. Quando o sol desapareceu por trás da igreja de Tranent, já tínhamos as bases rudimentares de uma brigada hospitalar organizada.
[…]
Não havia tempo para mais nada; homens feridos continuavam a chegar e cada civil capaz da vila fora instado a prestar serviços cuidando deles. O médico Archie Cameron, irmão de Lochiel, corria de uma cabana para outra, nominalmente no comando e realmente fazendo um bom trabalho aqui e ali.
Eu dera ordens para que qualquer homem dos Fraser de Lallybroch fosse levado para a cabana aonde eu conduzia minha própria triagem, avaliando depressa a gravidade dos ferimentos, enviando os que ainda podiam se locomover para mais abaixo na rua para serem tratados por Jenny Cameron, os moribundos para o quartel-general de Archie Cameron na igreja — eu o considerei competente para administrar láudano e o ambiente ao redor podia oferecer algum consolo.
Os feridos gravemente eu tratava como podia. Ossos quebrados na casa ao lado, onde dois cirurgiões do regimento Macintosh podiam aplicar talas e ataduras. Os feridos no peito eram recostados o mais confortavelmente possível contra a parede, numa posição sentada, para ajudar a respiração; não dispondo de oxigênio ou recursos cirúrgicos, havia pouco mais que eu pudesse fazer por eles. Os que possuíam ferimentos graves na cabeça eram despachados para a igreja com os que estavam obviamente morrendo; eu nada tinha a oferecer-lhes e estariam melhor nas mãos de Deus, se não nas de Archie Cameron.
Membros estraçalhados ou amputados e ferimentos abdominais eram os piores. Não havia nenhuma possibilidade de esterilização; tudo que eu podia fazer era lavar minhas próprias mãos entre os cuidados de um paciente e outro e, com uma carranca, obrigar minhas assistentes a fazerem o mesmo — ao menos enquanto estivessem diretamente sob o meu escrutínio —, e tentar assegurar que os curativos que usávamos tivessem sido todos fervidos antes da aplicação. Eu sabia, sem sombra de dúvida, que precauções semelhantes estavam sendo ignoradas como perda de tempo nas outras cabanas, apesar de minhas instruções. Se eu não conseguira convencer as freiras e médicos do Hôpital des Anges da existência de germes, era improvável que conseguisse com uma mistura de donas de casa escocesas e cirurgiões do exército que também serviam de veterinários.

Outra adaptação foi a forma como vimos a batalha. Como o livro é todo narrado por Claire, temos apenas sua perspectiva, ouvindo canhões, sons da batalha, então a chegada dos feridos. No entanto, quando tudo se acalma, Jamie conta como tudo aconteceu para sua esposa. Uma forma desabafar e também de nós leitores vivenciarmos o conflito. Um fato curioso do combate, em sua incursão inicial, nocauteando vigias, Jamie encontrou o padre escocês que estava acompanhando os soldados para dar unção e possíveis benções, que em vez de ficar atrás das linhas de defesa, acabou indo parar na linha de frente da batalha. Confira um trecho desse momento:

— Mon Dieu! — murmurou o homem, benzendo-se, e Jamie cerrou os dentes de irritação. Era o maldito padre francês de Keppoch, vestido, por sugestão de O’Sullivan, com xale escocês e camisa, como os combatentes.
— O homem insistiu que era seu dever levar os sacramentos aos feridos e mortos no campo de batalha — explicou-me Jamie, prendendo seu xale manchado mais alto no ombro.
A noite estava ficando ainda mais fria. — A ideia de O’Sullivan era de que, se os ingleses o pegassem em seu hábito, o fariam em pedacinhos. Quanto a isso, talvez sim, talvez não. Mas ele parecia um palerma em trajes escoceses — acrescentou com ar de censura.
O comportamento do padre também não ajudara a amenizar a impressão causada por sua vestimenta. Percebendo tardiamente que seu assaltante era um escocês, suspirou de alívio e em seguida abriu a boca. Com um rápido movimento, Jamie tapou-a antes que qualquer pergunta imprudente pudesse emergir.
— O que faz aqui, padre? — grunhiu ele, a boca pressionada contra o ouvido do sacerdote. — Você deve ficar atrás das linhas.
Os olhos arregalados do padre revelaram a verdade a Jamie — o homem de Deus, perdido na escuridão, achou que realmente estivesse atrás das linhas e a compreensão tardia de que na verdade ele estava na vanguarda dos escoceses que avançavam fez seus joelhos amolecerem.
Jamie olhou para trás; não ousava mandar o padre de volta pelas linhas. Na escuridão enevoada, ele poderia facilmente dar de cara com um escocês, ser tomado por um inimigo e ser morto ali mesmo. Segurando o homenzinho pela nuca, forçou-o a ajoelhar-se.
— Deite-se no chão e fique aí até o fogo cessar — sussurrou no ouvido do padre. Ele assentiu meneando a cabeça de modo frenético, depois viu o corpo do soldado inglês, deitado no chão a poucos passos de distância. Ergueu os olhos aterrorizados para Jamie e pegou os frascos de crisma e água benta que trazia presos ao cinto, no lugar de uma adaga.
Revirando os olhos de exasperação, Jamie fez uma série de gestos enérgicos, tentando indicar que o sujeito não estava morto e assim não precisava dos serviços do padre. Tendo os gestos fracassado em sua intenção, ele se inclinou, segurou a mão do sacerdote e pressionou seus dedos no pescoço do inglês, como o método mais simples de ilustrar que o homem não era na verdade a primeira vítima da batalha.

E nessa conversa sobre a batalha, no final dela, temos uma fala, um momento compartilhado por nosso casal que vemos o quantos as batalhas podem afetar nossos queridos personagens. Confira:

— Eles correram — disse ele baixinho. — Um homem virou-se para me enfrentar… durante toda a luta, apenas um. Todos os outros, eu peguei por trás. — Esfregou a mão encardida no rosto e pude sentir um ligeiro tremor desprender-se do âmago de seu ser.
— Eu me lembro… de tudo — disse ele, quase num murmúrio. — Cada golpe. Cada rosto. O homem deitado no chão à minha frente que se mijou todo de medo. Os cavalos berravam. Todos os odores: pólvora, sangue e o cheiro do meu próprio suor. Tudo. Mas era como se eu estivesse do lado de fora, observando a mim mesmo. Eu não estava realmente lá.
— Ele abriu os olhos e olhou para mim pelo canto do olho. Estava quase dobrado ao meio, a cabeça sobre os joelhos, o tremor visível agora. — Sabe como é? — perguntou ele.
— Sei.
Embora eu não tivesse lutado com espada ou adaga, havia lutado muitas vezes com as mãos e a força de vontade; atravessando o caos da morte somente porque não havia outra escolha. E isso realmente deixava aquela sensação estranha de distanciamento; o cérebro parecia erguer-se acima do corpo, avaliando e instruindo com frieza, as vísceras obedientemente subjugadas até a crise passar. Era sempre algum tempo depois que os tremores começavam.
Eu ainda não havia atingido esse ponto. Retirei o manto dos meus ombros e o cobri antes de voltar para dentro da cabana.

Por fim, vamos falar sobre as mortes. No episódio, tivemos Angus e Kincaid, sendo nosso baixinho MacKenzie a mais sentida pelos fãs. No livro, Angus é o empregado pessoal de Colum, logo não faz parte da trupe de Dougal, nem aparece nas batalhas. Aliás, não vemos nenhum dos homens de Dougal nessa batalha. No entanto, Jamie perde sim uma de seus homens, Kincaid, como foi na série. Confira a cena:

Encontrei-os finalmente um pouco acima da colina atrás da igreja. Jamie estava sentado numa rocha, a figura de Alexander Kincaid deitada em seus braços, a cabeça de cabelos cacheados pousada em seu ombro, as pernas longas e cabeludas pendendo, lânguidas, para o lado. Ambos estavam imóveis como a rocha sobre a qual estavam sentados. Imóveis como a morte, embora somente um deles estivesse morto.
Toquei a mão branca e frouxa, para ter certeza, e pousei a mão na espessa cabeleira castanha, parecendo ainda incoerentemente viva. Um homem não devia morrer virgem, mas este morrera.
— Ele se foi, Jamie — murmurei.
Ele não se moveu por um instante, mas depois assentiu, abrindo os olhos como se relutasse em encarar a realidade da noite.
— Eu sei. Morreu pouco depois que eu o trouxe para fora, mas eu não queria deixar que ele se fosse.
Segurei-o pelos ombros e o estendemos delicadamente no chão. Havia capim ali e o vento da noite agitava as folhas ao seu redor, roçando-as de leve em seu rosto, um toque afetuoso da terra.
— Você não queria que ele morresse sob um teto — disse, compreendendo. O céu nos cobria com sua vastidão, aconchegante com suas nuvens, mas infinito em sua promessa de refúgio.
Ele assentiu devagar, depois se ajoelhou junto ao corpo e beijou a testa ampla e lívida.
— Eu gostaria que alguém fizesse o mesmo por mim — disse ele num sussurro. Dobrou uma ponta do xale escocês sobre os cachos castanhos e murmurou alguma coisa em gaélico que eu não compreendi.
Um posto médico de campanha não é um lugar para lágrimas; há trabalho demais a ser feito. Eu não chorara o dia inteiro, apesar de tudo que vira, mas naquele momento cedi, ainda que apenas por alguns instantes. Reclinei o rosto sobre o ombro de Jamie em busca de sua força e ele tocou-me de leve, para me consolar. Quando ergui os olhos, enxugando as lágrimas do rosto, vi-o ainda olhando fixamente, os olhos secos, para a silenciosa figura no chão. Sentindo que eu o observava, olhou para mim.
— Chorei por ele enquanto ainda estava vivo para saber, Sassenach — disse ele serenamente.

A maior diferença entre livro e série nesse episódio deve ser a profundidade e detalhes que o material literário, por ser mais vasto, traz. No entanto, o episódio foi realmente bem construído. Falas e momentos do livro foram muito bem utilizados.

E é assim que nos despedimos hoje. E você Sasse, gostou do episódio? Sentiu falta de alguma passagem do livro? Comente! Deixa opinião com a gente!

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