Livro vs Série – 3×07 – Crème de Menthe

Chegamos ao sétimo episódio, Crème de Menthe, que marca a metade da terceira temporada (como o tempo passa rápido, não?!). Nesse ponto, vale destacar que tivemos grandes mudanças e adaptações. A série contou a história por sua própria ótica, alterando algumas tramas e personagens e cortando outras. Vamos começar a nossa análise e entender essas modificações.

O episódio começa com o ataque a Claire, que após quase matar o sujeito ao se defender, tenta salvar a vida do agressor. A série optou por evidenciar o lado médico e cuidador da nossa viajante. No livro, tudo ocorre de maneira bem diferente. Claire intercepta o invasor no térreo do bordel e, como na série, é confundida com uma prostituta. Vendo a “Honrada Esposa” de Jamie sendo agarrada pelo braço e agredida com palavras, nosso chinesinho, sr. Willoughby, simplesmente atira no sujeito o matando na hora, o que causa certo tumulto. Como na série, o corpo é escondido em um barril de Crème de Menthe. Confira o trecho do confronto original:

Parei no largo patamar ao pé das escadas, procurando ouvir o barulho de barris sendo rolados para me guiar. Enquanto permanecia ali parada, senti uma repentina corrente de ar nos meus pés descalços e virei-me, deparando-me com um homem de pé no vão da porta que dava para a cozinha.
Pareceu tão surpreso quanto eu, mas depois de pestanejar em minha direção, sorriu e adiantou-se para me segurar pelo cotovelo.
— É um bom dia para você, minha cara. Eu não esperava encontrar nenhuma de vocês acordada por aí tão cedo pela manhã.
— Bem, sabe o que dizem sobre dormir cedo e acordar cedo — disse, tentando liberar meu cotovelo.
Ele riu, exibindo dentes ruins em um maxilar estreito.
— Não, o que dizem?
— Bem, é algo que dizem na América, pensando melhor — respondi, percebendo de repente que Benjamin Franklin, ainda que publicado atualmente, provavelmente não tinha muitos leitores em Edimburgo.
— Você é inteligente, doçura — disse ele, com um leve sorriso. — Ela a mandou aqui para baixo como chamariz, para desviar minha atenção, não foi?
— Não. Quem? — disse.
— Madame — disse ele, olhando à volta. — Onde está ela?
— Não faço a menor ideia — disse. — Solte-me!
Em vez de me soltar, ele apertou meu braço com mais força, enfiando os dedos desconfortavelmente nos músculos do meu antebraço. Inclinou-se para mais perto, sussurrando em meu ouvido com uma baforada de vapores malcheirosos de tabaco.
— Há uma recompensa, você sabe — murmurou ele confidencialmente. — Uma porcentagem do valor do contrabando apreendido. Ninguém precisaria ficar sabendo além de mim e você. — Deu uma pancadinha de leve embaixo do meu seio, fazendo o mamilo eriçar-se sob o algodão fino. — O que me diz, doçura?
Encarei-o fixamente. “Os guardas alfandegários estão nos meus calcanhares”, dissera Jamie. Portanto, este devia ser um deles; um funcionário da Coroa, encarregado da prevenção de contrabando e prisão de contrabandistas. O que Jamie dissera? “O pelourinho. Pregos nas orelhas. Açoitamento. Prisão. Exílio”, dissera ele, abanando a mão despreocupadamente, como se tais penalidades fossem equivalentes a uma multa de trânsito.
— De que você está falando? — disse, tentando parecer intrigada. — E pela última vez, solte-me! — Ele não devia estar sozinho, pensei. Quantos outros haveria pela casa?
— Sim, por favor, soltar — disse uma voz atrás de mim. Vi os olhos do guarda alfandegário arregalarem-se quando olhou por cima do meu ombro.
O sr. Willoughby estava no segundo degrau da escada numa amarfanhada roupa azul de seda, uma grande pistola segura com as duas mãos. Balançou a cabeça educadamente para o funcionário da alfândega.
— Não prostituta vil. Honrada esposa.
O funcionário da Coroa, visivelmente espantado com a repentina aparição de um chinês, olhava com cara de idiota de mim para o sr. Willoughby e de novo para mim.
— Esposa? — disse ele, incrédulo. — Está dizendo que ela é sua esposa?
O sr. Willoughby, obviamente entendendo apenas a palavra enfatizada, balançou a cabeça amavelmente.
— Esposa — repetiu ele. — Por favor, soltar. — Seus olhos eram apenas duas fendas injetadas de sangue e era evidente para mim, ainda que não para o guarda alfandegário, que seu sangue ainda continha uma grande dosagem de álcool.
O funcionário puxou-me para ele e olhou de cara feia para o sr. Willoughby.
— Agora, escute aqui — começou ele. Não pôde prosseguir, porque o sr. Willoughby, evidentemente presumindo que já dera um bom aviso, ergueu a pistola e puxou o gatilho.
Ouviu-se um grande estalo e um grito agudo ainda mais alto, que deve ter sido meu, e o patamar encheu-se com uma nuvem de fumaça cinza de pólvora.
O funcionário recuou cambaleando, batendo contra os lambris da parede, um olhar de imenso espanto no rosto e uma crescente roseta de sangue no peito do casaco.
Num ato reflexo, dei um salto para a frente e agarrei o homem por baixo dos braços, amparando-o e deitando-o sobre as tábuas do assoalho do patamar das escadas. Ouviu-se um alvoroço de comoção acima, conforme as moradoras da casa aglomeravam-se, todas falando e exclamando ao mesmo tempo, no patamar superior, atraídas pelo tiro. Passadas apressadas subiam pelas escadas inferiores, dois degraus de cada vez.
Fergus irrompeu pelo que deveria ser a porta da adega, uma pistola na mão.
— Milady — disse ele ofegante, vendo-me sentada no canto com o corpo do funcionário espalhado em meu colo. — O que você fez?
— Eu? — perguntei, indignada. — Eu não fiz nada, foi o mascote chinês do Jamie. — Fiz um breve sinal com a cabeça na direção das escadas, onde o sr. Willoughby, a pistola largada a seus pés, sentara-se no degrau e agora observava a cena abaixo com um olhar benevolente e injetado. […]
Mais pés subiam as escadas a toda velocidade. Jamie irrompeu pela porta da adega e mal conseguiu parar antes de pisar nas pernas abandonadas do funcionário morto. Seus olhos viajaram por toda a extensão do corpo e pousaram em meu rosto com horrorizada surpresa.
— O que você fez, Sassenach? — perguntou ele.
— Não ela, o verme amarelo — explicou Fergus, poupando-me o trabalho.
Enfiou a pistola no cinto e ofereceu-me sua mão verdadeira. — Venha, milady, tem que ir para baixo!

Outra adaptação envolve os Ians, sim no plural. Originalmente, Ian sênior reencontra Claire numa situação um pouco mais embaraçosa, enquanto ela ainda estava na cama logo após acordar. No livro, isso ocorre antes do jovem Ian aparecer. Quando ele aparece, ele não dá tempo de Claire se apresentar, ela apenas deixa entendido que conhece o seu pai, o que faz o garoto ter maus pensamentos do progenitor. Ian também não volta para casa, ele busca o filho pela cidade, e quando ocorre o incêndio, está lá para presenciar tudo. Após todo o ocorrido que todos são formalmente apresentados uns aos outros. Aqui percebemos que a história sobre o desaparecimento de Claire também é diferente. Ela teria ido para a França, onde supostamente tinha família. As colônias, como abordado na série, talvez faça mais sentido pela distância e dificuldade de comunicação.

Confira alguns trechos do encontro com Ian sênior e a conversa com jovem Ian depois do incêndio:

— Você não está com ele? O pequeno Ian não está aqui?
— O pequeno Ian? Santo Deus, homem, acha que eu traria um garoto de catorze anos para um bordel?
Ian abriu a boca, em seguida fechou-a, e sentou-se no banco.
— Para lhe dizer a verdade, Jamie, já não sei o que você seria capaz de fazer — disse ele sem se alterar. Ergueu os olhos para seu cunhado, o maxilar tenso. — Houve uma época em que eu sabia. Mas agora não sei mais.
— E o que você quer dizer com isso?
Eu podia ver a onda de raiva subir ao rosto de Jamie.
Ian relanceou os olhos para a cama e desviou-os outra vez. O rubor não desapareceu do rosto de Jamie, mas eu vi um ligeiro tremor no canto de sua boca. Fez uma mesura elaborada para seu cunhado.
— Queira me desculpar, Ian, eu estava esquecendo meus bons modos.
Permita-me apresentar-lhe minha companheira. — Deu um passo em direção à cama e puxou as cobertas para trás.
— Não! — gritou Ian, ficando de pé num salto e olhando freneticamente para a porta, o armário, qualquer lugar exceto a cama.
— O que, não vai cumprimentar minha esposa, Ian? — disse Jamie.
— Esposa? — Esquecendo-se de desviar o olhar, Ian fitou Jamie com os olhos arregalados de horror. — Você se casou com uma prostituta? — disse ele com voz rouca.
— Eu não diria exatamente isso — eu disse. Ao ouvir minha voz, Ian girou a cabeça em minha direção. — Olá — disse, acenando alegremente para ele do meu ninho de cobertas. — Faz muito tempo, não é?
Sempre achei um pouco exageradas as descrições do que as pessoas faziam ao ver fantasmas, mas fui obrigada a rever minhas opiniões à luz das reações que eu vinha recebendo desde que voltara para o passado. Jamie simplesmente desmaiara e ainda que os cabelos de Ian não estivessem literalmente em pé, ele com certeza parecia estar apavorado.
Com os olhos esbugalhados, ele abriu e fechou a boca, emitindo um pequeno som gorgolejante que parecia divertir Jamie intensamente.
— Isso vai ensiná-lo a não sair por aí pensando o pior do meu caráter — disse ele, com evidente satisfação. Com pena do seu trêmulo cunhado, Jamie serviu uma pequena dose de conhaque e entregou o copo a ele. — Não julgues e não serás julgado, certo?
Achei que Ian iria derramar a bebida nas calças, mas ele conseguiu levar o copo à boca e engolir.
— O que… — disse ele num fio de voz, os olhos lacrimejando enquanto olhava fixamente para mim. — Como…?
— É uma longa história — disse, com um rápido olhar para Jamie. Ele fez um breve sinal com a cabeça. Tivéramos outras coisas em que pensar nas últimas vinte e quatro horas, além de como me explicar às pessoas e, nas circunstâncias atuais, achei que as explicações poderiam esperar.
— Acho que não conheço o Jovem Ian. Ele desapareceu? — perguntei educadamente.
Ian balançou a cabeça mecanicamente, sem tirar os olhos de mim.
— Ele fugiu de casa na última sexta-feira — disse ele, parecendo um pouco aturdido. — Deixou um bilhete explicando que fora ao encontro do tio. — Tomou mais um longo gole do conhaque, tossiu e pestanejou várias vezes, depois limpou os olhos e sentou-se direito, olhando para mim. — Não é a primeira vez, sabe — disse-me ele. Parecia estar recuperando a autoconfiança, vendo que eu parecia ser de carne e osso, e que não dava sinais nem de saltar da cama, nem de colocar minha cabeça sob o braço e sair passeando sem ela, à maneira dos fantasmas das Terras Altas.
[…]
— Então eu vim pra cá — explicou ele. — Achei que tio Jamie devia ficar sabendo disso. Mas ele não estava aqui. — O garoto olhou de relance para mim e suas orelhas ficaram ainda mais vermelhas.
— E por que você achou que ele deveria estar aqui? — Ian dirigiu um olhar penetrante a seu rebento e em seguida girou-o para seu cunhado. A raiva fervente que Ian vinha reprimindo desde a manhã eclodiu repentinamente. — Jamie Fraser, seu desgraçado, trazendo meu filho para uma casa de prostituição!
— E grande coisa você é para falar, pai! — O Jovem Ian estava de pé, cambaleando um pouco, mas com os punhos grandes e ossudos cerrados ao lado do corpo.
— Eu? E o que você quer dizer com isso, seu paspalhão? — gritou Ian, os olhos arregalando-se de indignação.
— Quero dizer que você é um hipócrita! — gritou seu filho com a voz rouca.
— Fazendo sermão para mim e Michael sobre pureza e ter uma única mulher, enquanto o tempo todo você se esgueira pela cidade atrás de prostitutas!
— O quê? — O rosto de Ian ficou inteiramente roxo. Olhei assustada para
Jamie, que parecia estar achando graça na situação.
— Você é um… um… maldito túmulo caiado! — O Jovem Ian lançou triunfalmente essa disparatada comparação, depois parou como se tentasse pensar em outra do mesmo nível. Abriu a boca, mas nada emergiu além de um leve arroto.
— O garoto está meio bêbado — disse a Jamie.
Ele levantou a jarra de cerveja, examinou o conteúdo no interior e devolveua à mesa.
— Tem razão — disse ele. — Eu devia ter notado há mais tempo, mas não dá para saber, chamuscado como está.
O Ian mais velho não estava bêbado, mas a expressão de seu rosto parecia-se muito à de seu filho, o semblante afogueado, os olhos saltados e os tendões do pescoço tensionados.
— O que está querendo dizer com isso, pirralho? — gritou ele. Avançou ameaçadoramente em direção ao Jovem Ian, que sem pensar recuou um passo e sentou-se abruptamente, quando suas panturrilhas bateram na beira do sofá.
— Ela — disse ele, reduzido a monossílabos. Apontou para mim, para deixar bem claro a quem se referia. — Ela! Você está enganando minha mãe com essa prostituta imunda, é isso que eu quero dizer!
Ian desferiu um tapa no ouvido do filho que o derrubou, esparramado no sofá.
— Seu grande idiota! — disse ele, escandalizado. — Bela maneira de falar de sua tia Claire, e também de mim e de sua mãe!
— Tia? — O Jovem Ian fitou-me boquiaberto do meio das almofadas, parecendo-se tanto a um filhote de ave implorando comida que eu desatei a rir a despeito de mim mesma.
— Você saiu antes que eu pudesse me apresentar hoje de manhã — disse.
— Mas você está morta — disse ele, estupidamente.
— Ainda não — assegurei-lhe. — A menos que tenha pegado pneumonia de ficar sentada aqui com roupas molhadas.
Seus olhos arregalados haviam se transformado em dois círculos perfeitos enquanto me olhava fixamente. Um brilho fugidio de empolgação iluminou-os.
— Algumas das mulheres mais velhas de Lally broch dizem que você era uma mulher sábia, uma dama branca, ou talvez até mesmo uma fada. Quando tio Jamie voltou de Culloden sem você, disseram que talvez você tivesse voltado para as fadas, de onde provavelmente viera. É verdade? Você mora na colina das fadas?
Troquei um olhar com Jamie, que revirou os olhos para cima.
— Não — disse. — Eu hã… eu…
— Ela fugiu para a França depois de Culloden — interrompeu Ian repentinamente, com grande firmeza. — Pensou que seu tio Jamie tivesse morrido na batalha, então foi para a casa de seus parentes na França. Ela fora uma amiga particular do príncipe Tearlach, não podia voltar para a Escócia sem se colocar em grande perigo. Mas depois ela ouviu falar de seu tio e assim que soube que seu marido não estava morto, afinal de contas, pegou um navio na mesma hora e veio ao encontro dele.
O Jovem Ian ficou boquiaberto. Eu também.
— Hã, sim — disse, fechando a boca. — Foi isso que aconteceu.
O garoto moveu os olhos arregalados e brilhantes de mim para o tio.
— Então, você voltou para ele — disse ele, com ar de felicidade. — Nossa, isso é muito romântico!

Outra cena que foi modificada, essa para dar sentido e ritmo a narrativa da série, diz respeito a primeira vez do jovem Ian, que no livro ocorre no bornal com uma das meninas de Madame Jeanne. Como na série, tudo é arranjado por Fergus, porém no livro, temos uma participação cômica de um Jamie que defende, ou tenta, a virtude. Confira:

— Mas Bruno disse que a casa não está cheia esta noite — interpôs Fergus, olhando ao redor com certa perplexidade. — Por que o garoto não…
— Porque ele só tem catorze anos, pelo amor de Deus! — disse Jamie, escandalizado.
— Quase quinze! — corrigiu o Jovem Ian, sentando-se ereto e parecendo interessado.
— Bem, isso sem dúvida é suficiente — disse Fergus, lançando um olhar rápido para madame Jeanne em busca de confirmação. — Seus irmãos tinham a mesma idade quando eu os trouxe aqui pela primeira vez, e eles desempenharam sua função com honra.
— Você o quê? — Jamie arregalou os olhos para seu protegido.
— Bem, alguém tinha que fazer isso — disse Fergus, com ligeira impaciência. — Normalmente, o pai de um rapaz… mas, é claro, o monsieur não está… sem querer desrespeitar seu prezado pai, é claro — acrescentou ele, com um sinal da cabeça para o Jovem Ian, que respondeu com o mesmo gesto como um brinquedo mecânico —, mas é uma questão de decisão experiente, compreende? Bem — virou-se para madame Jeanne, com ar de um gourmand consultando o sommelier. —, Dorcas, o que acha? Ou Penélope?
— Não, não — disse ela, sacudindo a cabeça com firmeza. — Deve ser a segunda Mary, sem dúvida. A pequenina.
— Ah, a de cabelos louros? Sim, acho que tem razão — disse Fergus, com aprovação. — Vá buscá-la, então.
Jeanne saiu antes que Jamie conseguisse emitir não mais do que um grasnado fraco em protesto.
— Mas… mas o garoto não pode — começou ele.
— Posso, sim — disse o Jovem Ian. — Ao menos, acho que posso. — Seu rosto não poderia ficar mais vermelho do que já estava, mas suas orelhas estavam escarlate de empolgação, os eventos traumáticos do dia sendo completamente esquecidos.
— Mas é que… não posso deixá-lo — Jamie interrompeu-se e fitou seu sobrinho por um longo instante. Finalmente, lançou as mãos para o alto, num exasperado sinal de derrota. — E o que eu vou dizer à sua mãe? — perguntou ele, quando a porta abriu-se atrás dele.
Emoldurada no vão da porta estava uma jovem bem baixa, rechonchuda e lisa como uma perdiz em sua camisola de seda azul, seu rosto meigo e redondo iluminado por um amplo sorriso sob uma nuvem solta de cabelos louros. Ao vêla, o Jovem Ian ficou paralisado, mal conseguindo respirar.
Quando finalmente ou ele respirava ou morria, ele respirou e voltou-se para Jamie. Com um sorriso de inigualável doçura, disse:
— Bem, tio Jamie, se eu fosse você — sua voz ergueu-se repentinamente num preocupante soprano e ele parou, limpando a garganta antes de retomar um barítono respeitável —, não contaria a ela. Boa noite, tia — disse ele, saindo com passos resolutos.

Agora vamos falar um pouco sobre os Campbell, que na série são casal de irmãos adivinhos. No livro, Archibald é um pastor da Igreja Livre, enquanto sua irmã sofre de uma doença nervosa, causada pelo trauma que sofreu ainda adolescente em Culloden. A série criou uma narrativa a parte para os irmãos, dando um peso diferente para os mesmos na história.

No livro, eles também voltam a desempenhar seus papéis em capítulos futuros, por isso vale conferir um trecho com a história deles:

Margaret Campbell nascera em Burntisland, há menos de oito quilômetros de Edimburgo, do outro lado do estuário do Forth. Na época da Revolução de 1745, quando Charles Stuart entrou em Edimburgo para reclamar o trono do pai, ela era uma jovem de dezessete anos.
— O pai dela era partidário do rei, é claro, e seu irmão estava em um regimento do governo, marchando para o norte para debelar os rebeldes — disse a srta. Cowden, tomando um gole ínfimo do seu cordial para fazê-lo durar. — Mas não a srta. Margaret. Não, ela era simpatizante do príncipe Charles e dos homens das Terras Altas que o seguiam.
Em particular, de um deles, embora a srta. Cowden não soubesse seu nome.Mas devia ter sido um belo homem, pois a srta. Margaret saiu furtivamente de casa para se encontrar com ele e passou-lhe todas as informações que ela colheu das conversas de seu pai e dos amigos dele, bem como das cartas de seu irmão para a família.
Então, veio Falkirk; uma vitória, mas obtida a um preço muito alto, seguida de retirada. Rumores davam conta da fuga do exército do príncipe para o norte e ninguém duvidava que sua fuga levaria à destruição. A srta. Margaret, desesperada com os boatos, deixou sua casa na calada da noite na fria primavera de março e foi ao encontro do homem que amava.
Agora, nesse ponto, o relato era duvidoso — se ela encontrara o sujeito e ele a rejeitara ou se ela não o encontrara a tempo e fora forçada a voltar da charneca de Culloden. De qualquer forma, ela voltou, e no dia seguinte à batalha ela havia caído nas mãos de um bando de soldados ingleses.
— Terrível, o que fizeram com ela — disse a srta. Cowden, abaixando a voz, como se a figura na poltrona pudesse ouvir. — Terrível! — Os soldados ingleses, cegos com a luxúria da caçada e da matança, perseguindo os fugitivos de Culloden, não pararam para perguntar seu nome ou as preferências de sua família. Souberam, pelo seu sotaque, que ela era escocesa e isso foi o suficiente.
Deixaram-na como morta numa vala rasa de água congelada e somente a presença casual de uma família de ciganos, escondida nos arbustos próximos por medo dos soldados, a salvou.[…]
Margaret sobrevivera, mas nunca mais falou. Um pouco recuperada, mas silenciosa, ela viajou com os ciganos, indo para o sul com eles, para evitarem o saque das Terras Altas que se seguiu a Culloden. Então, certo dia, sentada no pátio de uma espelunca, segurando a lata para recolher as moedas enquanto os ciganos cantavam e dançavam, ela foi encontrada por seu irmão, que parara com seu regimento Campbell para descansar no caminho de volta a seu quartel em Edimburgo.
— Ela o reconheceu e ele também a reconheceu, e o choque do reencontro lhe devolveu a voz, mas não a mente, pobre coitada. Ele a levou para casa, é claro, mas ela parecia estar sempre no passado, algum tempo antes de conhecer o escocês das Terras Altas. Seu pai já estava morto, da epidemia de gripe, e Tilly Lawson disse que o choque de vê-la matou sua mãe também, mas pode ter sido a gripe também, que matou muita gente naquele ano.
O caso deixara Archibald Campbell profundamente amargurado tanto com os escoceses das Terras Altas quanto com o exército inglês, e ele pediu demissão de seu posto. Com os pais mortos, ele viu-se razoavelmente rico, mas era o único sustento para sua irmã doente. […]
Em seu infortúnio, ele voltou-se para Deus e tornou-se ministro. Incapaz de deixar sua irmã ou de suportar o confinamento da casa da família em Burntisland com ela, ele comprou uma carruagem, contratou uma mulher para tomar conta de Margaret e começou a fazer viagens curtas pelos arredores para pregar, muitas vezes levando-a com ele.
Ele foi muito bem-sucedido em seus sermões e este ano fora convidado pela Associação dos Missionários Presbiterianos a fazer sua mais longa viagem até então, para as Índias Ocidentais, para organizar igrejas e nomear presbíteros nas colônias de Barbados e Jamaica. Orações lhe deram sua resposta. Ele vendeu a propriedade da família em Burntisland e mudou-se com sua irmã para Edimburgo, enquanto faz os preparativos para a viagem.

Por fim, o incêndio. Ele também ocorre no livro, sendo acidental quando o jovem Ian tenta impedir o invasor da gráfica. A principal diferença é o sentimento de Jamie para com seu meio de vida. No livro, ele corre para o fogo e tenta salvar o máximo de equipamento possível. Algum tempo depois, a sombra do jovem Ian é vista no segundo andar da loja, é então que o impressor parte para o resgate do sobrinho. Confira:

— Minha gráfica! — Com um grito de angústia, Jamie correu para os degraus da entrada e abriu a porta com um chute. Uma nuvem de fumaça saiu em rolos pelo vão da porta aberta e engoliu-o como uma fera faminta. Vislumbrei sua figura, cambaleando com o impacto da fumaça; em seguida, lançou-se de joelhos e arrastou-se para dentro do prédio.
Inspirados pelo seu exemplo, vários homens da multidão subiram os degraus da gráfica e, como ele, desapareceram no interior tomado pela fumaça. O calor era tão intenso que senti minhas saias voarem contra minhas pernas com o deslocamento de ar provocado e perguntei-me como os homens podiam suportar o calor lá dentro. […]
Eu não acreditava que os esforços da brigada do balde, embora valiosos, fariam muito efeito no que obviamente era um manancial de produtos inflamáveis. Eu ia de um lado para o outro da calçada, tentando inutilmente ver algum movimento no interior, quando o primeiro homem na fileira do balde deu um grito de pavor e saltou para trás, bem a tempo de evitar ser coroado com uma bandeja de tipos de chumbo que zuniu pelo vão da janela quebrada e aterrissou nas pedras do calçamento com um estrondo, espalhando lingotes em todas as direções.
Dois ou três moleques contorceram-se pela multidão e procuraram agarrar os lingotes, mas vizinhos indignados aplicaram-lhes uns tapas e os puseram para correr. Uma mulher gorda de touca e avental avançou como uma flecha, sem medo de correr o risco, e assumiu a custódia da bandeja de tipos, arrastando-a para o meio-fio, onde se agachou protetoramente sobre ela, como uma galinha chocando os ovos.
Entretanto, antes que seus companheiros pudessem resgatar os tipos caídos, foram rechaçados por uma chuva de objetos lançados das duas janelas. Mais bandejas de tipos, almofadas de tinta, cilindros e frascos de tinta, que se quebraram no calçamento, deixando grandes manchas em forma de teias de aranha, que escorriam para as poças derramadas pelos bombeiros. […]
O calor tornava-se cada vez mais intenso; eu podia sentir meus pulmões ressecarem e trabalharem com esforço a cada tragada de ar quente, e fiquei aterrorizada por Jamie. Por quanto tempo ele conseguiria respirar, naquele nevoeiro infernal de fumaça e calor, sem falar no perigo das próprias chamas?
— Jesus, Maria Santíssima! — Ian, abrindo caminho à força pela multidão apesar de sua perna artificial, surgiu repentinamente ao meu lado. Ele agarrou meu braço para manter o equilíbrio quando uma nova chuva de objetos forçou as pessoas à nossa volta a recuar outra vez.
— Onde está Jamie? — gritou ele no meu ouvido.
— Lá dentro! — berrei em resposta, apontando.
Viu-se um súbito alvoroço e comoção na entrada da gráfica, com uma gritaria confusa que se elevou acima do barulho do incêndio. Surgiram vários pares de pernas, embaralhando e arrastando os pés de um lado para outro sob a nuvem emergente de fumaça que saía em vagalhões pela porta. Seis homens emergiram, Jamie entre eles, cambaleando sob o peso de uma enorme peça de maquinaria — a preciosa impressora de Jamie. Desceram com cuidado os degraus e a empurraram para o meio da multidão. Em seguida, voltaram para a gráfica.
Tarde demais para qualquer outra manobra de resgate; ouviu-se um estrondo lá dentro, uma nova explosão de calor que fez a multidão recuar aos tropeções, e subitamente as janelas do andar superior iluminaram-se com chamas saltitantes no interior. Um pequeno fluxo de homens jorrou do prédio, tossindo e asfixiados, alguns deles rastejando, enegrecidos de fuligem e molhados do suor de seus esforços. A equipe do carro de bombeiros bombeava água furiosamente, mas o pesado jato de água de sua mangueira não causava o menor impacto nas labaredas.
A mão de Ian fechou-se no meu braço como as garras de uma armadilha.
— Ian! — gritou ele, suficientemente alto para ser ouvido acima do barulho da multidão e do incêndio.
Ergui os olhos na direção do seu olhar e vi um vulto espectral na janela do segundo andar. Pareceu lutar rapidamente com a vidraça e depois cair para trás ou ser envolvido pela fumaça. […]
— Desça, companheiro! — gritou ele com voz rouca. — Você não vai conseguir, a escada desabou! — Olhou ao redor, me viu e atirou Ian para trás, desequilibrado e atordoado, direto em meus braços. — Segure-o — gritou, acima do rugido das chamas. — Vou buscar o garoto!
Com isso, virou-se e arremeteu-se pela escada acima do prédio contíguo, abrindo caminho entre os fregueses da loja de chocolate do térreo, que haviam saído para a calçada, a fim de observar a agitação, admirados e com ar idiota, os canecos de estanho ainda nas mãos. […]
— O que ele vai fazer lá em cima? — pensei, sem perceber que estava pensando em voz alta até o barbeiro, a meu lado, protegendo os olhos, responder.
— Há um alçapão no telhado da gráfica, madame. Sem dúvida, o sr. Malcolm pretende obter acesso ao andar superior por ali. É o aprendiz dele que está lá em cima?
— Não! — retorquiu Ian, ao ouvir o barbeiro. — É meu filho!
O barbeiro encolheu-se diante do olhar desesperado de Ian, murmurando e benzendo-se:
— Ah, sim, senhor, sim!
Um grito da multidão transformou-se num rugido quando duas figuras apareceram no telhado da casa de chocolate.

Sasses, vamos ficando por aqui, com um livro vs série recheado de trechos para vocês. E o que vocês acharam do episódio? Fariam algo diferente? Comentem!

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