Livro vs Série – 3×10 – Heaven and Earth

Chegamos ao décimo episódio, no qual nosso amado casal se encontra separado mais uma vez. De um lado Claire luta como pode para acabar com a doença que assola o Porpoise, do outro vemos Jamie desesperado no Artemis tentando armar um plano para resgatar a esposa. Mas no livro não foi exatamente assim. Vamos começar nossa análise e entender as principais mudanças narrativas.

A série mostra Jamie inconformado disposto a realizar motim, o que o leva a prisão. Ele usa a benção pendente ao casamento de Fergus e Marsali como vantagem, algo que nunca ocorreu no livro. Vamos por parte, primeiro, depois de muita discussão inicial logo no início da viagem, Jamie, muito contrariado, dá sua benção para o jovem casal, mas diz que os mesmo devem esperar chegar à terra firma para se casarem perante um padre. Confira:

Desconcertado, Jamie esfregou um dedo pelos lábios. Em seguida, respirou fundo e retornou ao ataque.
— Seja como for — disse ele —, você é nova demais para se casar.
— Tenho quinze anos; é mais do que suficiente!
— Sim, e ele tem trinta! — rebateu Jamie. Ele sacudiu a cabeça. — Não, menina, sinto muito, mas não posso deixá-la fazer isso. Se não fosse por nenhum outro motivo, a viagem é perigosa demais…
— Você está levando ela! — O queixo de Marsali projetou-se desdenhosamente em minha direção.
— Deixe Claire fora disso — disse Jamie sem se alterar. — Ela não é da sua conta e…
— Ah, não é? Você troca minha mãe por essa vagabunda inglesa e a torna motivo de chacota em toda a região e ela não é da minha conta, é isso? — Marsali levantou-se e bateu o pé no chão. — E tem a maldita coragem de dizer o que eu devo fazer?
— Tenho — disse Jamie, controlando a raiva com dificuldade. — Meus assuntos particulares não são problema seu…
— E os meus não são da sua conta!
Fergus, parecendo assustado, também se levantou, tentando acalmar a jovem.
— Marsali, ma chère, não deve falar com milorde dessa forma. Ele só está…
— Falo com ele do jeito que eu quiser!
— Não, não fala, não! — Surpresa com a repentina rispidez no tom de voz de Fergus, Marsali pestanejou. Apenas quatro ou cinco centímetros mais alto do que sua mulher, o francês possuía uma certa autoridade inflexível que o fazia parecer muito mais alto do que era. — Não — disse ele em tom mais suave. — Sente-se, ma p’tite. — Pressionou-a a sentar-se de novo no beliche e ficou parado à sua frente. — Milorde tem sido para mim mais do que um pai — disse amavelmente para a jovem. — Devo-lhe minha vida mil vezes. Ele também é seu padrasto. Seja o que for que sua mãe pense dele, ele sem sombra de dúvida tem sustentado e protegido sua mãe, você e sua irmã. Você lhe deve ao menos respeito.
Marsali mordeu o lábio, os olhos faiscando. Finalmente, ela baixou a cabeça sem jeito para Jamie.
— Desculpe-me — murmurou ela, e a tensão na cabine abrandou-se ligeiramente.
— Tudo bem, menina — disse Jamie, irritado. Olhou para ela e suspirou. — Mas, ainda assim, Marsali, temos que enviá-la de volta a sua mãe.
— Eu não irei. — A jovem estava mais calma agora, mas o queixo continuava empinado da mesma forma. Ela olhou para Fergus, depois para Jamie. — Ele diz que não dormimos juntos, mas dormimos. Ou, de qualquer modo, eu afirmarei que dormimos. Se me mandar de volta para casa, direi a todo mundo que ele me possuiu; portanto, como vê, ou eu serei casada ou estarei com a reputação arruinada. — Seu tom de voz era sensato e determinado.
Jamie cerrou os olhos.
— Que Deus me livre das mulheres — disse ele entre dentes. Abriu os olhos e fitou-a com irritação. — Está bem! — disse. — Vocês estão casados. Mas vão fazer isso direito, diante de um padre. Acharemos um nas Índias, quando desembarcarmos. E enquanto não forem abençoados, Fergus não tocará em você. Entenderam? — Olhou ferozmente para ambos.
— Sim, milorde — disse Fergus, o rosto banhado de alegria. — Merci beaucoup! — Marsali estreitou os olhos para Jamie, mas vendo que ele não poderia ser demovido, abaixou a cabeça recatadamente, com um olhar de soslaio para mim.
— Sim, papai — disse ela.

Outra mudança no que diz respeito ao Jamie foi sua briga com a tripulação. No livro, entendemos que Artemis continua seu curso seguindo o Porpoise, dentro do seu ritmo. O navio inglês sofre alguns percalços e é obrigado a parar para reparos. Nesse momento, Artemis volta a alcança-lo, mas se mantém fora de vista. Jamie vai sorrateiramente para o navio “inimigo” e procura por sua esposa. Lá ele acaba sendo capturado e descobre que a cirurgiã havia sido dada como perdida no mar (sim aqui ela já havia fugido exatamente como na série), porém a doce Annekje conta para Jamie que Claire fugiu e o ajuda a fazer o mesmo.

Confira alguns trechos sobre a aventura do nosso escocês:

Ele esperara até escurecer para que Robbie MacRae o levasse no barco a remo. Raines dissera-lhe que o Porpoise provavelmente içaria âncora na maré do começo da noite, daqui a duas horas. Se pudesse encontrar Claire e fugir pela amurada antes disso — poderia nadar com ela facilmente até a praia — o Artemis estaria à sua espera, escondido numa pequena enseada do outro lado da ilha Caicos. Se não pudesse — bem, lidaria com isso quando acontecesse. […]
Claire. Perdida. Afogada. Morta.
Inclinou-se para o lado e vomitou. Engasgava-se e tossia, como se seu corpo tentasse com todas as forças expelir o pensamento. Não funcionou; quando finalmente parou, apoiando-se, exausto, contra o anteparo, a sensação continuava. Até respirar lhe doía e ele cerrou os punhos sobre as coxas, tremendo.
Ouviu-se o barulho de uma porta se abrindo e uma luz intensa atingiu seus olhos com a força de um soco. Contraiu-se, fechando os olhos contra a claridade do lampião.
— Sr. Fraser — disse uma voz suave, bem-educada. — Eu… realmente, eu sinto muito. Gostaria que soubesse disso, ao menos.
Através de uma fenda da pálpebra, ele viu o rosto tenso e transtornado do jovem Leonard — o homem que havia sequestrado Claire. O homem parecia arrependido. Arrependimento! Arrependimento por tê-la matado.
A fúria o pôs de pé apesar da fraqueza e o arremessou para a frente pelo convés inclinado em menos de um segundo. Ouviu-se um grito quando ele atingiu Leonard e o empurrou de costas para o corredor, seguido de um bom e suculento baque quando a cabeça do miserável atingiu as tábuas do assoalho. Pessoas gritavam e as sombras saltavam loucamente ao seu redor conforme os lampiões oscilavam, mas ele não prestou nenhuma atenção.
Deu um soco fulminante no queixo de Leonard, outro em seu nariz. A fraqueza não importava. Gastaria todas as suas forças e morreria, mas agora ele queria surrar e aleijar, sentir os ossos se quebrarem e o sangue quente e pegajoso em seus punhos. Abençoado são Miguel Arcanjo, que ele pudesse vingá-la primeiro!
Sentiu mãos sobre ele, agarrando e puxando, mas não importava. Não o matariam agora, pensou indistintamente, e isso não importava, tampouco. O corpo sob ele debatia-se e contorcia-se entre suas pernas, depois ficou imóvel.
Quando o próximo golpe veio, ele se deixou levar de bom grado para a escuridão. […]
Ele ajoelhou-se junto ao riacho, jogando água sobre a cabeça, bebendo avidamente o líquido limpo e fresco, enquanto as crianças corriam alegremente pelas rochas, jogando lama umas nas outras.
Agora se lembrava — o homem de cara de rato, o rosto surpreso do jovem Leonard, a raiva colérica e a gratificante sensação de carne esmagada contra osso em seu punho.
E Claire. A lembrança retornou repentinamente, com uma sensação de emoções confusas — perda e terror, sucedidos de alívio. O que acontecera? Ele parou o que estava fazendo, sem ouvir as perguntas que as crianças lhe lançavam. […]
Na verdade, estava quase inconsciente quando a porta de sua prisão abriu-se e um forte cheiro de cabra assaltou suas narinas. Não fazia a menor ideia de como a mulher o levara pela escada ao convés de ré, ou por quê. Tinha apenas uma lembrança confusa da mulher tagarelando num inglês claudicante conforme o puxava, tentando ampará-lo, enquanto ele tropeçava e escorregava no convés molhado da chuva.
Lembrava-se de suas últimas palavras, enquanto ela o empurrava na direção do inclinado balaústre da popa.
— Ela não está morta — disse a mulher. — Ela ir lá — apontando para o mar revolto —, você ir também. Encontra ela! — Então ela se inclinara, colocara a mão em sua virilha e um ombro vigoroso em seu traseiro, içou-o acima do corrimão e atirou-o nas águas tempestuosas. […]
Era isso o que a mulher das cabras quisera dizer? Que Claire nadara para a praia nesta ilha? Sentiu uma onda de esperança tão revigorante para seu coração quanto a água fora para sua garganta seca. Claire era teimosa, afobada e tinha muito mais coragem do que era desejável para a segurança de uma mulher, mas não era absolutamente nenhuma tola para cair de um navio de guerra por acidente.

Vamos agora para a história de Claire, começando pelo mandado de prisão de Jamie. Como dissemos no episódio anterior, Claire se apresentou ao Porpoise como sra. Malcon. Ela fica sabendo que sua identidade foi descoberta lendo o diário do Capitão, como na série. Depois em uma conversa sincera o capitão confessa saber a verdade o que pretende fazer. A diferença principal é que ninguém descobriu o corpo escondido no “crème de menthe”, lembrando que no livro quem matou o homem foi o sr. Willoughby. Jamie é procurado devido a uma armação durante o recebimento de uma carga de contrabando, no qual, ao fugir do local, ele e seus homens encontraram um fiscal enforcado. Claire descobre sobre isso em sua conversa com Tompkins, que no livro é bem mais amigável que na TV (pelo menos com a médica). No livro, é o marinheiro que procura a médica após um acidente. Nessa conversa, são apresentados novos indícios sobre um traidor entre os homens de Jamie. A série apenas compactou a história como um todo, cortando o que não achava necessário.

Confira um trecho da conversa:

— Não, não sabíamos quem era o peixe grande, não até outro dos agentes de sir Percival ter a sorte de tropeçar em outro sócio de Fraser, que lhes deu a dica de que ele era Malcolm, o mestre-impressor, e revelou seu nome verdadeiro. Então, naturalmente, tudo se esclareceu.
Meu coração deu um salto.
— Quem era o sócio? — perguntei. Os nomes e rostos dos seis contrabandistas atravessaram minha mente… peixes pequenos. Não eram idealistas, nenhum deles. Mas para qual deles a lealdade nada significava?
— Não sei. Não, é verdade, dona, eu juro! Aai! — gritou ele histericamente quando enfiei a agulha sob a pele.
— Não estou tentando machucá-lo — afirmei, numa voz tão falsa quanto pude imitar. — Mas eu tenho que suturar o ferimento.
— Ah! Ai! Não sei, pode acreditar. Eu diria, se soubesse, Deus é testemunha!
— Tenho certeza que diria — observei, atenta à sutura.
— Ah! Por favor, dona. Pare! Só um instante! Tudo que eu sei é que foi um inglês! Só isso!
Parei e ergui os olhos, fitando-o fixamente.
— Um inglês? — eu disse, perplexa.
— Sim, dona. Foi o que sir Percival disse. — Ele abaixou os olhos para mim, as lágrimas tremeluzindo nos cílios em ambos os olhos. Dei o último ponto, com toda a delicadeza possível, e arrematei a sutura. Sem falar, levantei-me, servi uma pequena dose da minha garrafa particular de conhaque e entreguei a ele. […]
— Mas e quanto ao guarda alfandegário que foi morto na estrada? — perguntei incisivamente. Não pude conter um leve estremecimento, à lembrança daquele rosto terrível. — Quem fez aquilo? Havia apenas cinco homens entre os contrabandistas que poderiam ter feito isso e nenhum deles é inglês! […]
— Não foi nenhum dos contrabandistas que o matou, dona. Foi seu próprio colega.
— O quê? — Dei um salto para trás, surpresa, mas ele balançou a cabeça, piscando seu olho bom em sinal de sinceridade.
— Isso mesmo, dona. Havia dois deles, não é? Bem, um deles tinha suas instruções, não tinha?
As instruções eram esperar até que quaisquer contrabandistas que tivessem escapado da emboscada na praia atingissem a estrada, onde então o oficial da alfândega passaria um laço pela cabeça do parceiro na escuridão e o estrangularia rapidamente, depois o penduraria e o abandonaria ali, como prova da ira assassina dos contrabandistas.
— Mas por quê? — eu disse, confusa e horrorizada. — Por que fazer isso?
— A senhora não vê? — Tompkins pareceu surpreso, como se a lógica da situação fosse óbvia. — Nós havíamos fracassado em obter provas da gráfica que incriminariam Fraser na acusação de atividades subversivas e, com a gráfica destruída pelo incêndio, não havia possibilidade de outra chance. Nem jamais havíamos flagrado Fraser com as mercadorias contrabandeadas, apenas alguns dos peixinhos que trabalhavam para ele. Um dos outros agentes achava que sabia onde as mercadorias eram guardadas, mas algo aconteceu a ele; talvez Fraser o tivesse descoberto ou comprado, porque desapareceu um dia em novembro e não se ouviu mais falar dele, nem tampouco do esconderijo do contrabando.
— Sei. — Engoli em seco, pensando no homem que me abordara na escadaria do bordel. O que acontecera com aquele barril de crème de menthe? — Mas…
— Bem, estou lhe contando, dona, espere um pouco. — Tompkins ergueu a mão em advertência. — Assim, de um lado sir Percival, sabendo que tinha nas mãos um caso incomparável: um homem que não só era um dos maiores contrabandistas do estuário e autor de alguns dos materiais mais subversivos que já tive o privilégio de ver, mas era também um traidor jacobita perdoado, cujo nome transformaria o julgamento num caso sensacional, de um extremo ao outro do reino. O único problema é que não havia provas.
Tudo começou a fazer um sentido sinistro, à medida que Tompkins explicava o plano. O assassinato de um guarda alfandegário no cumprimento do dever não só faria com que qualquer contrabandista fosse preso por um crime sujeito à pena capital, como era o tipo de crime hediondo que provocaria um extraordinário clamor público. A aceitação na prática que os contrabandistas usufruíam por parte do povo não os protegeria numa questão de tamanha vilania.

Por fim, talvez a cena que os fãs dos livros mais sentiram falta. Sabemos que o Porpoise precisa para chegar o quanto antes a Jamaica, mas no livro essa pressa tem uma justificativa. Eles levam um passageiro importante: o novo governador da Jamaica, ninguém menos que Lord John Grey. Quando Claire perde Elias, seu fiel ajudante de bordo, fica revoltada. No livro, quem a encontra e consola é o governador e não o capitão. Eles têm um diálogo muito interessante, pois não tem ideia de quem seja o outro.

Confira o trecho completo desse encontro:

Minha mente refazia o mesmo percurso atordoante que meus pés haviam percorrido anteriormente, vendo rostos — rostos contraídos de dor ou acalmando-se lentamente na flacidez da morte, mas todos olhando para mim. Para mim. Ergui minha mão inútil e a golpeei com força contra a balaustrada. Repeti o gesto, uma, duas vezes, mal sentindo a dor dos golpes, num frenesi furioso de ódio e frustração.
— Pare! — falou uma voz atrás de mim, e dedos fortes seguraram meu pulso, impedindo-me de bater na balaustrada outra vez.
— Solte-me! — Debati-me, mas ele era forte demais.
— Pare — repetiu ele, com firmeza. Seu outro braço segurou-me pela cintura e ele me puxou para trás, afastando-me da balaustrada. — Não deve fazer isso — disse ele. — Vai se machucar.
— Não me importo! — Contorci-me violentamente, tentando me livrar, mas depois me abandonei, derrotada. Que diferença fazia?
Ele me soltou e eu me virei, deparando-me com um homem que nunca vira antes.
Não era um marinheiro; embora suas roupas estivessem amarrotadas e malcheirosas pelo longo tempo de uso, haviam sido originalmente muito elegantes; o casaco e o colete no mesmo cinza-claro haviam sido talhados para valorizar sua figura esbelta, e a renda murcha em seu pescoço era proveniente de Bruxelas.
— Quem é você, afinal? — perguntei, espantada. Limpei minhas faces molhadas, funguei e fiz um esforço instintivo para amansar meus cabelos. Esperava que as sombras ocultassem meu rosto.
Ele esboçou um sorriso e entregou-me um lenço, amassado, mas limpo.
— Meu nome é Grey — disse ele, com uma pequena reverência cortês. — Imagino que seja a famosa sra. Malcolm, cujo heroísmo o capitão Leonard não cansa de elogiar.
— Meu rosto se contorceu de desgosto diante de suas palavras, e ele parou. — Desculpe-me — disse ele. — Eu disse alguma coisa errada? Minhas desculpas, madame, não tive a menor intenção de ofendê-la. — Ele pareceu ansioso diante da ideia e eu sacudi a cabeça.
— Não é heroico ver homens morrendo — eu disse. Minhas palavras soaram grosseiras e eu parei para assoar o nariz. — Só estou aqui, só isso. Obrigada pelo lenço.
— Hesitei, sem querer devolver o lenço usado, mas não querendo simplesmente embolsá-lo. Ele resolveu o dilema com um breve aceno da mão, descartando a questão.
— Posso fazer mais alguma coisa por você? — Ele hesitou, indeciso. — Um copo de água? Um pouco de conhaque, talvez? — Remexeu no casaco, retirando um pequeno frasco de bolso, de prata, gravado com um brasão, que me ofereceu.
Peguei-o, agradecendo com um sinal da cabeça, e tomei um longo gole, suficiente para me fazer engasgar. A bebida queimou o fundo da minha garganta, mas tomei outro gole, mais cautelosamente desta vez, e senti o conhaque me aquecer, acalmando-me e fortalecendo-me. Respirei fundo e bebi outra vez. Senti-me melhor.
— Obrigada — eu disse, a voz um pouco rouca, devolvendo-lhe o frasco. Pareceu-me uma atitude um pouco brusca e eu acrescentei: — Havia me esquecido como o conhaque é bom para beber; eu o tenho usado para limpar os doentes na enfermaria. — A declaração trouxe de volta os acontecimentos do dia com uma intensidade esmagadora e deixei-me cair outra vez, esmorecida, sobre a caixa de pólvora onde estivera sentada.
— Quer dizer que a epidemia continua com toda a força? — perguntou ele à meia-voz. Estava de pé diante de mim, a claridade de um lampião próximo brilhando em seus cabelos louro-escuros.
— Não, com toda a força, não. — Cerrei os olhos, sentindo-me indescritivelmente desalentada. — Houve somente um novo caso hoje. Houve quatro ontem e seis anteontem.
— Parece promissor — observou ele. — Como se você estivesse vencendo a doença.
Sacudi a cabeça devagar. Parecia densa e pesada, como uma das bolas de canhão empilhadas em caixas rasas perto dos canhões.
— Não. Tudo que estamos fazendo é impedir que mais homens sejam infectados.
Não há nada que eu possa fazer por aqueles que já estão doentes.
— De fato. — Ele parou e pegou uma de minhas mãos. Surpresa, deixei que ele a segurasse. Passou o polegar de leve sobre a bolha onde eu me queimara escaldando leite e tocou os nós dos meus dedos, avermelhados e rachados pela constante imersão em álcool. — Você parece que andou trabalhando demais para alguém que não está fazendo nada — disse ele sem floreios.
— É claro que estou fazendo alguma coisa! — retruquei, retirando minha mão bruscamente. — Só que não adianta nada!
— Tenho certeza… — começou ele.
— Não adianta! — Bati o punho cerrado contra o canhão, o golpe silencioso parecendo simbolizar a inutilidade e a angústia do dia. — Sabe quantos homens eu perdi hoje? Vinte e três! Estou de pé desde o raiar do dia, mergulhada até o pescoço em imundície e vômito e minhas roupas grudam no meu corpo e nada disso adiantou! Não pude fazer nada! Entendeu? Não pude ajudar!
Seu rosto estava virado, mergulhado nas sombras, mas os ombros estavam tensos.
— Entendi — disse ele brandamente. — Você faz com que eu me sinta envergonhado. Eu tenho ficado em minha cabine por ordens do capitão, mas não fazia a menor ideia de que as circunstâncias eram tão graves quanto você descreve ou eu lhe asseguro que teria vindo ajudar, apesar de tudo.
— Por quê? — perguntei, sem rodeios. — Não é sua função.
— É a sua? — Ele girou nos calcanhares para me encarar e eu vi que ele era um homem bonito, perto dos quarenta anos, talvez, com feições bem delineadas, sensíveis, e grandes olhos azuis, arregalados de espanto.
— Sim — eu disse.
Ele examinou meu rosto por um instante e sua própria expressão mudou, passando de surpresa a pensativa.
— Compreendo.
— Não, não compreende, mas não importa. — Pressionei as pontas dos dedos com força contra as têmporas, no lugar que o sr. Willoughby me mostrara, para aliviar a dor de cabeça. — Se o capitão quer que você permaneça em sua cabine, então provavelmente é o que deve fazer. Há bastantes ajudantes na enfermaria; é apenas que… nada adianta — concluí, abandonando as mãos.
Ele caminhou até a balaustrada, a alguns passos de mim, e ficou observando a extensão de águas escuras, faiscando aqui e ali quando uma onda aleatória refletia o brilho das estrelas.
— Eu realmente compreendo — repetiu ele, como se falasse com as ondas. — Imaginei que sua angústia se devesse apenas à compaixão natural de uma mulher, mas vejo que se trata de algo inteiramente diferente. — Parou, as mãos agarradas à balaustrada, uma figura indistinta sob a luz das estrelas. — Já fui soldado, oficial — disse ele. — Sei o que é ter a vida dos homens nas mãos… e perdê-los.
Fiquei em silêncio, e ele também. Os sons normais de um navio continuaram à distância, amortecidos pela noite e pela falta de homens para produzi-los. Por fim, ele suspirou e virou-se novamente para mim.
— O que dói, eu acho, é a compreensão de que não somos Deus. — Ele parou, depois acrescentou, brandamente: — E o grande pesar de não poder ser.
Suspirei, sentindo parte da tensão esvair-se de mim. O vento frio levantou meus cabelos do pescoço e as pontas dos cachos esvoaçaram pelo meu rosto, delicadamente, como um toque suave.
— Sim — eu disse.
Ele hesitou por um instante, como se não soubesse o que dizer em seguida, depois se inclinou, pegou minha mão e beijou-a, muito simplesmente, sem afetação.
— Boa noite, sra. Malcolm — disse ele, e afastou-se, o som de seus passos soando alto no convés.

Ele não estava a mais do que alguns metros de mim quando um marinheiro que passava correndo avistou-o e parou com um grito. Era Jones, um dos camareiros de bordo.
— Santo Deus! O senhor não deveria estar fora de sua cabine, senhor! O ar noturno é mortal e essa praga está solta no navio, sem falar nas ordens do capitão. O que o seu criado estava pensando, senhor, para deixá-lo andar por aí assim?
O homem balançou a cabeça, desculpando-se.
— Sim, sim, eu sei. Eu não deveria ter subido ao convés; mas achei que se ficasse na cabine mais um instante ficaria completamente asfixiado.
— Melhor asfixiado do que morto pela maldita diarreia, senhor, se me perdoa falar assim — retrucou Jones severamente. O homem não fez nenhum protesto, apenas murmurou alguma coisa e desapareceu nas sombras do convés de ré.
Estendi o braço e agarrei Jones pela manga quando ele passou, fazendo-o ter um sobressalto e dar um ganido sufocado de susto.
— Ah! Sra. Malcolm! — disse ele, caindo em si, a mão espalmada contra o peito. — Credo, pensei que fosse um fantasma, madame, queira me desculpar.
— Eu é que peço desculpas — eu disse, educadamente. — Eu só queria lhe perguntar quem era o homem com quem você acaba de falar?
— Ah, ele? — Jones torceu-se para olhar por cima do ombro, mas o sr. Grey já desaparecera havia muito tempo. — Ora, é lorde John Grey, dona, o novo governador da Jamaica. — Ele franziu o cenho com ar severo na direção tomada pelo meu conhecido.
— Ele não deveria estar aqui em cima; o capitão deu ordens estritas para ele ficar a salvo em sua cabine, fora do caminho da doença. Tudo que precisamos é entrar no porto com um político morto a bordo e aí vai haver o diabo, dona, com perdão da sua presença.

Querida Sasse, com isso encerramos nosso livro vs série dessa semana. Você gostou do episódio? Faria alguma coisa diferente? Comente!

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