Livro vs Série – 5×06 – Better To Mary Than Burn

Minhas Sassenachs e meus Highlanders, o que foi esse sexto episódio? Não sei expressar, mas isso não é exatamente um ponto positivo. Chegamos a metade da temporada com algumas histórias louváveis, porém no geral a trama original foi seriamente modificada de um jeito não agradou a essa que vos escreve. Boa parte da narrativa foi alterada para se adequar à já apresentada pela série, porém dessa vez a mistura não teve o mesmo resultado dos primeiros episódios. Sem mais delongas vamos começar nossa análise.

De início, podemos dizer que toda a trama do casamento de Jocasta é bem mais elaborada no livro, com conspirações, assassinato, brigas, ataques de ciúme e incêndio. Duncan Innes é personagem bem maior nos livros, ele veio com Jamie para a América, e só saiu de seu lado quando passou ajudar Jocasta com questões da administração de River Run, o que levou ao noivado e casamento (Murtahg morreu há muito tempo). Mas alguns não viram o casamento com bons olhos, havia aqueles que cobiçavam a viúva Cameron e suas terras há algum tempo. Daí temos uma tentativa de assassinato ao noivo, que não dá certo, porém uma escrava acaba sendo vítima do crime, a mãe de Phaedre. E é aqui que Claire realiza a autópsia, para descobrir a causa da morte da escreva, que em primeiro momento havia sido envenenada com forte sedativo, morrendo no outro dia, vomitando sangue. Nossa médica, é Claro, descobre a causa morte, encontrando fragmentos de vidro em pó nos órgãos internos da vítima, que era a única que poderia identificar quem havia mandado servir a bebida batizada ao sr. Innes, que ela mesmo resolveu consumir.

Então você pensa “quanta confusão”, mas realizando sua autópsia, ao lado do marido, Claire foi surpreendida por Phillip Wylie, e logo em seguida, Bonnet. Dali, temos uma confusão, o barracão onde estava o corpo se incendia, Bonnet consegue escapar, já o janota Phillip Wylie estava no local errado, na hora errada. Jamie o interroga e descobre que o jovem tentava ir para os estábulos para ver seu cavalo, aqui já perdido para Jamie, assunto vamos abordar daqui a pouco. Com a confusão, Claire consegue esconder o que estava fazendo, que seria mal visto pelas pessoas ali. Mas nossa médica não para respirar, logo vai atender a Jocasta e Duncan. Os recém casados haviam sido atacados em seu quarto, por Bonnet e um parceiro misterioso. É aqui que Jocasta conta a história do ouro e de suas filhas para seus entes queridos. Nisso eu bato palmas para o episódio, tanto o flashback quanto a história foram muito fiéis. Houve um ponto diferente. No flashback, vemos o baú de ouro, no entanto, em sua história, Jocasta conta alguns detalhes de forma diferente. Digo isso pois acredito que o assunto vai voltar no futuro. Confira um trecho da história de Jocasta, em que ela conta sobre o ouro, sua fuga, e o interesse dos invasores no tesouro:

– Há um boato nas Terras Altas, desde Culloden. Luís ia mandar ouro, disseram, para ajudar seu primo na luta. E então contaram que o ouro tinha vindo, mas ninguém o viu.
– Eu vi – falou Jocasta e sua boca larga, muito parecida com a do sobrinho, se abriu em uma careta repentina e então relaxou. – Eu vi – repetiu ela. – Trinta mil libras em ouro. Eu estava com eles na noite em que o ouro chegou a terra, trazido do barco francês.
[…]
– Três homens o receberam – disse ela. – Hector era um, meu irmão Dougal era outro… o terceiro homem estava usando uma máscara; todos estavam, mas é claro que eu conhecia Hector e Dougal. Eu não conhecia o terceiro homem, e ninguém disse o nome dele. Eu conhecia o criado dele, no entanto; um homem chamado Duncan Kerr.
[…]
– E o terceiro homem nunca tirou a máscara? – perguntou Jamie.
Ele franziu o cenho como se estivesse se concentrando para recriar a cena que ela imaginava e identificar o desconhecido.
Ela balançou a cabeça.
– Não. Eu me perguntava, vez ou outra, ao pensar naquela noite, se reconheceria o homem se o visse de novo. Acho que sim; ele era moreno, um homem esguio, mas forte como aço. Se eu visse os olhos dele de novo, teria certeza. Mas agora…
Ela deu de ombros.
– Eu o reconheceria apenas pela voz? Não sei dizer, foi há muito tempo.
– Mas ele por acaso não era irlandês, esse homem? – perguntou Duncan, que ainda estava pálido e suado, mas havia se apoiado em um dos cotovelos, ouvindo com muita concentração.
Jocasta se assustou um pouco, como se tivesse se esquecido da presença dele.
– Ah! Não, a dhuine. Era escocês, pelo modo de falar, um cavalheiro das Terras Altas.
Duncan e Jamie trocaram olhares.
– Um MacKenzie ou um Cameron? – sugeriu Duncan baixinho, e Jamie assentiu.
– Ou talvez um dos Grants.
[…]
Hector pretendia deixá-lo ali até que o príncipe tivesse chegado a um local seguro, onde pudesse receber o ouro e usá-lo para seus objetivos futuros. Mas Charles Stuart já estava em fuga e não encontraria um lugar onde descansar durante muitos meses. Antes que chegasse ao seu refúgio final, o desastre interveio.
– Hector deixou o ouro, e eu, em casa, e foi se juntar ao príncipe e ao exército. No dia 17 de abril, ele chegou em casa ao pôr do sol, com o cavalo espumando de exaustão. Apeou e deixou o pobre animal aos cuidados de um criado enquanto entrava na casa e mandou que eu pegasse todos os objetos de valor que podia. A causa estava perdida, segundo ele, e tínhamos que fugir ou morreríamos com os Stuarts.
Cameron era abastado, mesmo naquela época, e inteligente o bastante para anter o coche e os cavalos, em vez de entregá-los à causa dos Stuarts. Inteligente o bastante também para não carregar consigo dois baús de ouro durante a fuga.
– Ele pegou três barras de ouro de um dos baús e as entregou a mim. Eu as escondi embaixo do assento do coche; ele e um criado carregaram os baús para a mata… eu não vi onde eles os enterraram.
Era meio-dia de 18 de abril quando Hector Cameron entrou em seu coche com a mulher, o criado, a filha Morna e as três barras de ouro francês, e partiu para o sul, em direção a Edimburgo.
[… aqui temos toda a história da fuga que vimos na série…]
– Hector comprou este lugar com o ouro que trouxemos – disse ela. – A terra, o moinho, os escravos. Para dar-lhe crédito…
Seu tom de voz sugeria que ela não estava nem um pouco disposta a fazer isso.
– O valor de tudo isso agora se deve, em grande parte, ao trabalho dele. Mas foi o ouro que comprou tudo isso, para começar.
[…]
Jamie tossiu, interrompendo antes que Bree pudesse responder.
– Sim – disse ele, em um tom sério. – Então foi isso que a senhora disse ao irlandês hoje à noite? Não toda a história, é claro… mas que não há nenhum ouro aqui?As mãos de Jocasta se afastaram do rosto de Brianna e ela se virou para olhar para Jamie.
– Sim, eu disse a eles. A ele. Eu disse a ele que até onde eu sei, aqueles baús ainda estão enterrados na mata da Escócia; eu disse que ele podia ir e cavar lá, se quisesse.
Ela ergueu um dos cantos da boca em um sorriso amargo.
– Ele não acreditou?
Ela balançou a cabeça, contraindo os lábios.
– Ele não era um cavalheiro – disse ela de novo.

Durante o casamento também somos apresentados a um personagem que tem grande importância na relação de Jamie com a coroa dali em diante: O major Donald MacDonald. Ele é um soldado de reserva do regimento escocês que já lutou ao lado do tio de Jamie, o jovem Simon, atual Lord de Lovat. Ele conversa um pouco com Claire, ajuda a separar uma briga entre um dono de terras e um regulador convidado, oferece informações a Jamie sobre Bonnet, que é um contrabandista com diversos contatos na Carolina do Norte. Em troca, pede de nosso highlander uma carta de apresentação para o governador, a fim de oferecer seus serviços. Jamie a faz de bom grado após as informações conquistadas. A produção série não divulgou a escalação de nenhum ator para o personagem, então o personagem não deve surgir nessa temporada. Notamos, por exemplo, e Jamie vem conseguindo informações sobre Bonnet por outras fontes.

Isso nos leva a outra grande mudança sentida em termos de adaptação: Claire, Jamie, Phillip Wylie, whisky e Bonnet. A trama basicamente integrou todos, lingando um ao outro, criando um jogo de interesses. No livro, essa trama é bem diferente. Primeiro de tudo, Bonnet aqui é mencionado como um atacante de Jocasta, em seu encontro com Jamie e Claire no barracão, do qual o pirata foge, e nas informações cedidas pelo major MacDonald. Não há uma relação clara entre ele e Wylie. Como dissemos, ele estava no lugar errado e na hora errada. A trama de Phillip Wylie diz respeito principalmente a ousadia dele com Claire, que tem umas tiradas ótimas, orgulho ferido do jovem, e o ciúme e orgulho de Jamie. Em resumo, o menino Wylie deu em cima e tentou agarrar Claire pois acreditava que o jeito dela, de ser educada e responder pessoas a altura, era uma resposta ao flerte dele. Ela o ofende, chamando-o de frangote, o que mexe com brios do menino. Menino? Ele é jovem, deve regular com a Bree. Jamie não os pega, como na série, mas tem uma conversa com Claire que deixa claro sua opinião e ciúme. Mais tarde, o janota desafia Jamie para um jogo de altas apostas, então nosso escocês orgulhoso, mas sem muito dinheiro, pede a aliança da esposa para cobrir suas apostas, ela manda que ele levar as duas, por orgulho também. Não nenhuma relação comercial em jogo aqui. Vamos trazer um longo trecho, com um pouco da conversa cheia de ciúmes, o desafio e o encontro do nosso casal após tudo para que vocês entendam melhor todo o contexto referente a narrativa adaptada:

– Sim, eu estou atolado até o pescoço em majores e reguladores e criadas embriagadas, enquanto você está no estábulo, se engraçando com aquele janota!
Senti o sangue subir à minha cabeça e cerrei os punhos para controlar minha vontade de dar um tapa nele.
– Eu não estava me engraçando coisa nenhuma, você sabe muito bem disso!
Aquele imbecil tentou me agarrar, só isso.
– Agarrar? Fazer amor com você, é o que quer dizer? Sim, estou vendo!
– Ele não fez nada disso!
– Ah, não? Então você pediu a ele para ficar com essa coisa para ter sorte? Ele balançou no meu nariz o dedo com a marca preta e eu dei um tapa nele, lembrando-me, tarde demais, de que naquela época “fazer amor” significava apenas flertar, não fornicar.
– Quero dizer – falei por entre os dentes – que ele me beijou. Provavelmente de brincadeira, já que tenho idade para ser mãe dele, pelo amor de Deus!
– Está mais para avó – disse ele com brutalidade. – Beijou você, além de tudo… por que diabos o incentivou, Sassenach?
Fiquei boquiaberta diante daquela afronta – ofendida tanto por ter sido chamada de avó de Phillip Wylie quanto por ser acusada de tê-lo incentivado.
– Incentivei? Como assim, seu idiota? Você sabe perfeitamente bem que eu não o incentivei!
– A sua própria filha viu você entrar lá com ele! Não tem vergonha? Com todas as coisas com as quais estamos lidando aqui, vou ser forçado a desafiar esse homem para um duelo também?
Senti uma leve apreensão ao pensar em Brianna, e uma apreensão ainda maior ao pensar em Jamie desafiando Wylie para um duelo. Ele não estava com a espada naquele momento, mas a trouxera consigo. Afastei os dois pensamentos.
– A minha filha não é uma tola nem uma fofoqueira maldosa – falei com grande dignidade. – Ela não pensaria que havia nada de mais ao me ver indo olhar um cavalo, e por que deveria pensar? Por que alguém pensaria, para dizer a verdade?
Ele soltou o ar por entre os lábios contraídos e olhou para mim, furioso.
– Por que será? Talvez porque todo mundo viu você flertar com ele no gramado? Porque o viram seguindo você como um cachorro atrás de uma cadela no cio?
Ele deve ter percebido minha expressão se alterar perigosamente ao dizer disso, pois deu uma tossidela brevemente antes de continuar.
– Mais de uma pessoa achou que deveria comentar comigo. Você acha que eu gosto de ser motivo de piada, Sassenach?
– Você… você…
A fúria me fez engasgar. Tive vontade de bater nele, mas vi as pessoas se virando na nossa direção, interessadas.
– Cadela no cio? Como ousa dizer algo assim para mim, seu filho da mãe maldito?
Ele teve a decência de parecer envergonhado, apesar de ainda estar irado.
– Sim, bem… eu não devia ter dito isso. Não quis… mas você foi com ele, Sassenach. Como se eu já não tivesse o suficiente com que lidar, a minha própria esposa… e se tivesse ido conversar com a minha tia, como eu pedi, nada disso teria acontecido, para começo de conversa. Veja o que você fez!
Eu havia mudado de ideia a respeito de um duelo. Queria que Jamie e Phillip Wylie matassem um ao outro, de imediato, publicamente e com o maior derramamento de sangue possível. Eu também não me importava com quem estivesse olhando. Fiz um grande esforço para castrá-lo com as minhas próprias mãos, e ele segurou meus punhos, puxando-os com força para cima.
– Cristo! As pessoas estão olhando, Sassenach!
– Eu… não… dou… a mínima! – sibilei, lutando para me desvencilhar dele. – Me solte, e eu vou dar a eles algo interessante para ver!
Não tirei os olhos do rosto dele, mas estava ciente de que havia vários outros rostos voltados para nós entre a multidão no gramado. Ele também. Ele franziu o cenho por um momento, e então seu rosto ficou determinado.
– Tudo bem então – disse ele. – Vamos deixar que eles observem.
Ele envolveu meu corpo com seus braços, me pressionou com força contra seu corpo e me beijou. Sem conseguir me soltar, eu parei de lutar e fiquei rígida e furiosa. Podia ouvir risadas e gritos de incentivo. Ninian Hamilton gritou algo em gaélico que eu fiquei feliz por não entender.
Finalmente, ele afastou os lábios dos meus, ainda me segurando com força contra seu corpo, e inclinou a cabeça para baixo, bem devagar, a bochecha fria encostada firmemente contra a minha. Seu corpo também estava firme, mas nem um pouco frio. Seu calor atravessava pelo menos seis camadas de roupa para chegar à minha pele: camisa, colete, casaco, vestido, combinação e corpete. Quer estivesse irado, excitado ou ambas as coisas, ele queimava como uma fornalha.
– Sinto muito – disse ele baixinho, a respiração quente soprando em meu ouvido.
– Não quis insultar você. De verdade. Devo matá-lo e depois me matar?
Relaxei um pouco. Meu quadril estava pressionado contra ele e, com apenas cinco camadas de tecido entre nós naquele ponto, o efeito era tranquilizador.
– Talvez ainda não – falei.
[…]
Toquei o braço dele, agradecida pelo conforto e desejando oferecer a ele o mesmo consolo pelos sentimentos feridos.
– Sinto muito por Phillip Wylie – falei.
Percebi de repente que não importava quais fossem as minhas intenções, o efeito desse lembrete não tinha sido apaziguador. Ele contraiu os lábios e deu um passo para trás, com os ombros tensos.
– Não se preocupe com ele, Sassenach – falou.
Sua voz ainda era suave, mas não havia nada de reconfortante nela.
– Vou acertar as contas com o sr. Wylie em breve.
– Mas…
Eu me interrompi, sem saber o que dizer. Evidentemente, não havia nada que eu pudesse dizer ou fazer para acertar as coisas de novo. Se Jamie sentia que sua honra fora ofendida, e claramente era o caso, não importava o que eu dissesse, então Wylie pagaria por isso, e não havia nada a fazer.
– Você é o homem mais teimoso que já conheci – falei contrariada.
– Obrigado – disse ele, fazendo uma leve reverência.
– Não foi um elogio!
– Foi, sim.
E com outra reverência, ele se virou e partiu.
[…]

Phillip Wylie apareceu à luz das tochas. Seu rosto estava corado o suficiente para a cor aparecer sob o pó de arroz, ardendo em manchas febris sobre as maçãs do rosto.
– Meu amigo Stanhope propôs uma partida ou duas de uíste esta noite – disse ele.
– Gostaria de jogar conosco, sr. Fraser?
Jamie dirigiu a ele um olhar demorado e frio, e eu vi os dedos lesionados de sua mão direita estremecerem muito levemente. O pulso latejava na lateral de seu pescoço, mas sua voz permaneceu calma.
– Uíste?
– Sim. – Wylie abriu um sorriso discreto, evitando diligentemente olhar para mim. – Soube que o senhor joga bem. – Ele contraiu os lábios. – Embora, é claro, joguemos apostando um pouco alto. Talvez ache que não…
– Eu adoraria – disse Jamie, com um tom de voz que deixava perfeitamente claro que a única coisa que ele adoraria realizar naquele momento era a perspectiva de fazer com que Phillip Wylie engolisse todos os dentes.
Os dentes em questão brilharam brevemente.
– Ah, esplêndido. Vou… esperar ansiosamente.
– Ao seu dispor, senhor. […]
– Você esperava que eu deixasse o franguinho aviltar a minha honra e ainda por cima me insultar na minha cara?
Ele se virou para olhar para mim, arregalando os olhos.
– Tenho certeza de que ele não quis… – comecei, mas me interrompi.
Estava bem claro que se Wylie não pretendera insultar diretamente, ele quisera que aquilo soasse como um desafio – e para um escocês, essas duas coisas eram praticamente a mesma.
– Mas você não tem que aceitar!
Eu teria conseguido resultado melhor se estivesse discutindo com a parede de tijolos da horta.
– Tenho, sim – disse ele, tenso. – Tenho o meu orgulho.
Passei a mão sobre o rosto, exasperada.
– Sim, e Phillip Wylie sabe muito bem disso! Já ouviu falar que o orgulho precede a queda?
– Não tenho a menor intenção de cair – garantiu-me ele. – Pode me dar a sua aliança de ouro?
Fiquei boquiaberta.
– Eu… a minha aliança?
Meus dedos foram involuntariamente para a minha mão esquerda, tocando a aliança lisa de Frank.
Ele me observava com atenção, olhos fixos em mim. As tochas em torno do terraço tinham sido acesas; a luz o iluminava de lado, deixando em relevo os ossos protuberantes de seu rosto, e um dos olhos de um azul intenso.
– Vou precisar de algo com que apostar – disse ele, baixinho.
– Inferno!
Eu me virei de costas e fiquei olhando para o jardim. As tochas no gramado também tinham sido acesas, e as nádegas brancas de mármore de Perseu se destacavam na escuridão.
– Não vou perdê-la – disse Jamie atrás de mim. Sua mão pousou no meu ombro, pesando sobre o meu xale. – Mas, se a perder, vou recuperá-la. Sei que é… importante para você.
Eu me desvencilhei da mão dele e me afastei alguns passos. Meu coração batia forte e meu rosto parecia suado e quente, como se eu estivesse prestes a desmaiar.
Ele não disse nada nem me tocou; só ficou ali, esperando.
– A de ouro – falei, por fim, de modo seco. – Não a de prata? – Não a aliança dele, não a marca de sua posse.
– A de ouro vale mais – disse ele e então, depois de uma breve hesitação, acrescentou: – Em termos financeiros.
– Eu sei disso.
Eu me virei para olhar para ele. As chamas das tochas oscilavam com o vento e lançavam uma luz bruxuleante em seus traços que os tornava difíceis de decifrar.
– O que eu quis dizer foi… Não é melhor levar as duas?
Minhas mãos estavam frias e escorregadias de suor; a aliança de ouro saiu fácil; a de prata estava mais apertada, mas eu a girei para que passasse pela falange. Peguei a mão dele e coloquei as duas alianças nela.
Então me virei e saí andando.
[…]
Parei no primeiro degrau. Não havia sangue nas roupas dele; graças a Deus.
Não que eu nunca tivesse visto Jamie bêbado antes. Não era à toa que ele não tinha subido a escada até mim. Tinha a impressão de que ele estava muito bêbado naquele momento, ainda assim, havia algo muito diferente. Ele permaneceu parado como uma rocha, com as pernas afastadas, traído apenas por certa deliberação no modo como moveu a cabeça para olhar para mim.
– O que… – comecei, sussurrando.
– Venha aqui – disse ele.
Sua voz estava baixa, rouca por causa do sono e do uísque.
Eu não tive tempo de responder nem de aquiescer. Ele segurou meu braço, puxou-me na direção dele e me beijou. Foi um beijo desconcertante – como se sua boca conhecesse a minha muito bem e compelisse o meu prazer, independentemente dos meus desejos. […]
Eu estava nua embaixo da camisola, e era como se a musselina fina não estivesse ali.
A borda dura de um degrau pressionou minhas costas, e me ocorreu, do modo confuso como as coisas acontecem quando estamos bêbados, que ele estava prestes a me possuir ali na escada, para quem quisesse ver.
Eu afastei a minha boca da dele o suficiente para dizer: “Aqui não!” em seu ouvido. Aquilo pareceu trazê-lo momentaneamente de volta à realidade; ele ergueu a cabeça, piscando como alguém que havia acabado de sair de um pesadelo, com os olhos arregalados. Então, assentiu uma vez, desajeitado, e se levantou, puxando-me com ele. […]
Os estábulos. Ele abriu a porta e me puxou com ele para o escuro e para o calor, encostando-me com força em uma parede.
– Preciso de você agora ou vou morrer – disse ele, sem fôlego, e voltou a me beijar, o rosto frio por causa do ar do lado de fora e a respiração misturando-se à minha.
Então, ele se afastou abruptamente, e eu me desequilibrei, recostando-me na parede áspera para manter o equilíbrio.
– Estenda as mãos – pediu ele.
– O quê? – perguntei sem entender.
– Suas mãos. Estenda as suas mãos.
Totalmente confusa, eu as levantei e senti quando ele segurou a mão esquerda. Pressão e calor, e a luz fraca que vinha da porta aberta reluziu na minha aliança de ouro. Então ele segurou minha mão direita, enfiou a aliança de prata no meu dedo, o metal quente com o calor do corpo dele. Levou minha mão à boca e mordeu os nós dos meus dedos com força.
Jamie levou a mão ao meu seio, o ar frio passou pelas minhas coxas, e senti a aspereza dos tijolos nas minhas costas nuas.
Fiz um barulho e ele tapou minha boca com a mão. Lanceada como uma truta fora da água, eu estava impotente, debatendo-me contra a parede.
Ele afastou a mão e a substituiu por sua boca, envolvendo a minha. Eu podia sentir os gemidos urgentes em sua garganta, e senti outro, muito mais alto, emergindo na minha garganta.
Minha camisola estava erguida até a cintura, e minhas nádegas nuas se chocavam ritmadamente contra a superfície áspera, mas eu não sentia dor. Eu o agarrei pelos ombros e me mantive firme.
Ele passou a mão pela minha coxa, afastando o linho que ameaçava ficar entre nós. Eu me lembrei, com clareza, daquelas mãos no escuro, e me curvei em um espasmo.
– Olhe – disse ele, com a respiração quente na minha orelha. – Olhe para baixo. Assista enquanto eu possuo você. Olhe!
Ele pressionou meu pescoço com a mão, inclinando minha cabeça para baixo na escuridão, além das dobras do tecido, para a nudez dos nossos corpos.
Eu arqueei as costas e desabei, mordendo o ombro do casaco dele para não emitir nenhum som. Ele beijava o meu pescoço, e me segurou com força enquanto estremecia contra o meu corpo.
[…]
– Então, você ganhou – falei para Jamie, que estava de costas.
Minha voz soou estranha, como se eu não a usasse havia muito tempo.
– Prometi a você que ganharia – disse ele baixinho, com a cabeça inclinada para a frente enquanto arrumava o tartã. […]
– Eu… – começou ele, e então parou.
Ficou de pé na minha frente. Sua trança formal tinha se desfeito e algumas mechas estavam soltas sobre os ombros, reluzindo avermelhadas quando a luz que vinha da porta o iluminou.
– Você não me odeia? – perguntou ele, abruptamente.
Tomada pela surpresa, eu ri.
– Não – respondi. – Acha que eu deveria?
Ele entortou um pouco a boca e passou os nós dos dedos sobre ela, raspando na barba rala.
– Bem, talvez sim – disse ele. – Mas fico feliz por não me odiar. […]
– Você disse “lucro”?
Na tensão do momento, parecera importante apenas que ele não tivesse perdido as minhas alianças, mas me ocorreu tardiamente que elas eram apenas sua garantia.
– O que você tirou de Phillip Wylie? – perguntei, rindo. – Os botões do casaco dele? Ou as fivelas de prata dos sapatos?
Havia uma estranha expressão em seu rosto quando ele olhou para mim.
– Bem, não – respondeu. – Tirei o cavalo dele.

Saga Outlander

Ainda sobre Phillip Wylie, como dissemos, não há acordos comerciais entre ele Jamie, nenhuma ligação Bonnet, ou com contrabando. Há um outro personagem, sr. Lyon, que traz uma oferta comercial para Jamie, referente ao seu whisky, porém nesse primeiro momento, nosso highlander recusa a oferta. Vale guardar isso para referências futuras. Ah! Não temos nenhuma ligação clara com Bonnet nesse ponto, apenas nosso ruivinho pensando antes de agir, pois seria uma operação muito perigosa. Confira:

Lyon se aproximou, apoiando-se na cerca, e Jamie percebeu que havia chegado o momento dos negócios do homem, independentemente de quais fossem. Tomou o resto do vinho na taça e a pousou, preparado para ouvir.
– Fiquei sabendo que um… talento para a bebida corre na família também, sr. Fraser.
Ele riu, apesar de não achar muita graça.
– Um gosto pela bebida talvez, senhor. Não sei dizer sobre o talento.
– Não? Bem, tenho certeza de que o senhor está sendo modesto, sr. Fraser. A qualidade do seu uísque é bem conhecida.
– O senhor me deixa lisonjeado.
Ele sabia o que viria em seguida e se preparou para fingir prestar atenção. Não seria a primeira vez que alguém sugeriria uma parceria; ele forneceria o uísque e o outro cuidaria da distribuição por Cross Creek, Wilmington e até Charleston. Lyon, ao que parecia, tinha esquemas grandiosos em mente.
A bebida mais envelhecida iria de barco costa acima até Boston e Filadélfia, ele sugeriu. O uísque cru, no entanto, poderia atravessar a Linha do Tratado, para ser distribuído nos vilarejos dos cherokees, em troca de peles e couro. Ele tinha parceiros, que forneceriam…
Jamie ouviu com crescente desaprovação, e então interrompeu Lyon abruptamente.
– Certo. Agradeço pelo interesse, senhor, mas receio não produzir o suficiente para o que sugere. Faço uísque apenas para o consumo da minha família, e alguns barris além disso, de vez em quando, para o comércio local. Nada mais.
Lyon grunhiu com simpatia.
– Tenho certeza de que poderia aumentar sua produção, sr. Fraser, com seu conhecimento e sua habilidade. Se fosse uma questão dos materiais… alguns ajustes poderiam ser feitos, estou certo… Posso falar com cavalheiros que seriam nossos parceiros no negócio e…
– Não, senhor, receio que não. Se me der licença…
Ele fez uma reverência abrupta, virou-se e seguiu de volta em direção ao terraço, deixando Lyon no escuro.
Precisava perguntar sobre Lyon a Farquard Campbell. O homem precisava ser observado. Não que Jamie se opusesse ao contrabando, mas não queria ser pego contrabandeando, e poucas coisas lhe pareciam mais perigosas do que uma operação em larga escala do tipo que Lyon estava sugerindo, na qual ele estaria envolvido até o pescoço, mas sem controle sobre as partes mais perigosas do processo.

Por fim, vamos para Fraser’s Ridge, comentar um pouco sobre a história de Roger Mac. Em primeiro lugar, os gafanhotos são uma trama do sexto livro, envolvendo a Claire, não Roger. Ela ocorre em cenário um pouco diferente, com um desfecho que também foi modificado. No entanto, vale destacar que a adaptação para o cenário atual ficou muito boa, dando o espaço que Roger precisava para mostrar a que veio e conquista o respeito dos colonos. Mas onde estavam Roger e Bree nesse ponto no livro? No casamento. Eles dão uns amassos escondidos, Roger canta com a banda da festa, Bree conversa bastante com a tia e aprende um pouco sobre as crenças escocesas, Jemmy fica doente, temos momentos vovó médica e outro lindos entre pai e filho, e o casal está presente quando Jocasta conta sua história.

A ausência da trama original do casal não influencia diretamente a narrativa, então vamos trazer o trecho da invasão dos gafanhotos, para vocês verem como foi no livro (lembrando é uma cena do sexto livro):

– O que houve? Está certo que choveu, mas a cevada já deveria ter sido toda colhida uma semana antes.
– Não foi a chuva. Foram gafanhotos.
A lembrança me fez estremecer. Uma nuvem dos detestáveis insetos de olhos esbugalhados tinha passado zumbindo bem no final da colheita da cevada. Eu subira até a horta para colher verduras e as descobrira infestadas de corpos em formato de cunha e patas agitadas e curvas, minhas alfaces e repolhos devorados até virarem tocos mastigados, e a trepadeira de glória-da-manhã da treliça em frangalhos.
– Corri para chamar a sra. Bug e Lizzie, e os espantamos com vassouras… mas eles então se levantaram todos numa grande nuvem e atravessaram a floresta até o campo de cevada depois de Green Spring. E lá pousaram. Dava para ouvilos mastigar a quilômetros de distância. Pareciam gigantes pisando em arroz.
Arrepios de repulsa empolaram meus ombros, e Jamie esfregou minha pele distraidamente com a mão grande e morna.
– Humm. Foi só um campo que eles comeram, então?
– Ah, sim. – Inspirei fundo, ainda sentindo o cheiro do fogo. – Nós tocamos fogo nele e os queimamos vivos.
Seu corpo deu um tranco de susto e ele baixou os olhos para mim.
– O quê? Quem teve essa ideia?
– Eu – respondi, não sem orgulho.
Em retrospecto, pensando com sangue-frio, era a coisa sensata a se fazer: havia outros campos em risco, não apenas de cevada, mas de milho, trigo, batatas e feno ainda verdes… sem falar nas hortas das quais a maioria das famílias dependia.
Na realidade, fora uma decisão tomada no auge da raiva… uma pura e sangrenta vingança pela destruição da minha horta. Eu teria arrancado com prazer as asas de cada inseto e pisoteado os restos… mas queimá-los tinha sido quase tão bom.
O campo pertencia a Murdo Lindsay. Lento tanto de pensamento quanto de ação, Murdo não tivera tempo de reagir adequadamente ao meu anúncio de que pretendia pôr fogo na cevada, e ainda estava em pé no alpendre de seu chalé, com a boca escancarada, quando Brianna, Lizzie, Marsali, a sra. Bug e eu corremos pelo campo com os braços abarrotados de gravetos que fomos acendendo para fazer tochas e atirando o mais longe que conseguíamos no mar de cereal maduro e seco.
A cevada seca se incendiou primeiro com um crepitar, depois com um rugido à medida que o fogo tomou conta. Confusos com o calor e a fumaça de uma dezena de fogueiras, os gafanhotos começaram a voar pelos ares feito faíscas, acendendo-se quando suas asas pegavam fogo e sumindo em meio à coluna rodopiante de fumaça e cinzas que subia pelo céu.
– É claro que foi justamente nessa hora que Roger resolveu chegar com os novos arrendatários – falei, reprimindo o impulso inadequado de rir dessa lembrança. – Coitadinhos. Estava escurecendo, e todos eles ali, em pé no meio da mata com suas trouxas e filhos, assistindo àquilo… àquela maldita conflagração, e vendo todas nós dançando descalças com as saias arregaçadas, gritando feito macacos e cobertas de fuligem.
Jamie tapou os olhos com uma das mãos, claramente visualizando a cena. Seu peito se sacudiu por um breve instante e um largo sorriso se abriu por baixo da mão.
– Ai, meu Deus. Eles devem ter pensado que Roger Mac os tinha trazido para o inferno. Ou no mínimo para um concílio de bruxas.
Uma bolha de risada cheia de culpa começou a se agitar dentro de mim.
– E pensaram mesmo. Ah, Jamie… a cara daquelas pessoas!
Perdi o controle e enterrei o rosto no peito dele. Sacudimo-nos juntos por alguns instantes, rindo quase sem fazer barulho.

Então é só isso tudo, meus queridos! Tivemos longos trechos em nossa análise hoje, necessários para contextualizar as mudanças na narrativa. E você Sasse, gostou do episódio? Faria algo diferente? Diana faria. Comente, deixe sua opinião!

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