Livro vs Série – 5×11 – Journey Cake

Segura o coração para embarcar na jornada que foi o décimo primeiro e penúltimo episódio da temporada. Pudemos assistir a uma linda adaptação, escrita por ninguém menos a própria rainha da p.. toda Diana Gabaldon. Tivemos um mix de acontecimentos dos livros 5 e 6, numa história que aqueceu nossos corações, tirou nosso folego e deixou um final pra lá de tenso. Sem mais delongas, vamos iniciar o nosso comparativo.

Começamos do início, com a linda homenagem ao terceiro livro no title card, mostrando Claire com seus sanduíches, uma cena cortada da série. A cena com o aperitivo do futuro também foi um lindo toque do roteiro, exclusivo para a séria. Aqui vale destacar pequenas adaptações que Diana fez questão de trazer que aqueceram os corações de nós leitores. Como a cena da janela e do microscópio. Nessa última, faltou apenas a fala final do livro, algo que traz um belo alívio cômico para o momento. Apesar de não ter qualquer impacto narrativo, trago essa cena como bônus para você caro leitor, foque no final da conversa:

– O que está fazendo, Sassenach? – Jamie, com um pedaço de torrada na mão, parou à porta.
– Estou vendo coisas – respondi, ajustando o foco.
– Ah é? Que coisas? – Ele entrou na sala sorrindo. – Espero que não sejam fantasmas. Já vi fantasmas suficientes.
– Venha ver – falei, afastando-me do microscópio.
Meio confuso, ele se inclinou e olhou pelas lentes, fechando o outro olho, concentrado. Estreitou a vista por um momento e então exclamou, surpreso e contente:
– Estou vendo! Coisinhas com caudas nadando por aí!
Ele se endireitou, sorrindo para mim com animação, e em seguida se inclinou de novo para olhar.
Senti uma onda de orgulho pelo meu novo brinquedo.
– Não é incrível?
– Sim, é incrível – disse ele, distraído. – Olhe para eles. Que criaturinhas atarantadas, todas empurrando e se enroscando umas nas outras… e tantas delas!
Ele observou por mais alguns momentos, exclamando baixinho, e então se endireitou, balançando a cabeça, surpreso.
– Nunca vi algo assim, Sassenach. Você havia me contado sobre os germes, é verdade, mas nunca na vida imaginei que eles fossem assim! Pensei que tivessem dentinhos, e eles não têm, mas não sabia que tinham caudas tão bonitas e agitadas e que nadavam em números tão grandes.
– Bem, alguns micro-organismos fazem isso – falei, aproximando-me para olhar. – Esses bichinhos em especial não são germes… são espermatozoides.
– São o quê?
Ele parecia confuso.
– Espermatozoides – respondi com paciência. – Células reprodutivas masculinas. Você sabe, aquelas que fazem os bebês.
Pensei que ele fosse engasgar. Abriu a boca e seu rosto se cobriu de um belo cor-de-rosa.
– Está se referindo às sementes? – perguntou ele.
– Bem… sim.
Observando-o com atenção, despejei chá quente em um béquer limpo e entreguei a ele para que se recuperasse. Ele o ignorou, os olhos fixos no microscópio como se algum deles pudesse saltar da lâmina a qualquer momento e rastejar no chão até nossos pés.
– Espermatozoides – murmurou ele. – Espermatozoides.
Ele balançou a cabeça vigorosamente e então se virou para mim quando um pensamento assustador lhe ocorreu.
– De quem são? – perguntou ele, com um forte tom de desconfiança.
– Ahn… bem, são seus, claro. – Pigarreei, meio constrangida. – De quem mais seriam?
Ele levou a mão para o meio das pernas como em um reflexo e se segurou de modo protetor.
– Como diabos os conseguiu?
– Como você acha? – perguntei, meio fria. – Acordei de posse deles hoje.
A mão dele relaxou, mas seu rosto corou de vergonha. Ele pegou o chá e o tomou de um gole, apesar da temperatura.
– Compreendo – disse, e tossiu.
Fez-se um momento de profundo silêncio.
– Eu… hum… não sabia que eles podiam sobreviver – disse ele, por fim. – Errr… do lado de fora, é o que quero dizer.
– Bem, se você os deixar em um borrão no lençol para secar, eles não sobrevivem – expliquei. – Mas se eles não secarem… – Fiz um gesto indicando o béquer pequeno, coberto, com sua pocinha de fluido esbranquiçado… – resistem por algumas horas. No seu habitat adequado, no entanto, podem viver até uma semana depois de… serem liberados.
– Habitat adequado – ele repetiu, parecendo pensativo. Olhou para mim depressa. – Você quer dizer…
– Quero – falei com certa aspereza.
– Hum. […]
– Eles parecem bastante ferozes – disse, depois de passar alguns momentos analisando.
– Bem, eles precisam ser – falei, contendo um sorriso ao ver o ar de orgulho diante da capacidade de seus gametas. – É um longo caminho, afinal, com uma luta enorme no fim. E você sabe que só um consegue a honra.
Ele olhou para cima, com o rosto inexpressivo. Percebi que ele não sabia. Havia estudado idiomas, matemática e filosofia grega e latina em Paris, não medicina. E, apesar de os cientistas naturais da época saberem que o espermatozoide era uma entidade à parte, e não uma substância homogênea, pensei que eles provavelmente não tinham ideia do que os espermatozoides faziam.
– De onde você achava que vinham os bebês? – perguntei, depois de explicar um pouco sobre óvulos, espermatozoides, zigotos e coisas assim, o que deixou Jamie bastante surpreso. Ele me dirigiu um olhar frio.
– Eu sabia exatamente de onde eles vinham – disse ele. – Só não sabia que… bem… que todas essas coisas aconteciam. Trabalhei na terra a vida toda. Pensei… bem, pensei que um homem colocasse sua semente na barriga de uma mulher e… que ela… crescesse. – Ele gesticulou vagamente na direção da minha barriga. – Você sabe… como… sementes. Lentilha, milho, melões, coisas assim. Eu não sabia que eles nadavam como girinos!
– Entendo. – Passei o dedo embaixo do nariz, tentando não rir. – Daí a designação agrícola das mulheres como sendo férteis ou estéreis!
– Humm. […]
Ele se inclinou e me deu um beijo, em seguida foi na direção da porta. Mas um pouco antes de chegar, ele se virou.
– Os… hum… espermatozoides… – disse ele, sem jeito.
– Sim?
– Pode não jogá-los fora e enterrá-los decentemente ou algo assim?
Escondi um sorriso com a xícara.
– Vou cuidar bem deles – prometi. – Sempre cuido, não é?

Uma grande mudança narrativa no episódio diz respeito a decisão do casal MacKenzie retornar para o futuro. No livro, eles decidem ficar no passado, ao lado da família. Roger e Jamie tem uma conversa franca sobre isso, com suas respectivas esposas próximo o suficiente para ouvir. Um pequeno spoiler do sexto livro, o casal retorna ao seu tempo mais à frente na história, porém há razão forte para isso, o que levanta a questão se eles realmente retornaram ou não, visto a reação da família ao acordar nas pedras. A resolução dessa trama vamos descobrir no próximo episódio. Por hora, deixamos o trecho da conversa entre Jamie e Roger Mac no final do quinto livro:

Um bosque ao entardecer é dominado por um profundo silêncio, que induz o coração a ficar calmo e os pés a pisarem a terra de leve.
– Você já pensou, então, a cliamhuinn? – perguntou Jamie, atrás de mim.
Sua voz era baixa, o tom bastante amistoso, mas a maneira formal de falar deixava claro que a pergunta era séria.
– Em quê?
A voz de Roger estava calma, mais baixa devido à cerimônia, e quase não dava para perceber a rouquidão.
– No que pretendem fazer, você e sua família. Agora que sabem que o menino pode atravessar, e o que isso pode significar, se ficarem.
O que poderia significar para todos eles. Respirei fundo, inquieta. Guerra. Batalha. Incerteza, o perigo a única certeza. Perigo de doença ou acidente, para Brianna e Jem. Perigo de morte no trabalho de parto, se ela engravidasse outra vez. E quanto a Roger, perigo tanto de corpo quanto de alma. Sua mente estava curada, mas eu via a imobilidade no fundo de seus olhos quando ele pensava em Randall Lillywhite.
– Ah, sim – respondeu Roger, baixinho, sem que eu o visse, atrás de mim. – Já pensei… e ainda estou pensando… m’athair-cèile.
Esbocei um sorriso ao ouvi-lo chamar Jamie de “sogro”, mas o tom de sua voz era totalmente sério.
[…]
– Estou pensando no que vai acontecer aqui… No que aconteceria se os reguladores tivessem sido bem liderados… Talvez tivesse começado aqui mesmo, não daqui a três anos, em Massachusetts.
– É? E se fosse assim, o que aconteceria?
Roger emitiu um ruído, o equivalente verbal a um dar de ombros.
– Quem sabe? Eu sei o que está acontecendo na Inglaterra agora. Eles não estão prontos, não fazem a menor ideia do que estão arriscando aqui. Se a guerra acontecesse de repente, sem aviso prévio, se tivesse acontecido em Alamance, poderia se espalhar rapidamente e terminar antes que os ingleses tivessem sequer ideia do que estava acontecendo. Anos de guerra poderiam ter sido poupados, milhares de vidas poderiam ter sido salvas.
– Ou não – disse Jamie, sério, e Roger riu.
– Ou não – concordou ele. – Mas o problema é o seguinte: acho que há momentos para homens de paz e momentos para homens de guerra também.
Brianna havia chegado à casa, mas se virou e esperou pelo resto de nós. Ela também estava ouvindo a conversa.
Roger parou ao seu lado, olhando para cima. Faíscas voavam da chaminé em uma chuva de fogos de artifício, iluminando seu rosto com a claridade.
– Você me chamou – disse ele finalmente, ainda olhando para cima, para a escuridão sendo iluminada. – Na Reunião, junto à fogueira.
– Seas vi mo lâmh, Roger an t’oranaiche, mac Jeremiah mac Choinneich – falou Jamie com calma. – Sim, é verdade. Fique ao meu lado, Roger, o cantor, filho de Jeremiah.
– Seas vi mo lâmh, a mhic mo thaighe – disse Roger. – Fique ao meu lado, filho da minha casa. Estava falando sério?
– Você sabe que sim.
– Então eu também falo.
Ele estendeu o braço e apoiou a mão no ombro de Jamie, e eu vi os nós dos seus dedos embranquecerem quando ele o apertou.
– Eu ficarei ao seu lado. Nós ficaremos.
Ao meu lado, Brianna suspirou aliviada, como a brisa do anoitecer.

Isso leva a outro ponto. Jamie nunca conta a Brianna sobre o irmão, não como na série. A engenheira descobre por conta própria. Agora como, quando o onde é uma questão de spoilers que prefiro não comentar agora. Mas vale destacar que terem colocado esse momento na série foi lindo, uma bela sequência entre pai e filha. O que acontece no livro é a cena da pedra quebrar (no caso explodir) com Jemmy e a revelação de Ian sobre o diário de Dente de Lontra. A diferença é que mergulhamos mais na história do índio, que não foi para o passado sozinho. Não vamos entrar em detalhes aqui pois é algo que ainda pode ser abordado. Uma cena fofa da nossa família que foi cortada é a explicação de Claire sobre genes, pouco depois que Jem estoura pedra. Esse também é um trecho que não muda a narrativa, mas vale ser lido por seu tom leve e descontraído. Confira:

– O que foi? – perguntou Ian. Ele estava acompanhando nossos experimentos com grande interesse. – Vocês não são sìdheanach, vocês três… mas por que conseguem fazer… o que fazem, e tio Jamie e eu não conseguimos? Você não consegue, não é, tio? – perguntou ele, em dúvida.
– Não, graças a Deus – respondeu o tio.
– É genético, não é? – perguntou Brianna, erguendo o olhar. – Só pode ser.
Jamie e Ian pareceram desconfiados ao ouvir o termo desconhecido.
– Genético? – indagou Ian.
Suas sobrancelhas arrepiadas uniram-se em uma expressão de perplexidade.
– Por que não seria? – falei. – Todo o resto é… tipo de sangue, cor dos olhos.
– Mas todos têm olhos e sangue, Sassenach – objetou Jamie. – Qualquer que seja a cor dos olhos de uma pessoa, todo mundo pode ver. Isto…
Com a mão, indicou a pequena coleção de pedras.
Suspirei com impaciência.
– Sim, mas há outras coisas que são genéticas. Tudo, se pensarmos bem! Veja…
Eu me virei para ele e coloquei a língua para fora. Jamie piscou, e Brianna deu uma risadinha diante da expressão dele.
Sem dar atenção, coloquei a língua para dentro e então para fora de novo, desta vez com a ponta virada para cima, formando um cilindro.
– E agora? – perguntei, fechando a boca outra vez. – Consegue fazer isso?
Jamie pareceu achar graça.
– Claro que consigo. – Botou para fora a língua enrolada e a contorceu, demonstrando, em seguida a recolheu de novo. – Todo mundo consegue fazer isso, não? Ian?
– Ah, sim, claro – afirmou Ian, fazendo o mesmo. – Qualquer um.
– Eu não consigo – disse Brianna.
Jamie olhou para ela, desconcertado.
– Como assim não consegue?
– Blah. – Ela esticou a língua plana e a mexeu de um lado para o outro. – Não consigo.
– Claro que consegue. – Jamie franziu a testa. – Veja, é simples. Qualquer um consegue fazer isso!
Ele colocou a língua para fora outra vez, enrolando-a e desenrolando-a como um tamanduá incentivando ansiosamente o filhote na direção de um apetitoso aglomerado de insetos. Olhou para Roger com as sobrancelhas erguidas.
– Era de esperar que sim, não é? – disse Roger melancolicamente.
Ele esticou a própria língua, sem conseguir enrolá-la.
– Viu? – falei de modo triunfante. – Algumas pessoas conseguem enrolar a língua e outras simplesmente não conseguem. Não é algo que se possa aprender: ou a pessoa nasce com isso ou não nasce.
Jamie olhou de Bree para Roger e novamente para a filha, franzindo o cenho, depois se virou para mim.
– Supondo que você tenha razão, por que ela não consegue fazer isso, se você e eu conseguimos? Você garantiu que ela é minha filha, certo?
– Ela é sua filha, pode ter certeza – falei. – Como todo mundo que tem olhos pode ver.
Ele olhou para Brianna, observando como ela era alta e esbelta, admirando sua cabeleira ruiva. Ela sorriu, semicerrando os olhos azuis. Ele sorriu de volta e virouse para mim, dando de ombros com bom humor.
– Bem, vou aceitar sua palavra, Sassenach, porque é uma mulher honrada. Mas e a língua?
Ele enrolou a própria língua outra vez, com ar de dúvida, ainda sem conseguir acreditar que alguém não pudesse fazer isso se realmente tentasse.
– Bem, você sabe de onde vêm os bebês – comecei. – O óvulo e o…
– Eu sei – disse ele, com a voz um pouco vacilante.
[…]
– Certo – falei com seriedade. – Muito bem, então. Você e eu, Jamie, evidentemente temos um dos genes dominantes que nos possibilita enrolar a língua, mas – continuei, erguendo um dedo – devemos ter também um gene recessivo, que não permite essa habilidade. E, logicamente, cada um de nós transmitiu o gene recessivo a Bree. Portanto, ela não consegue enrolar a língua. Da mesma maneira, Roger deve ter duas cópias de genes recessivos que não permitem que ele enrole a língua. Já que, se ele tivesse ao menos um dos genes dominantes, poderia fazê-lo, mas não consegue.
[…]
– O que é “testico”? – perguntou uma vozinha baixa.
Jemmy havia deixado as pedras de lado e olhava para mim com muito interesse.
– Ahn… – balbuciei.
Olhei ao redor da sala, em busca de ajuda.
– É a palavra em latim para as suas bolas, rapaz – disse Roger com a expressão séria, contendo um sorriso.
Jemmy pareceu muito interessado.
– Bolas? Onde tenho bolas?
– Hã… – disse Roger, olhando para Jamie.
– Hum – fez Jamie, fitando o teto.
– Bem, você está vestindo um kilt, tio Jamie – comentou Ian, rindo.
Jamie olhou para o sobrinho como quem se sentia muito traído, mas antes que pudesse se mover, Roger já havia se inclinado para a frente e colocado a mão delicadamente entre as pernas de Jemmy.
– Bem aqui, a bhalaich – disse ele.
Jemmy levou a mão aos testículos depressa, em seguida olhou para Roger com as pequenas sobrancelhas ruivas franzidas, sem entender.
– Não é bola. É pintinho!
Jamie suspirou fundo e ficou de pé. Fez sinal com a cabeça para Roger, depois se abaixou e pegou Jemmy pela mão.
– Tudo bem. Vamos lá fora comigo e com seu pai e nós vamos lhe mostrar.
O rosto de Bree estava vermelho como seus cabelos, e seus ombros estremeceram levemente. Roger, também corado, abriu a porta e deu um passo para o lado para Jamie e Jem passarem.
Não acho que Jamie tenha parado para pensar; em um ímpeto, virou-se para Jemmy, formando um rolo com a língua, colocando-a para fora.
– Consegue fazer isso, a ruaidh? – perguntou ele, colocando a língua para dentro outra vez.
Brianna inspirou com força, com um som como o de um pato assustado, e ficou paralisada. Roger também, os olhos fixos em Jemmy, como se o menino fosse um aparato explosivo engatilhado para explodir como a opala.
Tarde demais, Jamie percebeu o que fizera e empalideceu.
– Merda – disse ele, devagar, quase em um sussurro.
Os olhos de Jemmy se arregalaram.
– Feio, vovô! Palavra feia. Não é, mamãe?
– Sim – respondeu Brianna com os olhos semicerrados, voltados para Jamie. – Vamos ter que lavar a boca do vovô com sabão, não é?
[…]
Roger olhou para Bree, e algo pareceu se passar entre eles. Ele se abaixou e pegou a outra mão de Jem, interrompendo a música temporariamente.
– Então, a bhalaich, consegue fazer isso ou não?
– FRÈRE… Fazer o quê?
– Olhe para o vovô.
Roger inclinou a cabeça indicando Jamie, que respirou fundo e colocou a língua para fora, enrolada.
– Consegue fazer isso? – perguntou Roger.
– Caro. – Jemmy sorriu e colocou a língua para fora. Reta. – Blé.
Todos suspiraram ao mesmo tempo. Jemmy, sem perceber, impulsionou as pernas para cima, suspenso pelas mãos de Jamie e Roger, em seguida pousou os pés no chão outra vez, lembrando-se de sua pergunta.

Agora vamos para eventos do sexto livro que tivemos nesse episódio (além da viagem pois essa é incerta pra mim rs). Os ataques violentos ocorridos no condado é uma das primeiras cenas do livro, e nossos protagonistas encontram mais de uma casa queimada e moradores mortos ao longo dos primeiros capítulos. A formação do Comitê de Segurança pelos Browns, como consequência dos ataques também está entrelaçado ao livro. Tudo isso nos leva à trama mais tensa do episódio: o sequestro de Claire. Na série, vemos repercussões da Claire usando o nome do Dr. Rowllings, com um ataque direto a sua casa, tirando a médica de seu consultório a força, ferindo todos que estavam no caminho. No livro, é um pouco diferente. Temos a presença de Marsali grávida, um Germain escondido, mas tudo ocorre no barracão da destilaria de whiskey. O bando ataca pretendo roubar o whiskey de Jamie e leva Claire com o objetivo que ela mostre o esconderijo da bebida. A série trouxe uma bela adaptação, colocando todo o enredo dentro do contexto do episódio, dando um peso pessoal a trama. Confira como foi o sequestro originalmente:

Esse acesso de autocrítica foi interrompido pelo som de vozes e movimento lá fora. Fui até a porta do barracão e semicerrei os olhos sob a luz ofuscante do sol de fim de tarde.
Não consegui ver seus rostos, nem distinguir ao certo quantos podiam ser. Alguns estavam a cavalo, outros a pé, silhuetas negras com o poente por detrás. Captei um movimento com o canto do olho: de pé, Marsali recuava em direção ao barracão.
– Quem são os senhores? – perguntou ela, com o queixo empinado.
– Viajantes sedentos, dona – respondeu uma das formas negras, fazendo o cavalo avançar à frente dos outros. – Em busca de hospitalidade.
As palavras foram suficientemente corteses, mas não a voz. Dei um passo para fora do barracão, ainda segurando a pá.
– Bem-vindos – falei, esforçando-me para soar acolhedora. – Fiquem onde estão, cavalheiros; teremos prazer em lhes trazer algo para beber. Marsali, pode ir buscar o barril?
Um pequeno barril de uísque cru era guardado ali perto justamente para essas ocasiões. Pude ouvir meu coração batendo alto nos ouvidos e segurei o cabo da pá com tanta força que cheguei a sentir o grão da madeira.
Era mais do que incomum ver tantos desconhecidos nas montanhas de uma só vez. De tempos em tempos víamos um grupo de caçadores cherokees… mas aqueles homens não eram índios.
– Não se incomode, dona – disse outro homem, e apeou do cavalo. – Eu a ajudo a buscar. Mas acho que vamos precisar de mais de um barril.
Sua voz era inglesa e estranhamente conhecida. Ele não tinha um sotaque culto, mas a dicção era cuidadosa.
– Só temos um barril pronto – falei, afastando-me para o lado devagar e mantendo os olhos no homem que havia falado.
Ele era baixo e muito esbelto, e movia-se com passos rígidos e sincopados, feito uma marionete.
Agora avançava na minha direção; os outros também. Marsali tinha chegado à pilha de lenha e tateava atrás dos pedaços de carvalho e nogueira. Pude ouvir sua respiração áspera na garganta. O barril estava escondido na pilha de lenha. Eu sabia que, ao lado da lenha, havia também um machado.
– Marsali – falei. – Fique aí. Vou ajudá-la.
Um machado era uma arma melhor do que uma pá… mas duas mulheres contra… quantos homens? Dez… doze… mais? Pisquei, sentindo os olhos lacrimejarem por causa do sol, e vi vários outros saírem a pé da floresta. Esses pude ver com clareza; um deles me sorriu, e tive de me conter para não desviar os olhos. O sorriso dele se alargou.
O baixinho estava chegando mais perto também. Olhei para ele e uma breve comichão de reconhecimento me fez cócegas. Quem diabos era aquele sujeito? Eu o conhecia, já o tinha visto antes… mas mesmo assim não encontrei nome algum para encaixar naquele queixo saliente e naquela testa estreita.
Ele fedia a suor seco, terra entranhada na pele e ao ranço azedo de urina pingada. Todos eles fediam da mesma forma, e seu cheiro flutuava no vento, tão selvagem quanto o fedor de fuinhas.
Ele viu quando o reconheci. Seus lábios finos se repuxaram por um instante, então relaxaram.
– Sra. Fraser – falou, e meu sentimento de apreensão se aprofundou brutalmente quando vi a expressão em seus olhos miúdos e inteligentes.
– Acho que não estou conseguindo acompanhá-lo, senhor – falei, exibindo o semblante mais valente de que fui capaz. – Já nos conhecemos?
Ele não respondeu. Um dos cantos de sua boca se curvou para cima de leve, mas sua atenção foi distraída pelos dois homens que haviam se esticado para pegar o barril que Marsali rolava para fora do esconderijo. Um deles já tinha empunhado o machado no qual eu estava de olho, e estava prestes a fender o topo do barril quando o magro lhe gritou:
– Deixe isso!
O homem ergueu os olhos para ele boquiaberto, tomado pela incompreensão.
– Falei para deixar! – disparou o magro quando o outro olhou alternadamente para o barril e para o machado, sem entender. – Vamos levar isso conosco, não quero que fiquemos todos entorpecidos por bebida agora!
Virando-se para mim como quem retoma uma conversa, ele perguntou:
– Onde está o resto?
– É tudo que há – disse Marsali antes que eu conseguisse responder. Tinha o cenho franzido para ele, desconfiada, mas também estava zangada. – Leve, se quiser.
A atenção do homem magro se transferiu para ela pela primeira vez, mas ele não lhe deu mais do que uma olhadela casual antes de se virar para mim outra vez.
– Por favor, não minta para mim, sra. Fraser. Eu sei muito bem que tem mais, e vou querer.
– Não tem. Ei, me dê isso aqui, seu idiota! – Com um gesto certeiro, Marsali arrancou o machado da mão do homem que o segurava e fez uma cara feia para o magro. – É assim que se retribui uma acolhida decente, é… roubando? Bem, nesse caso peguem o que vieram buscar e vão embora!
Não tive outra escolha senão seguir o exemplo dela, embora sinetas de alarme soassem no meu cérebro toda vez que eu olhava para o homenzinho magro.
– Ela tem razão – falei. – Podem olhar vocês mesmos. – Apontei para o barracão, para as banheiras que receberiam a mistura de malte com água e para o alambique ali perto, não lacrado e obviamente vazio. – Estamos apenas começando a maltagem. Uma nova leva de uísque ainda vai demorar semanas para ficar pronta.
Sem a menor mudança de expressão, ele deu um passo rápido para a frente e me acertou no rosto com um tapa forte.
O tapa não teve força suficiente para me derrubar, mas projetou minha cabeça para trás e deixou meus olhos lacrimejando. Fiquei mais chocada do que ferida, embora um súbito gosto de sangue tivesse surgido na minha boca, e eu já pudesse sentir o lábio começando a inchar.
Marsali deu um grito agudo de choque e indignação, e ouvi alguns dos homens murmurarem com uma surpresa interessada. Eles haviam se aproximado, e agora nos cercavam.
Encostei as costas da mão na boca que sangrava, e reparei, um tanto alheia, que estava tremendo. Meu cérebro, porém, havia se retirado para uma distância segura, e fazia e descartava suposições com tamanha rapidez que elas passavam voando feito cartas sendo embaralhadas.
Quem eram aqueles homens? Quão perigosos seriam? O que estariam dispostos a fazer? O sol estava se pondo… Quanto tempo demoraria para alguém dar por falta de mim ou de Marsali e vir nos procurar? Seria Fergus ou Jamie? Até Jamie, se viesse sozinho…
Não tive dúvidas de que aqueles eram os mesmos homens que haviam incendiado a casa de Tige O’Brian, e decerto eram responsáveis também pelos ataques dentro da Linha do Tratado. Cruéis, portanto… mas com o roubo como principal objetivo.
Minha boca tinha um gosto de cobre, o travo metálico do sangue e do medo. Todos esses cálculos não demoraram mais de um segundo, mas quando baixei a mão já havia concluído que o melhor seria lhes dar o que eles queriam e torcer para que fossem embora em seguida com o uísque.
Só que não tive chance de dizer isso. O homem magro me segurou pelo pulso e torceu com crueldade. Senti os ossos se moverem e estalarem com uma dor lancinante, e caí ajoelhada no meio das folhas sem conseguir emitir nada além de um som débil e sem ar.
Marsali produziu um som mais alto e se moveu feito uma cobra que dá o bote. Desferiu o machado com um movimento que partiu do ombro, mobilizando toda a potência de seu corpo, e a lâmina se cravou bem fundo no ombro do homem ao seu lado. Ela a soltou com um puxão, e o sangue esguichou quente no meu rosto, tamborilando feito chuva sobre as folhas.
Ela gritou, um grito agudo e fino, e o homem também gritou, e então a clareira toda se pôs em movimento, e os homens chegaram mais perto com um rugido que parecia uma onda a quebrar. Estiquei-me para a frente, agarrei os joelhos do homem magro e projetei a cabeça com força para cima em direção às suas partes íntimas. Ele produziu um chiado de quem sufoca e caiu por cima de mim, esmagando-me contra o chão.
Contorci-me para sair de baixo de seu corpo encolhido, sabendo apenas que precisava chegar até Marsali e me interpor entre ela e os homens… mas estes já estavam em cima dela. Um grito foi interrompido no meio pelo ruído de punhos atingindo carne, e um estrondo surdo ecoou quando corpos bateram com força na parede do barracão de maltagem.
O braseiro de barro estava ao meu alcance. Peguei-o, sem ligar para o calor que me queimou, e joguei-o bem no meio do grupo de homens. Ele bateu com força nas costas de um deles e se partiu, espalhando carvões quentes por todo lado. Homens gritaram e pularam para trás, e vi Marsali caída junto à parede do barracão, com o pescoço dobrado por cima de um dos ombros, os olhos revirados nas órbitas, as pernas bem abertas e a combinação rasgada no pescoço, expondo os seios pesados sobre a protuberância da barriga.
Então alguém me acertou na lateral da cabeça e eu voei de lado, derrapei pelo meio das folhas e fui parar inerte, estatelada no chão, incapaz de me levantar, me mexer, pensar ou falar.
Uma imensa calma me dominou e minha visão ficou mais estreita, num processo que me pareceu muito lento – o fechamento de uma imensa íris que foi se estreitando numa espiral. Na minha frente vi o ninho no chão, a poucos centímetros do nariz, com seus gravetos finos astutamente entrelaçados, os quatro ovos esverdeados redondos e frágeis, perfeitos dentro de sua concavidade. Então um calcanhar esmagou os ovos e a íris se fechou.

E com isso, ficamos por aqui, com muita emoção e certa tristeza pois o fim da temporada está ali na esquina. E você, Sasse, gostou do episódio? Faria algo diferente? Ansiosa para o finale? Comente, deixe sua opinião!

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Um comentário sobre “Livro vs Série – 5×11 – Journey Cake

  1. Eu fiquei tão abalada com esse episódio que fui atrás de respostas. Eu terminei de ler o 5 livro semana passada. E no mesmo dia comecei a ver a série. Então,a história está recente na minha cabeça. Mas, esse episódio! Meu Senhor! Não queria que eles voltassem (Bree,Roger e Jemmy). Ainda não li o sexto livro. E acabei vendo um spoiler. Ainda bem que você não escreveu na resenha. Esse episódio é genial! Parabéns pelo trabalho! Anciosa para os próximos capítulos. 😊🤗👏👏👏🤭

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