Livro vs Série – 5×12 – Never My Love

Queridas Sassenachs, queridos Highlanders, chegamos ao final de mais uma temporada de Outlander com um episódio carregado de emoções e referências. O título, “Never My Love”, vem da música da banda Association (1967), sendo essa a trilha que embala a primeira parte do episódio. Em entrevistas prévias, o elenco disse que esse seria um dos season finales mais fortes que já produziram e eu concordo plenamente. Tivemos uma bela adaptação, que fechou a quinta temporada com chave de ouro. Houve algumas mudanças, as quais vamos discutir agora.

Como já destacamos no episódio passado, todo o plot do sequestro foi uma trama trazida do sexto livro, sendo que as razões do rapto são diferentes da obra original. A série mostrou como uma consequência das ações de Claire, algo que se virou contra ela, dando um peso pessoal ao rapto. No livro, o interesse é outro, dinheiro, ou whiskey pra ser específica. Ainda na série, Lionel logo assume seu papel como cabeça do plano. Já no livro, ele surge logo após o primeiro dia, e se surpreende ao ver Claire ali, pois não queria, ou podia, ser associado ao bando de ladrões. Confira uma pequena discussão dos homens após Claire acordar, que deixa claro as razões do rapto, e depois a chegada do sr. Brown:

– Ficou maluco, Hodge? Você não quer levar essa mulher. Devolva-a!
– Não vou devolver. – Em algum lugar bem perto de mim, a voz do homem baixo soou raivosa, mas controlada. – Ela vai nos mostrar onde está o uísque.
– Uísque não vai nos servir de nada se estivermos mortos, Hodge! Pelo amor de Deus, ela é a esposa de Jamie Fraser!
– Eu sei quem ela é. Ande logo!
– Mas ele… Hodge, você não conhece aquele homem! Uma vez eu o vi…
– Poupe-me das suas lembranças. Ande logo, já falei!
Essa última frase foi pontuada por um tum repentino e cruel, e por uma exclamação espantada de dor. A coronha de uma pistola, pensei. Bem no meio da cara, acrescentei mentalmente, engolindo em seco ao escutar os arquejos úmidos e os chiados de um homem com o nariz quebrado.
[…]
Eles pararam, quatro ou cinco ao meu redor. Levantei-me com esforço, fechando a mão por reflexo em volta da coisa mais próxima semelhante a uma arma… uma pedra desafortunadamente pequena.
– A que distância estamos do uísque? – Hodge exigiu saber.
Ele havia tirado o chapéu, e seus olhos cintilavam nas sombras como os de um rato.
– Não sei – respondi, controlando os nervos com determinação… e segurando a pedra com firmeza. Minha boca ainda estava dolorida, inchada por causa do tapa que ele tinha me dado, e tive de formar as palavras com cuidado. – Eu não sei onde nós estamos.
Era verdade, embora eu pudesse ter arriscado um palpite razoável. Tínhamos viajado algumas horas, quase o tempo todo morro acima, e as árvores em volta eram abetos e abetos-balsâmicos, eu podia sentir o cheiro forte e limpo de sua resina. Estávamos nas encostas superiores, e provavelmente perto de um pequeno desfiladeiro que atravessava o cume da montanha.
– Vamos matá-la – instou um dos outros. – Ela não nos serve de nada, e se Fraser a encontrar conosco…
– Cale essa boca!
Hodge se virou para o homem que tinha falado com tamanha violência que este, bem maior, deu um passo involuntário para trás. Feita a ameaça, Hodge o ignorou e me segurou pelo braço.
– Não banque a bobinha comigo, mulher. Diga-me o que eu quero saber.
Não se importou em dizer “senão eu” – algo frio deslizou pelo alto do meu seio e, um segundo depois, veio a quentura ardida do corte, e o sangue começou a brotar.
– Jesus H. Roosevelt Cristo! – exclamei, mais de surpresa do que de dor. Puxei o braço para me soltar dele. – Eu já disse que não sei onde nós estamos, seu idiota! Como espera que eu lhe diga onde fica qualquer outra coisa?
Ele piscou os olhos, espantado, e ergueu a faca por reflexo, desconfiado, como se pensasse que eu poderia atacá-lo. Ao perceber que não era essa a minha intenção, armou uma cara feia para mim.
– Vou lhe dizer o que eu sei – falei, e senti uma distante satisfação ao ouvir minha voz sair distinta e firme. – O esconderijo fica a mais ou menos 800 metros do barracão de maltagem, mais ou menos a noroeste. Fica numa caverna, bem escondido. Eu poderia levá-los até lá se partíssemos da nascente em que vocês me pegaram… mas isso é tudo que posso lhes dizer em matéria de direção.
[…]
Os cavalos tinham começado a se mover, e quando o meu, obediente, pôs-se a seguir o homem à minha frente, dois outros homens apareceram e se postaram debaixo de um grande carvalho. Eu conhecia ambos.
Harley Boble amarrava as correias de uma sela de carga e fazia uma careta enquanto dizia algo para outro homem mais grandalhão. Harley Boble era um ex-caçador de ladrões, agora obviamente convertido em ladrão. Homenzinho detestável da cabeça aos pés, era improvável que demonstrasse boa disposição em relação a mim, considerando o ocorrido durante uma reunião algum tempo antes.
Não fiquei nada satisfeita ao vê-lo ali, embora não tivesse ficado de modo algum surpresa por encontrá-lo naquela companhia. Mas foi a visão de seu companheiro que fez meu estômago se contrair e minha pele se eriçar feito a de um cavalo com moscas.
O sr. Lionel Brown, de Brownsville.
Ele olhou para cima, me viu e tornou a se virar para o outro lado depressa, encolhendo os ombros. Deve ter percebido que eu o vi, contudo, pois virou-se novamente para mim com os traços magros fixos numa espécie de desafio cauteloso. Tinha o nariz inchado e congestionado, um bulbo vermelho-escuro visível até mesmo à luz acinzentada. Passou alguns instantes me encarando, então aquiesceu como quem reconhece algo com relutância e tornou a me dar as costas.
Arrisquei um olhar para trás por cima do ombro quando entramos no meio das árvores, mas não consegui mais vê-lo. O que ele estava fazendo ali? Não havia reconhecido sua voz na ocasião, mas obviamente fora ele quem havia debatido com Hodgepile a sensatez de me levar como prisioneira. Não era de espantar! Ele não era o único a estar perturbado com nosso reconhecimento mútuo.
Lionel Brown e seu irmão Richard eram negociantes, fundadores e patriarcas de Brownsville, um diminuto povoado nas montanhas a uns 65 quilômetros da Cordilheira. Aventureiros como Boble ou Hodgepile percorrerem a zona rural roubando e incendiando era uma coisa, outra bem diferente era os Browns de Brownsville proporcionarem uma base para suas depredações. A última coisa no mundo que o sr. Lionel Brown poderia querer era que eu encontrasse Jamie com a notícia do que ele tinha feito.
E pensei que ele decerto iria tomar providências para me impedir de fazê-lo. O sol nascente começava a aquecer o ar, mas de repente senti frio, como se houvesse caído dentro de um poço.

Outro ponto que vale ressaltar, a série mostra Lionel como um dos principais agressores. No livro, na parte da travessia do rio, eles passam por um desfiladeiro, ali Claire percebe que Brown quer se livrar dela, então tenta convencer Tebbe a soltá-la, como na série. Originalmente, há uma certa briga entre Tebbe e Lionel nesse momento, e Brown acaba caindo no desfiladeiro, ficando gravemente ferido. Claire até tenta ajudar depois, mas não consegue. Já Lionel, mesmo ferido, quer ver a médica morta. Hodgepile, o verdadeiro líder do livro, deixa seus interesses claros mais uma vez e fere Claire. Confira o trecho da queda e a conversa após essa:

Com a respiração pesada, Tebbe olhava alternadamente para a frente e para trás, na minha direção e na da borda do penhasco onde a trilha de cervos sumia em meio à vegetação, como se temesse a aparição de Hodgepile.
Mas não foi Hodgepile quem surgiu do meio dos arbustos. Foi Lionel Brown, com o semblante decidido, e dois homens mais jovens de ar igualmente determinado atrás dele.
– Eu a levo – disse ele sem preâmbulo, segurando meu braço.
– Não!
Por reflexo, Tebbe pegou meu outro braço e puxou.
Seguiu-se um cabo de guerra bem pouco digno, com Tebbe e o sr. Brown puxando cada um dos meus braços. Antes de eu ser partida ao meio feito um ossinho da sorte, Tebbe felizmente mudou de tática. Soltou meu braço, seguroume pelo tronco e me apertou contra si, desferindo um chute no sr. Brown com um dos pés.
O resultado dessa manobra foi fazer Tebbe e eu cairmos para trás numa pilha
desordenada de braços e pernas, enquanto Brown também perdeu o equilíbrio, embora no início eu não tivesse percebido. Tudo de que tive consciência foi um grito alto e barulhos de queda, seguidos por um estrondo e pelo chacoalhar de pedras soltas a quicar por uma encosta pedregosa.
Desvencilhei-me de Tebbe e engatinhei até descobrir o restante dos homens reunido em volta de um trecho sinistramente aplainado nos arbustos que margeavam o desfiladeiro. Um ou dois pegavam cordas às pressas enquanto gritavam ordens contraditórias, o que me fez deduzir que o sr. Brown de fato tinha caído no desfiladeiro, mas que sua morte ainda não estava confirmada.
Inverti a direção depressa, com a intenção de mergulhar de cabeça na
vegetação, mas em vez disso dei com um par de botas rachadas pertencentes a Hodgepile. Ele me agarrou pelos cabelos e puxou, fazendo-me gritar e bater nele por reflexo. Acertei-o no meio do corpo. Ele expirou com força e abriu a boca, arquejando em busca de ar, mas sua mão de ferro não soltou meus cabelos.
Com caretas furiosas na minha direção, ele então me soltou e, com um dos joelhos, me fez avançar em direção à borda do desfiladeiro. Agarrado aos arbustos, um dos homens mais jovens tateava cuidadosamente com os pés para tentar encontrar apoio na encosta mais abaixo, com uma corda amarrada na cintura e outra enrolada e pendurada no ombro.
– Sua vagabunda! – berrou Hodgepile, e enterrou os dedos no meu braço enquanto se inclinava por entre os arbustos partidos. – Por que fez isso, vadia?
Ele ficou saltitando na borda feito o duende Rumpelstiltskin, brandindo os punhos e gritando impropérios de modo indiscriminado para seu sócio ferido e para mim enquanto começavam as operações de resgate. Tebbe havia recuado até uma distância segura, onde estava parado com cara de ofendido.
Por fim, Brown foi içado, grunhindo bem alto, e deitado na grama. Os homens que já não estavam dentro do rio se juntaram, todos afogueados e parecendo estar com calor.
[…]
– Ele está vivo! – exclamou o homem. – Tio Lionel! O senhor está bem?
Lionel Brown grunhiu bem alto e abriu os olhos, aumentando ainda mais a comoção. O jovem que o havia chamado de tio sacou um facão do cinto e o apontou para mim. Seus olhos estavam tão arregalados que o branco aparecia a toda volta.
– Você, para trás! – ordenou. – Não toque nele!
Ergui as mãos com as palmas para a frente, num gesto de abnegação.
– Está bem! – falei. – Não vou tocar!
Na verdade, não havia muito mais que eu pudesse fazer por Brown. Ele precisava ser mantido aquecido, seco e hidratado, mas algo me disse que Hodgepile não estaria aberto a nenhuma sugestão desse tipo.
E não estava mesmo. Por meio de gritos furiosos e repetidos, ele abafou a revolta incipiente, então declarou que iríamos atravessar o desfiladeiro, e bem depressa, por sinal.
– Então ponham-no numa maca – falou, impaciente, em resposta aos protestos do sobrinho de Brown. – Quanto a você… – Ele se virou para mim, enfurecido. – Eu já não falei? Sem truques, eu disse!
– Mate-a – disse Brown do chão, rouco. – Mate-a agora.
– Matá-la? Nem um pouco provável, meu filho. – Os olhos de Hodgepile cintilavam de maldade. – Para mim ela não representa um risco maior viva do que morta… e representa um lucro bem maior viva. Mas vou mantê-la na linha.
A faca estava sempre ao alcance da sua mão. Ele a sacou num instante, e já tinha agarrado a minha mão. Antes de eu conseguir sequer inspirar, senti a lâmina ser pressionada para baixo e cortar até a metade da base do meu indicador.
– Lembra do que eu disse? – Ele falou num sussurro, com o semblante relaxado de expectativa. – Que não preciso de você inteira?

A agressão física, socos, pontapés e até mais, também estão presente no livro, sendo uma sequência muito impactante, na qual nossa viajante chega a pensar que vai morrer ali. Seu agressor, no entanto, é outro: Harley Boble. Ele é um xerife, cujo caminho se cruzou com o de Jamie e Claire quando ele tentou prender o filho de um dos colonos de Fraser’s Ridge. Digamos que não deu certo para o xerife. Ele tem sua vingança quando fica sozinho com Claire. Já a violência sexual, essa também ocorre, com adolescente inexperiente, com Boble que a fere e se toca na frente dela, depois Doner aparece para conversar, após isso, exausta, ela cai no sono, mas volta a acordar sentindo outro agressor nela, tratando-a como se fosse a falecida esposa. Como na série, há uma confusão de Claire de quem e quantos no momento do resgate, quando Jamie a questiona. Mais tarde, mais calma, ela diz que apenas o último chegou as vias de fato. A série dá a entender que pode ter sido mais, ou não. Eu tive dúvidas sobre mostrar algum trecho ou não, pois é forte, mas optei por colocar, principalmente para enaltecer a beleza como adaptaram tudo isso, trazendo uma delicadeza necessária para a série, sem perder o forte impacto. Vale enaltecer as cenas de fuga, exclusivas da série. Confira o trecho da agressão física por parte de Harley Boble:

– Não está rindo tanto agora, está? – disse ele num tom casual. Era Boble, o ex-caçador de ladrões. – A senhora e seu marido acharam muita graça no que as alemãs fizeram comigo, não foi? E depois o sr. Fraser me disse que elas pretendiam me usar para fazer linguiça, e disse isso com a mesma cara de um cristão que lê a Bíblia. A senhora também achou graça, não foi?
Para ser totalmente honesta, tinha sido engraçado, sim. Mas ele tinha razão: eu não estava rindo agora. Ele ergueu o braço e me deu um tapa.
O impacto fez meus olhos lacrimejarem, mas a fogueira o iluminava de lado. Ainda pude distinguir o sorriso em seu rosto rechonchudo. Uma apreensão gelada me percorreu e me fez estremecer. Ele percebeu, e seu sorriso se abriu mais ainda. Tinha os caninos curtos e rombudos, o que fazia os incisivos se sobressaírem em contraste, compridos e amarelos como os de um roedor.
– Imagino que vá achar isto aqui mais engraçado ainda – disse ele, ficando de pé e levando a mão à braguilha. – Espero que Hodge não a mate logo, para a senhora poder contar ao seu marido. Aposto que ele vai gostar da piada, um homem com o senso de humor igual ao dele. […]
Pude sentir a violência pulsar dentro dele feito um coração exposto, de paredes finas, prestes a explodir. Sabia que não poderia fugir nem detê-lo… sabia que bastaria o mais ínfimo pretexto para ele me machucar. A única coisa a fazer era ficar parada e aguentar.
Não consegui. Arqueei o corpo debaixo dele e rolei de lado, subindo o joelho enquanto ele empurrava minha combinação para o lado. A joelhada pegou de raspão em sua coxa, e ele, por reflexo, ergueu o punho e me deu um soco na cara, potente e rápido.
Uma dor vermelha e preta brotou de repente do centro do meu rosto, preencheu minha cabeça, e eu fiquei cega, momentaneamente paralisada de choque. Sua idiota, pensei, com total clareza. Ele agora vai matá-la. O segundo soco me acertou na bochecha e projetou minha cabeça para o lado. Talvez eu tenha feito algum outro movimento de resistência cega, talvez não.
De repente, Boble estava ajoelhado por cima de mim desferindo socos e tapas, golpes surdos e pesados feito o bater das ondas do mar na areia, ainda distantes demais para que eu sentisse dor. Contorci-me e me encolhi, erguendo o ombro e tentando proteger o rosto no chão, e então seu peso sumiu.
Ele estava de pé. Começou a chutar e a me xingar, arfando e quase soluçando enquanto sua bota acertava meus flancos, minhas costas, minhas coxas e nádegas. Eu arfava em arquejos curtos, tentando respirar. A cada golpe, meu corpo dava um tranco e estremecia, derrapando no chão coberto de folhas, e agarrei-me à sensação do chão debaixo de mim, tentando com muita força afundar, ser engolida pela terra.
Então acabou. Pude ouvi-lo arfar ao tentar falar.
– Maldita… maldita… ah, maldita… mal… maldita… vadia!
Fiquei inerte, tentando sumir na escuridão que me cercava, sabendo que ele iria me dar um chute na cabeça. Já podia sentir meus dentes chacoalharem, os frágeis ossos do crânio se racharem e desabarem para dentro da polpa macia e úmida do cérebro, e comecei a tremer, trincando os dentes numa fútil resistência ao impacto. O barulho seria o mesmo de um melão sendo esmagado, surdo, pegajoso e oco. Será que eu iria escutá-lo?
O barulho não veio. Houve outro barulho, um farfalhar veloz e forte que não fez sentido. Um leve ruído carnoso, pele contra pele num ritmo suave de batidas, e ele então deu um grunhido e gotas mornas de líquido pingaram no meu rosto e ombros, salpicando a pele nua onde o tecido da combinação tinha sido rasgado.
Eu estava paralisada. Em algum lugar no fundo da minha mente, a observadora distante se perguntou em voz alta se aquela na verdade era a coisa mais nojenta com a qual eu já tinha me deparado. Bem, não, não era. Algumas das coisas que eu tinha visto no Hôpital des Anges, sem falar na morte de padre Alexandre ou no sótão dos Beardsleys… o hospital de campanha em Amiens… pelos céus, não, aquilo não chegava nem perto.
Fiquei deitada, rígida, com os olhos fechados, relembrando as diversas experiências desagradáveis do passado e desejando na verdade estar presenciando aqueles acontecimentos, em vez de estar ali.
Boble se inclinou, me segurou pelos cabelos e bateu com a minha cabeça várias vezes na árvore, chiando enquanto o fazia.
– Vou mostrar… – resmungou ele, então soltou, e ouvi o arrastar de passos quando ele se afastou cambaleando.
Quando finalmente abri os olhos, estava sozinha.

Um pequeno detalhe que alguns leitores podem ter sentido falta: os tambores. No livro, além do violão, Roger toca um tambor escocês chamado bodhran. Quando está ferida e amarrada naquela árvore, Claire escuta o som de tambores, então toma consciência que o resgate chegou. Dado a toda narrativa da série, fez sentido não haver tal cena. Mas houve a referência, se você prestar a atenção na primeira cena que Jamie aparece, ela regida por uma trilha acompanhada de tambores. Fique a com o trecho da chegada dos tambores, que vale ser lido:

Emergi do sono outra vez algum tempo depois. De uma vez só, totalmente consciente, com o coração a bater forte. Só que não era o meu coração… era um tambor.
Ruídos de espanto vinham da direção da fogueira, homens acordando alarmados.
– Índios! – gritou alguém, e a luz se partiu e voou quando alguém chutou a fogueira para dispersá-la.
Aquilo não era um tambor indígena. Sentei-me e apurei os ouvidos. Era um tambor que tinha o mesmo som de um coração batendo, lento e ritmado, depois acelerado feito um martinete, como a fuga frenética de um animal que está sendo caçado.
Eu poderia ter lhes dito que os índios nunca usavam tambores como armas; os celtas, sim. Aquilo era o som de um bodhran.
O que vai vir depois?, pensei, com uma pontinha de histeria. Gaitas de fole?
Era Roger, com certeza; só ele era capaz de fazer um tambor falar daquele jeito. Era Roger, e Jamie estava por perto. Levantei-me atabalhoadamente, querendo, precisando com urgência me mexer. Num frenesi de impaciência, puxei a corda em volta da cintura, mas não consegui me soltar.
Um segundo tambor começou a tocar, mais lento, menos habilidoso, mas igualmente ameaçador. O som parecia se mover… estava se movendo. Diminuía, depois voltava com força total. Um terceiro tambor soou, e agora as batidas pareciam vir de toda parte, rápidas, lentas, zombeteiras.
[…]
Os tambores cessaram abruptamente. Ao redor da fogueira reinava o caos, embora eu pudesse ouvir Hodgepile tentando organizar seus homens com berros e ameaças, a voz anasalada erguida acima das outras. Os tambores então recomeçaram a tocar… mais próximos.
Eles estavam chegando perto, reunindo-se em algum lugar na floresta à minha esquerda, e as zombeteiras batidas tip-tap-tip-tap tinham mudado. Agora trovejavam. Nenhuma perícia, apenas ameaça. Cada vez mais perto.
[…]
Então o mais sobrenatural dos uivos emergiu do escuro à minha direita. Eu já tinha ouvido escoceses gritarem ao entrar numa batalha, mas aquele grito específico das Terras Altas fez os pelos do meu corpo se arrepiarem do cóccix até a nuca. Jamie. Apesar dos meus temores, sentei-me muito ereta e espiei ao redor da árvore que me abrigava a tempo de ver os demônios se derramarem da floresta.
Eu os conhecia, sabia que os conhecia, mas me encolhi ao vê-los enegrecidos de fuligem e berrando com a loucura do inferno, a luz da fogueira vermelha sobre as lâminas de facas e machados.
Os tambores tinham se calado abruptamente com o primeiro grito, e então uma nova série de uivos irrompeu à esquerda quando os tocadores de tambor correram para o ataque. Pressionei o corpo bem rente à árvore, sentindo o coração imenso a me sufocar na garganta, petrificada pelo medo de as lâminas golpearem qualquer movimento aleatório nas sombras.

Por fim, podemos destacar a morte de Lionel Brown, que na série veio pelas mãos de Marsali. Precisamos enaltecer essa cena, que contou com uma belíssima atuação, além de destacar o quão Claire passou a significar para a jovem escocesa. No livro, tudo ocorre de forma similar, mas com mais detalhes e em outra circunstância. Brown é levado ferido para interrogatório. Chegando em Ridge, ele é mantido prisioneira na casa dos Bug, um casal que presta serviço para Jamie visto durante essa temporada. No entanto, Lionel escapa, vai parar na casa grande e pede misericórdia a Claire, por medo do que Jamie possa fazer. A médica trata de seus ferimentos, a contra gosto da sra. Bug, que tem ódio pelo homem, tanto é que, quando Claire deixa a governanta a sós com o prisioneiro, ela não pensa duas vezes em dar cabo de sua vida. Seu marido, Arch Bug, desesperado pela esposa ter tomado tal atitude e temendo por sua vida, já que ela desafiou o patrão, oferece a própria vida a Jamie para salvar a esposa, mas Jamie os perdoa. Por que estamos falando disso agora? Essa é uma narrativa importante no livro, que tem impacto no futuro da nossa saga. Confira o trecho da morte e as conversas após o fato:

Ouvi um leve farfalhar e me virei. A sra. Bug havia endireitado o banco e se sentado nele. Estava curvada para a frente, com as mãos unidas no colo e um pequeno vinco no rosto redondo enrugado, encarando com atenção o corpo sobre a mesa. A mão de Brown pendia inerte, os dedos levemente curvados, segurando sombras.
O lençol que lhe cobria o corpo estava manchado, era esta a origem do cheiro de penico. Quer dizer que ele estava morto antes mesmo de eu iniciar minhas tentativas de ressuscitação.
Uma nova onda de calor brotou lá de baixo e cobriu minha pele como cera quente. Senti o cheiro do meu próprio suor. Fechei os olhos por um instante, então os abri e virei-me para a sra. Bug.
– Por que diabos a senhora fez isso? – indaguei, num tom casual.
[…]
Os passos voltaram mais devagar. Ele entrou e foi até a mesa em que ela estava sentada.
– Mulher, como você se atreveu a pôr as mãos num homem que era meu? – perguntou ele bem baixinho, em gaélico.
– Ah, senhor – sussurrou ela. Estava com medo de erguer os olhos.
Encolheu-se debaixo da touca, o rosto quase invisível. – Eu… eu não tive a intenção. É verdade, senhor!
Jamie olhou para mim.
– Ela o sufocou – repeti. – Com um travesseiro.
– Acho que ninguém faz uma coisa dessas sem ter intenção – disse ele, com um viés na voz que poderia ter afiado uma faca. – O que deu em você, a boireannach, para fazer isso?
Os ombros arredondados começaram a tremer de medo.
– Ai, senhor, ai, senhor! Eu sabia que era errado… mas foi… mas foi aquela língua ruim dele. O tempo todo que eu passei cuidando dele, ele se encolhia e tremia, é, quando o senhor ou o rapaz vinham falar com ele, ou até mesmo Arch… mas comigo… – Ela engoliu em seco, e a pele do seu rosto pareceu subitamente frouxa. – Eu sou só uma mulher, comigo ele podia dizer o que pensava, e dizia. Ele fazia ameaças, senhor, e praguejava de um jeito horrível. Ele disse… que o irmão iria vir, ele e seus homens, para soltá-lo, e que matariam todos nós com crueldade e queimariam as casas sobre nossas cabeças.
Sua papada tremia enquanto falava, mas ela encontrou coragem para erguer os olhos e encarar Jamie.
– Eu sabia que o senhor jamais deixaria isso acontecer e dei o melhor de mim para não prestar atenção nele. E, depois de ele me atazanar bastante, eu disse que estaria morto muito antes que o irmão descobrisse onde estava. Mas então aquele cãozinho malvado fugiu… e eu com certeza não tenho ideia de como ele fez isso, pois teria jurado que não estava em condições sequer de se levantar da cama, quanto mais de chegar até aqui, e ele se entregou à misericórdia de sua esposa, e ela o aceitou… eu própria teria arrastado a sua carcaça maligna para longe daqui, mas ela não quis…
Nesse ponto, ela me lançou um breve olhar ressentido, mas quase na mesma hora tornou a encarar Jamie com um ar de súplica.
– E ela o levou para ser consertado, senhor, como a doce e graciosa dama que é… e pude ver no rosto dela que, depois de ter cuidado dele daquela forma, não podia suportar vê-lo ser morto. E ele também viu, o bostinha, e quando ela saiu zombou de mim dizendo que agora estava seguro, que a tinha enganado para ela cuidar dele e que ela jamais deixaria que o matassem, e que assim que se visse livre mandaria uma dúzia de homens para cima de nós numa sanha de vingança, e depois…
Ela fechou os olhos, balançou-se um pouco e levou a mão ao peito.
– Eu não pude evitar, senhor – falou, com toda a simplicidade. – Não pude mesmo.
[…]
Arch Bug entrou tão em silêncio que não o escutei. Só percebi que ele estava ali quando vi Jamie erguer os olhos e se retesar. Girei nos calcanhares e vi o machado na mão de Arch. Abri a boca para falar, mas ele andou até Jamie com passos largos, sem dar atenção ao entorno. Era óbvio que para ele não havia ninguém no recinto a não ser Jamie.
Ele chegou à escrivaninha e pousou nela o machado, quase com delicadeza.
– Minha vida pela dela, ó líder – falou baixinho, em gaélico.
Então deu um passo para trás e se ajoelhou, com a cabeça abaixada. Havia entrelaçado os macios cabelos brancos numa trança fina e a prendido, deixando exposta a parte de trás do pescoço. Seu pescoço tinha um tom de noz e riscas profundas por causa do sol, mas ainda era grosso e musculoso acima da faixa branca da gola.
[…]
Jamie inspirou para responder, mas então se deteve e encarou o velho com atenção. Algo nele mudou, e alguma consciência o dominou.
– A ceann-cinnidh? – disse ele, e Arch Bug assentiu em silêncio.
O ar do escritório havia se tornado mais pesado em uma fração de segundo e os pelos da minha nuca se arrepiaram.
“A ceann-cinnidh”, tinha dito Arch. Ó, líder. Uma palavra, e estávamos na Escócia. Era fácil ver a diferença de atitude entre os novos arrendatários de Jamie e seus homens de Ardsmuir… a diferença entre uma lealdade por acordo e uma lealdade por reconhecimento. Aquilo ali era outra coisa ainda: um compromisso mais antigo, que havia governado as Terras Altas por mil anos. O juramento do sangue e do ferro.
Vi Jamie avaliar o presente e o passado e se dar conta de onde Arch Bug se situava entre os dois. Vi isso no seu rosto, a irritação se transformando em compreensão… e vi seus ombros afundarem um pouco quando ele aceitou.
– Pela sua palavra, então, é o meu direito – disse ele baixinho, também em gaélico. Levantou-se, empunhou o machado e o estendeu, com o cabo na frente. – E por esse direito eu lhe devolvo a vida da sua mulher… e a sua.

Houve outras mudanças, mas que não geraram impacto. Podemos dizer que, em alguns casos, a série fez um trabalho perfeito, tirando cenas não necessárias e amarrando tudo lindamente. Com isso, vamos encerrando no nosso último Livro vs Série da temporada. Muito obrigada a todos que nos acompanharam até aqui! E você gostou do episódio? E da temporada? Ficou encantado com adaptação, ou faria algo diferente? Comente!

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4 comentários sobre “Livro vs Série – 5×12 – Never My Love

  1. Que bom ler esse post. Venho tendo alguns desagrados com Outlander nas ultimas 3 temporadas. As duas primeiras são irretocaveis, e por isso fiquei exigente demais e achando mais falhas nos roteiros das temporadas seguintes (ainda que a parte tecnica da serie sempre seja espetacular).

    Sinceramente, o arco final do sequestro da Claire na série nao me convenceu de forma alguma. Começando com a conveniência do Lionel encontrar a placa com o pseudônimo da Claire e sua reação que achei muito exagerada. Por isso é legal saber que nos livros ela é raptada por outro motivo. Sem falar que eu vou ser daqueles que acham o estupro um recurso batido e agora gratuito. Fiquei muito decepcionado de ver o mesmo trauma vivenciado por toda a familia Fraser. Não sou leitor da Gabaldon, mas não me parece ser um recurso literário que seria usado gratuitamente por grandes escritores.

    Vamos ser francos, ano que vem nao vai ter temporada. Com a Pandemia, se formos otimistas demais, talvez meados de 2022… O que me faz pensar em ir pros livros. Eu poderia começar do sexto?

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  2. Sei que nas imagens da fuga da realidade de Claire, tudo que é mostrado tem um signifcado, as cadeiras vazias de Bree e Roger, como ela via, como se estivesse mortos afinal voltaram para o futuro, e nunca mais veriam, como uma morte, as roupas de 1700 do Jaime, apesar do estilo dos anos 70 do restante, Fergus com sua mão perfeita, Jocasta enxergando…e aquela laranja? Vi no instagram dizendo que era uma referencia ao Rei Luis que ela teve que ir para cama, não lembro da laranja?!? Que tal um post falando sobre todos os significados dessa cena?

    Curtido por 1 pessoa

    1. Eu posso falar disso… O rei dá uma laranja pra ela, antes de tudo (até da parte de magia), depois voltam tudo acontece, ela levante, pega a laranja e sai. A laranja, segundo os produtores, significa a dignidade dela, ela pega o tem e sai. Sobre o texto, aguarde… 😉

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