Daily Line: Você acha que as casas têm vida?

POSSUI SPOILER DO LIVRO 9 | Leia outros em Trechos da Diana

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Era uma casa grande. E parecia ainda maior com apenas duas pessoas e um cachorro dentro.

Fanny, privada de companhia, agarrou-se a mim como uma pequena cocklebur, seus passos ecoavam atrás de mim (e o tique-tique de Bluebell atrás dela) enquanto eu ia e voltava do consultório para a cozinha, para a sala e de volta ao consultório, nós três conscientes dos quartos vazios acima das nossas cabeças e do distante, sombrio e vazio terceiro andar, com suas paredes que se pareciam com uma floresta fantasmagórica de vigas, as janelas sem vidros ainda cobertas por ripas para impedir a entrada da chuva e da neve até que o mestre desaparecido retornasse para terminar os trabalhos que deixou por fazer.

Eu a convidei para compartilhar o quarto comigo e nós puxamos a cama de rodízio do quarto das crianças. Foi um conforto ouvir a respiração uma da outra durante a noite, algo quente e rápido, quase abafando a respiração lenta e fria da casa ao nosso redor, quase imperceptível, mas definitivamente presente. Especialmente ao anoitecer, quando as sombras começavam a subir pelas paredes como uma maré silenciosa, espalhando escuridão pelo quarto.

Às vezes, eu acordava no meio da noite e encontrava Fanny na minha cama, aninhada contra mim para se aquecer e dormir profundamente, Bluey deitada em um ninho de colchas aos nossos pés. O cachorro olhava para cima quando eu acordava, batendo suavemente o rabo emplumado contra a cama, mas não se mexia até que Fanny se mexesse.

– Eles vão voltar – garanti a ela, todos os dias. – Todos eles. Nós apenas temos que nos manter ocupadas até que voltem.

Mas Fanny nunca viveu sozinha um dia sequer em toda a sua vida. Ela não sabia como lidar com a solidão, muito menos com a solidão cheia de ameaças dos próprios pensamentos.

– E se…? – era o refrão constante dos seus pensamentos. O fato de ser também um refrão meu, embora silencioso, não ajudava.

– Você acha que as casas estão vivas? – Fanny deixou escapar um dia.

– Sim, tenho certeza que sim – disse eu, um tanto distraída.

– Você tem? – os olhos redondos de Fanny me trouxeram de volta ao presente. Estávamos cerzindo meias em frente à lareira, depois de termos terminado as tarefas da manhã e almoçarmos. Nós já tínhamos alimentado os porcos, separado feno seco e levado para o outro armazém e ordenhado a vaca e duas cabras. Eu ainda tinha que bater a manteiga no dia seguinte, deixar de lado alguns baldes para fazer queijo e enviar o resto do leite extra para Bobby Higgins.

– Bem… sim – disse eu, lentamente. – Eu acredito que qualquer lugar onde as pessoas vivem por muito tempo provavelmente absorve um pouco delas. Certamente as casas afetam as pessoas que vivem nelas, por que não deveria funcionar nos dois sentidos?

– Nos dois sentidos? – ela parecida ter dúvidas. – Quer dizer que deixei parte de mim no bordel, e trouxe parte do bordel comigo?

– E você não trouxe? – perguntei gentilmente. Seu rosto ficou pálido por um momento, mas logo a vida voltou aos seus olhos.

– Sim – disse ela, mas estava cautelosa agora e não acrescentou mais nada.

(Trecho de VÁ DIZER ÀS ABELHAS QUE PARTI, Copyright 2020 Diana Gabaldon. Meus agradecimentos a Kirsty Scaife pela adorável foto de abelha!)

Fonte: Diana Gabaldon
Data de publicação: 29/09/2020

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