A história completa de Geillis Duncan – Ou pelo menos até onde nós sabemos

Queridas Sassenachs, queridos Highlanders, pessoas apaixonadas por Outlander, você que já viu e reviu a série, leu os livros, mas ainda tem problemas em entender toda a timeline da história de Geillis Duncan, também conhecida como Gillian Edgars e sr.ª Abernathy? Vamos tentar colocar uma ordem nos acontecimentos e montar uma pequena biografia da personagem com base principalmente nos livros, pois as informações lá são mais completas, mas não é tão diferente do que você viu na série. Ah!! Os fatos vão estar em ordem cronológica da vida de Geillis, não na ordem dos livros. Então bora, que a história é longa e cheia de trechos pra você que ama!

Inicio da vida

Geillis nasceu em meados século XX, provavelmente nas terras altas da Escócia, recebendo o nome de Gillian, esse ao menos é o primeiro nome que temos o registro. Era uma patriota fervorosa, fazendo parte de grupos como o movimento nacionalista escocês a Sociedade da Rosa Branca. Temos um vislumbre de sua vida política no episódio 2×13 e, no livro, descobrimos que foi nesse meio que ela conheceu seu primeiro marido, Greg Edgars. Eles se conheceram entre 1965 e 1966, se casaram e ela adotou o nome do marido, ficando conhecida como Gillian Edgars (não há informações sobre seu nome de solteira, ou sobre sua ascendência). Sua paixão pela Escócia a levou a se interessar pelas lendas e histórias de seu povo e, de certa forma, magia, algo que poderia fazer com que ela tivesse a chance de mudar a história.

Confira um trecho do segundo livro, no qual seu marido fala sobre como eles se conheceram e também sobre os interesses da esposa:

“— Sabe onde Gillian está? — perguntou ele sem rodeios. Toda vez que pronunciava seu nome, ele soava estranho em sua boca. Desta vez, não pôde deixar de lançar um olhar para o retrato no consolo da lareira, onde a foto sorria serenamente para a desordem abaixo. Edgars balançou a cabeça lentamente acima do copo, como um boi sobre o cocho de comida. Era um sujeito atarracado e corpulento, mais ou menos da idade de Roger, talvez, mas parecendo bem mais velho por causa da barba crescida e dos cabelos negros desgrenhados.
— Não — disse ele. — Achei que talvez você pudesse saber. Deve estar no Nacs ou no Rosas, provavelmente, mas não tenho notícias. Não saberia dizer em qual dos dois, especificamente.
— Nacs? — O coração de Roger acelerou-se. — Quer dizer, os nacionalistas escoceses?
As pálpebras de Edgars começavam a cair, mas ele piscou e as abriu outra vez.
— Ah, sim. Os malditos Nacs. Foi onde conheci Gilly, sabe?
— Quando foi isso, sr. Edgars?
Roger ergueu os olhos, surpreso com a voz macia que vinha de cima. Não foi a fotografia que falou, mas Brianna, olhando intensamente para Greg Edgars. Roger não sabia se ela estava apenas puxando conversa ou se suspeitava de alguma coisa. Seu rosto não demonstrava nada além de educado interesse.
— Não sei… há uns dois, três anos. Foi divertido no começo, sabe? Expulsar os malditos ingleses, unir-se ao Mercado Comum por conta própria… cerveja no pub e um amasso no banco de trás na volta dos comícios. Hummm. — Edgars balançou a cabeça outra vez, os olhos sonhadores com a visão. Em seguida, o sorriso desapareceu de seu rosto e ele franziu a testa, olhando para seu copo. — Isso foi antes de ela ficar maluca.
— Maluca? — Roger lançou outra olhada rápida à foto. Determinada, sim. Parecia ser. Mas não doida varrida, certamente. Ou não seria possível saber por uma foto?
— Sim. Sociedade da Rosa Branca. Do príncipe Charles, meu caro. Se ele não vai voltar outra vez e toda essa besteira. Um monte de idiotas vestidos de kilts e perucas, com espadas e tudo o mais. Tudo bem, se você gosta disso, é claro — acrescentou ele, com uma tentativa vesga de objetividade. — Mas Gilly sempre levou tudo longe demais. Sempre falando no Bonnie Prince e em como seria maravilhoso se ele tivesse vencido a rebelião de 1745. Uns caras na cozinha até altas horas, bebendo cerveja e discutindo os motivos por que ele não vencera. Em gaélico, ainda por cima. — Revirou os olhos. — Um monte de besteira. — Esvaziou seu copo para enfatizar essa opinião.
Roger podia ver os olhos de Brianna penetrando no lado de seu pescoço como verrumas. Puxou a gola da camisa para afrouxá-la, embora não estivesse usando gravata e o botão do colarinho estivesse desabotoado.
— Por acaso sua mulher também se interessava por monumentos de pedras, sr. Edgars? — Brianna já não se importava muito com o interesse educado; sua voz era cortante o suficiente para fatiar queijo. O efeito perdeu-se quase por completo em Edgars.
— Pedras? — Pareceu confuso e enfiou o dedo em um dos ouvidos, girando-o laboriosamente, como se esperasse melhorar sua audição.
— Os círculos de pedras pré-históricos. Como o Clava Cairns — acrescentou Roger, citando um dos marcos locais mais famosos. Desgraça pouca é bobagem, pensou ele com um suspiro mental de resignação. Brianna nunca mais iria querer falar com ele de qualquer forma, de modo que era melhor descobrir logo tudo que pudesse.
— Ah, esses. — Edgars soltou uma risada curta. — Sim, e toda sorte de bobagens antigas de que você puder se lembrar. Essa foi a última gota, e a pior. Enfiada lá no instituto dia e noite, gastando todo o meu dinheiro em cursos… cursos! É de fazer rir, não? Contos de fadas é o que ensinam lá. Não se pode aprender nada de útil naquele lugar, moça, eu disse a ela. Não quer aprender datilografia? Arrume um emprego se está entediada. Foi o que eu disse. Então ela foi embora — disse ele com voz arrastada. — Não a vejo há duas semanas. — Olhou fixamente dentro de seu copo como se estivesse surpreso por encontrá-lo vazio.”

Criando o caderno de anotações

Gillian estudou muito, buscou informações em toda parte, pesquisou os desaparecimentos em círculos pedra, foi a campo em sítios arqueológicos. Com isso, foi construindo um livro de anotações, com todo seu estudo e suas teorias.

Em 1968, Claire tem acesso ao livro e com ele descobre o Gillian pensava sobre a viagem do tempo e quando pretendia tentar passar pelas pedras. Confira dois trechos de Libélula no Âmbar, um sobre as pesquisas de Geillis, outro com um pouco de suas anotações:

“— Voltar. Através das pedras. Ela não tentara, mas achou que eu poderia. E tinha razão, é claro. — Claire virou-se e pegou seu uísque da mesa. Olhou fixamente para Roger por cima do aro de seus óculos, os olhos da mesma cor do conteúdo do copo. — Estamos em 1968; o ano em que ela voltou no tempo. Exceto que eu acho que ela ainda não voltou.
O copo escorregou da mão de Roger e ele quase não conseguiu agarrá-lo a tempo.
— O quê… aqui? Mas ela… por que não… você não pode saber… — Ele balbuciava de forma incoerente, os pensamentos embaralhados.
— Eu não sei — ressaltou Claire. — Mas eu creio que sim. Tenho quase certeza de que ela era escocesa e as possibilidades são grandes de que ela tenha saído das Terras Altas. Considerando-se que há uma grande quantidade de círculos de pedra, nós sabemos que Craigh na Dun é uma passagem para os que podem usá-la. Além do mais — acrescentou ela, com ar de quem apresenta o argumento definitivo —, Fiona a viu.
— Fiona? — Isso, Roger sentiu, era simplesmente demais. O maior dos absurdos. Em qualquer outra coisa, ele conseguiria acreditar: viagens no tempo, traição de clãs, revelações históricas, mas trazer Fiona para dentro dessa história era mais do que sua razão podia aguentar. Olhou para Claire com ar de súplica. — Diga-me que você não quis dizer isso — implorou ele. — Não Fiona.
A boca de Claire contorceu-se em um dos cantos.
— Receio que sim — disse ela, não sem compaixão. — Eu lhe perguntei… sobre o grupo druida ao qual sua avó pertencia. Ela jurou segredo, é claro, mas eu já sabia muito sobre ele e… — Encolheu os ombros, como se pedisse desculpas. — Não foi muito difícil fazê-la falar. Ela me disse que havia outra mulher fazendo perguntas… uma mulher alta, loura, com impressionantes olhos verdes. Fiona disse que a mulher a fazia se lembrar de alguém — acrescentou delicadamente, evitando com todo o cuidado olhar para ele —, mas ela não sabia quem.
Roger apenas grunhiu e, curvando-se na cintura, deixou-se cair lentamente para a frente até sua testa encostar-se na mesa. Fechou os olhos, sentindo a rigidez fria da madeira sob sua cabeça.
— Fiona sabe quem é ela? — perguntou ele, os olhos ainda fechados.
— Seu nome é Gillian Edgars — respondeu Claire. Ele ouviu-a levantar-se, atravessar o aposento e acrescentar nova dose de uísque ao seu copo. Ela voltou e parou junto à mesa. Podia sentir seu olhar em sua nuca.”

“Numa paródia do método científico, a primeira seção intitulava-se “Observações”. Continha referências desconexas, desenhos bem organizados e tabelas cuidadosamente numeradas. “A posição do sol e da lua no Festival de Beltane” era uma delas, com uma lista de mais de duzentos pares de figuras desenhados abaixo. Tabelas semelhantes existiam para o Hogmanay e o Midsummer’s Day — o solstício de verão —, e outra para o Samhainn, o festival de All Hallows. As festividades antigas do fogo e do sol… e o sol de Beltane se levantaria no dia seguinte.
A seção central do caderno de notas intitulava-se “Especulações”. Essa, ao menos, era precisa, refleti ironicamente. Uma das páginas ostentava esta inscrição em letras manuscritas inclinadas e perfeitamente desenhadas: “Os druidas queimavam vítimas de sacrifícios em gaiolas de vime no formato de um homem, mas indivíduos eram mortos por estrangulamento e tinham a garganta cortada de forma a drenar todo o sangue do corpo. Seria o fogo ou o sangue o elemento necessário?”. A curiosidade fria da pergunta trouxe o rosto de Geillis Duncan com clareza diante de mim — não a estudante deslumbrada, de cabelos lisos e compridos, cujo retrato adornava o instituto, mas a mulher do fiscal, furtiva, dissimulada, dez anos mais velha, versada no uso de drogas e do corpo, que seduzia os homens para seus propósitos e matava friamente para atingir seus fins.
E as últimas páginas do caderno, cuidadosamente intituladas “Conclusões”, que nos levara àquela sombria viagem, na véspera do festival de Beltane. Dobrei os dedos sobre a chave, desejando de todo o coração que Greg Edgars tivesse atendido o telefone.”

Nossa viajante idealista acreditava que era preciso um sacrifício de sangue e fogo, além de pedras preciosas, para poder retornar para a época desejada, por isso ela usa o marido como sua oferenda. Claire, Roger e Brianna chegam na colina a tempo de ver a mulher fazendo a travessia, mas não conseguem impedi-la. Vale destacar que não há outros indícios nos livros ou nos contos que apoiem o uso do sacrifício de sangue, pois houve outros viajantes que percorram longos períodos e não precisaram de nenhuma oferenda. Confira o trecho do livro 2, sobre a travessia:

“Foi o repentino cheiro de gasolina que o fez entrar em ação. Teve uma vaga percepção de Brianna, a cabeça levantada bruscamente quando o cheiro atingiu suas narinas, virando-se para o extremo norte do círculo. Então ele já havia largado o braço de Claire e atravessado os arbustos à volta e as próprias pedras, correndo para o centro do círculo, onde uma figura negra agachada parecia uma mancha de tinta contra a grama mais clara.
A voz de Claire veio de trás dele, forte e imperiosa, estilhaçando o silêncio.
— Gillian! — gritou ela.
Ouviu-se um sopro forte e repentino e a noite iluminou-se com um brilho intenso. Ofuscado, Roger recuou um passo, tropeçando e caindo de joelhos.”

No passado

Ao voltar para o passado, Gillian adotou o nome de Geillis. Segundo a própria, teria chegado no passado cinco anos antes de Claire, ou seja, em 1738. Elas conversam sobre isso no livro 3, confira um pequeno trecho:

“— Mas não foi o que aconteceu com você. Você veio de 1968, mas já estava em Cranesmuir há vários anos antes de eu chegar lá.
— Cinco anos, sim. — Ela balançou a cabeça, distraída. — Sim, bem, isso foi o sangue.
— Sangue?
— O sacrifício — disse ela, repentinamente impaciente. — O sangue lhe dá um âmbito maior. E ao menos um pouco de controle, de modo que você tenha alguma noção do período de tempo a que está voltando.”

Sua presença no passado, anos antes de Claire, é atestada no livro 8. Aqui entra um alerta de spoiler para você que ainda não leu, siga por sua conta e risco. Nosso querido Roger vai parar em 1739 (‘como?’, ‘por que?’, aí minha querida, só lendo pra saber mais rs) , lá ele ouve falar de uma Geillis Isbister, uma estranha que morava em uma cabana com um homem que poderia ser seu pai ou seu marido, algum tempo depois eles sumiram. O povo dali soube que ela havia se mudado para Cranesmuir. Confira esse trecho do livro 8, no qual Geillis é mencionada da primeira vez:

“— Dois estranhos construíram aquela pequena cabana ali em cima — MacLaren disse — Eles vieram do nada aparentemente; um dia eles simplesmente estavam lá. Um homem e uma mulher, mas nós não abíamos se eram marido e mulher, ou talvez um homem com sua filha, já que ele parecia um pouco mais velho do que ela. Eles diziam que tinham vindo das ilhas… e eu acho que ele talvez tivesse mesmo, mas ele não falava como qualquer habitante de ilha que eu já conheci.
— Ela era escocesa?
MacLaren pareceu surpreso.
— Oh, sim, ela era. Ela falava gaélico. Eu diria que ela veio de algum lugar a nordeste de nverness, talvez Thurso… mas, mais uma vez… não era muito… certo.
Não era muito certo. Como alguém fora de seu devido lugar, fingindo.
[…]
— Houve histórias. Sempre há histórias, sobre uma mulher como aquela — MacLaren limpou a própria garganta — Mas ela era boa com a cura de ervas, e com os seus encantos também. Ou, pelo menos, é o que as pessoas diziam.
Mas, então, o homem foi embora, MacLaren disse. Ninguém sabia para onde; eles apenas não o viram mais, e a mulher continuou como antes, mas agora a maioria de seus visitantes eram homens. E as mulheres pararam de levar seus filhos para lá, embora fossem algumas vezes, silenciosamente, e em segredo.
E, então, um dia antes de Samhain, quando o sol estava se pondo e as grandes fogueiras começaram a ser construídas para a noite, uma mulher da região subiu até a cabana e voltou de lá gritando.
— Ela tinha encontrado a porta da cabana aberta, a mulher e todas as suas coisas tinham sumido… e um homem estava pendurado na viga, morto com uma corda ao redor do pescoço.
[…]
Dougal pareceu pensativo, batendo os dedos gentilmente em seus joelhos.
— A mulher — ele disse — Você sabe para onde ela foi?
— Eu… hã… ouvi que ela foi para Cranesmuir, senhor — A cor de MacLaren tinha voltado, com interesse, e ele cuidadosamente evitou os olhos duros de sua esposa.
— Cranesmuir — Dougal repetiu — Sim, bem. Talvez eu a procure, e tenha uma palavra com ela. Qual é o seu nome?
— Isbister — MacLaren desabafou — Geillis Isbister.
Roger não sentiu realmente a terra se mexer sob seus pés, mas ficou surpreso por isso não ter acontecido.
— Isbister? — As sobrancelhas de Dougal se elevaram — Das ilhas do norte, não?
MacLaren encolheu os ombros numa pantomima de ignorância — e desinteresse. Ele parecia como se alguém tivesse feito uma tentativa séria de ferver sua cabeça, e Roger viu a boca de Dougal se contorcer novamente.
— Sim — ele disse secamente — Bem, talvez não seja muito difícil encontrar uma mulher de Orkney num local do tamanho de Cranesmuir.”

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Pouco adiante no livro, comprovamos que a mulher era realmente a nossa Geillis. Roger vai a Cranesmuir e a vê com os próprios olhos. Quando a encontra, ainda 1739, ela já era Geillis Duncan, a esposa do fiscal e começava sua fama de ‘bruxa’. Confira mais um pequeno trecho:

“Geillis Duncan talvez não fosse de uma beleza clássica, mas isso não importava. Ela certamente tinha boa aparência, com os cabelos loiro-creme presos sob uma touca e — é claro — os olhos. Olhos que o faziam querer fechar os seus e cutucar Buck nas costas para fazer o mesmo, porque certamente ela ou McEwan iriam notar…
[…]
— Eu imagino, senhora… você não poderia ter algum medicamento, talvez? Não apenas para o meu parente aqui, mas… bem… — Ele tossiu de uma forma que indicava que ele nutria doenças mais delicadas que ele não queria mencionar na frente dos outros.
A mulher cheirava a sexo. A sexo muito recente. O cheiro se levantava dela como incenso.
Ela ficou na frente de Roger por um momento, ainda olhando atentamente para seu rosto, mas depois sorriu e levou sua mão para longe, deixando sua garganta de repente fria e exposta.
— É claro — ela disse, mudando seu sorriso e sua atenção para Buck — Venha para o meu pequeno sótão, senhor. Eu tenho certeza de que eu tenho alguma coisa que pode curar o que o aflige.”

Então Geillis seguiu com sua vida em Cranesmuir, ganhando fama de bruxa, mantendo um casamento de fachada, enquanto desviava dinheiro para causa dos Stuarts, além de se envolver com Dougal, a fim de influenciar o envolvimento do clã MacKenzie no levante que ocorreria em alguns anos. Então, em 1743, ela conhece nossa querida Claire, com quem nutre uma certa “amizade”. Confira o trecho em que elas se conhecem (você viu essa cena no episódio 1×02) e outro, no qual Geillis revela um pouco de suas verdadeiras intenções para Claire (1×11):

“— Não me apresentei — falei, estendendo a mão para ajudá-la a se levantar do tronco. — Meu nome é Claire. Claire Beauchamp.
A mão que pegou a minha era esbelta, com dedos longos e finos, embora eu notasse que as pontas eram manchadas, provavelmente com o sumo das plantas e frutas silvestres que jaziam ao lado das raízes de malva em seu cesto.
— Sei quem é — disse ela. — A aldeia está fervilhando de conversas a seu respeito desde que chegou ao castelo. Meu nome é Geillis, Geillis Duncan. — Olhou dentro do meu cesto. — Se é balgan-buachrach o que você está procurando, posso lhe mostrar onde crescem mais.
[…]
— Uma jacobita — falei. — Santo Deus, você é uma maldita jacobita!
E era. O que explicava muita coisa. Por que Dougal, geralmente o espelho das opiniões do irmão, envolvera-se na iniciativa de levantar fundos para a Casa dos Stuart. E por que Geillis Duncan, tão bem dotada para levar qualquer homem que quisesse ao altar, havia escolhido dois espécimes tão diferentes quanto Arthur Duncan e Dougal MacKenzie. Um pelo dinheiro e posição, o outro por seu poder de influência na opinião pública.
— Colum teria sido melhor — continuou ela. — Uma pena. Seu infortúnio é o meu também. Era a ele que eu deveria ter me unido. O único homem que conheci que estaria à minha altura. Juntos, poderíamos… bem, não adianta mais. O único homem que eu queria e o único que eu não podia conseguir com as armas de que dispunha.
— Então, você ficou com Dougal em vez disso.
— Ah, sim — disse ela, imersa em seus próprios pensamentos. — Um homem forte e com certo poder. Uma boa propriedade. Os ouvidos do povo. Mas, na verdade, ele não passa das pernas… e do pau — riu debilmente — de Colum MacKenzie. É Colum quem tem força. Quase tanto quanto eu.”

No entanto, o jogo de Geillis acaba virando contra ela mesma. Ela engravida de Dougal, e após o líder de guerra enviuvar, ela mata o próprio marido, pensando em se casar com o pai de seu filho. No entanto, Colum não permite, fazendo com a viajante seja presa e julgada por bruxaria, levando Claire junto como brinde (maldita Largatixa). Na prisão, as duas são sinceras uma com a outra, até onde podem. Na série, episódio 1×11, as informações trocadas entre as elas são mais claras, enquanto no livro ficam no ar. Geillis tem uma atitude altruísta e confessa ser bruxa, a fim de salvar Claire. Na série, ela já dá a informação do ano original de sua viagem para nossa enfermeira, mas no livro essa informação vem depois, através de um recado de Dougal. Em ambos, Claire se dá conta que a “amiga” é outra viajante quando nota a marca da vacina no braço. Confira o trecho da marca da vacina (diferente da série) e o recado de Dougal:

“Geillis começou a girar, rodopiando sem parar, os cabelos agitando-se ao vento, a mão graciosamente acima da cabeça como uma dançarina. Eu a observava numa incredulidade perplexa. […]
Eu não havia ficado paralisada com a revelação da gravidez de Geillis. Foi outra coisa que vi que me enregelou até a medula dos ossos. Enquanto girava, os braços estendidos para cima, vi o que ela vira quando minhas próprias roupas foram arrancadas. Uma marca em um dos braços igual à que eu carregava. Ali, naquela época, a marca da feitiçaria, a marca de um mago: a cicatriz pequena e feia de uma vacina contra varíola.
[…]
— Tenho uma mensagem para você — dissera ele. — Da bruxa.
— De Geillis? — Dizer que fiquei espantada era o mínimo.
Eu não podia ler a expressão de seu rosto na escuridão, mas vi sua cabeça se inclinar, confirmando.
— Eu a vi uma única vez — disse ele em voz baixa —, quando fui pegar a criança. — Em outras circunstâncias, eu talvez tivesse sentido alguma compaixão por ele, separando-se definitivamente de sua amante, condenada a morrer na estaca, segurando o filho que haviam gerado juntos, um filho que ele jamais poderia reconhecer. Mas, na situação real, minha voz foi glacial.
— O que ela disse?
Ele parou; não sei se era apenas a falta de vontade de revelar informações ou se estava tentando se certificar de suas palavras. Aparentemente, era por esta última razão, porque ele falou com muito cuidado.
— Disse que, se eu tornasse a vê-la algum dia, deveria dizer-lhe duas coisas, exatamente como ela me dissesse. A primeira era: “Acho que é possível, mas não sei ao certo.” E a segunda… a segunda era apenas uma série de números. Ela me fez repeti-los, para ter certeza de que eu os decorara corretamente, pois deveria repeti-los para você numa determinada ordem. Os números eram um, nove, seis e oito. — A figura alta virou-se para mim no escuro, curiosa.”

Geillis Duncan foi condenada por bruxaria em 1743, mas não morreu na fogueira. Os juízes decidiram esperar que ela tivesse seu filho primeiro. Então, quando deu à luz, Dougal estava lá para dar um destino para o filho, Geillis usou todo o seu encanto e persuasão e fez com o que o MacKenzie a livrasse de seu terrível destino. Ele a levou para França, já em 1744, onde ela morou até o início do levante, mas não sabemos se ela voltou para Escócia durante a revolta, sendo nacionalista supomos que sim. Confira um trecho do livro 3, Resgate no Mar, no qual ela conta sobre como sobreviveu:

“— Ah, sra. Abernathy serve perfeitamente. Quando vivi em Paris, eu tinha outro nome: madame Melisande Robicheaux. Gosta? Achei um pouco pomposo demais, mas seu tio Dougal foi quem me deu esse nome, então eu o conservei, por sentimento.
Minha mão livre cerrou-se num punho, fora da vista, nas pregas da minha saia. Eu ouvira falar de madame Melisande, quando moramos em Paris. Não pertencendo à sociedade, ela tivera uma certa fama como vidente; as damas da Corte consultavam-na em absoluto segredo, em busca de conselhos sobre suas vidas amorosas, seus investimentos e sobre gravidez.
[…]
— Então, foi Dougal que a tirou de Cranesmuir?
Ela balançou a cabeça afirmativamente, reprimindo um pequeno arroto.
— Sim. Ele foi pegar a criança… sozinho, por medo de que alguém descobrisse que ele era o pai, sabe? Mas eu não deixei. E quando ele se aproximou para tirá-la de mim… bem, eu arranquei a adaga de sua cintura e pressionei-a contra a garganta da criança. — Um pequeno sorriso de satisfação diante da lembrança fez seus belos lábios curvarem-se.
— Eu disse a ele que mataria o bebê, a menos que ele jurasse pela vida do irmão e pela sua própria que me tiraria dali a salvo.
— E ele acreditou em você? — Senti um leve mal-estar ao imaginar qualquer mãe segurando uma faca na garganta de um recém-nascido, ainda que fingindo.
Seu olhar virou-se de novo para mim.
— Ah, sim — disse ela suavemente, e o sorriso ampliou-se. — Dougal me conhecia muito bem.
Suando, mesmo no frio de dezembro, e incapaz de tirar os olhos da minúscula face de seu filho adormecido, Dougal concordara.”

Na Jamaica

Depois de Culloden, Geillis foi para as Índias Ocidentais, onde fixou residência. Confira um trecho de Resgate no Mar, no qual ela fala de sua ida para a Jamaica e seus casamentos ali:

“— Então, Dougal a enviou para a França — disse Jamie. Os dedos de sua mão direita torceram-se ligeiramente. — Como você veio parar aqui nas Índias Ocidentais?
— Ah, isso foi mais tarde — disse ela despreocupadamente. — Depois de Culloden.
[…]
— Quantas vezes você se casou? — perguntei, curiosa. Ela começara a construir sua fortuna com o segundo marido, procurador fiscal do distrito onde viviam, falsificando sua assinatura para desviar dinheiro para si própria e, depois, assassinando-o. Bemsucedida nesse modus operandi, imaginei que ela o usara de novo; Geilie Duncan era uma mulher de hábitos. Ela parou por um instante para contar.
— Ah, cinco, eu acho. Desde que vim para cá — acrescentou ela displicentemente.
— Cinco? — exclamei, um pouco fracamente. Não se tratava simplesmente de um hábito, eu diria; um verdadeiro vício.
— O ar dos trópicos é muito insalubre para os ingleses — disse ela, sorrindo maliciosamente para mim. — Febres, úlceras, estômagos inflamados; qualquer coisinha os leva desta para melhor. — Ela evidentemente se preocupara com sua higiene oral; seus dentes ainda eram muito bons.”

Geillis se casou 5 vezes, segundo ela própria, porém sabemos que já era viúva e conhecida como sr.ª Abernathy desde 1761. Lord John Grey cruzou seu caminho, investigando um caso na Jamaica nesse mesmo ano. Confira um trecho do conto Lord John and the Plague of Zombies, que se passa em 1761:

“Grey nunca estivera na presença de alguém que o repelisse tão fortemente. Ficou pensando em por que era assim; não havia nada explicitamente ofensivo ou feio nela. Era uma bela escocesa de meiaidade, cabelos claros e roliça. Ainda assim, a viúva Abernathy o deixava arrepiado, a despeito do calor do ar no terraço que ela escolhera para recebê-lo em Rose Hall.
Notou que ela não trajava luto nem fez qualquer menção à morte recente do marido. Vestia musselina preta com bordado azul na bainha e nas mangas.”

Geilles Abernathy nunca perdeu o interesse pelas artes místicas, nem pela cultura do seu povo, muito menos sua paixão nacionalista. Em 1766, ela contratou o reverendo Campbell, um estudioso da história e da cultura escocesa, a fim de traduzir uma profecia antiga do adivinho Brahan, a respeito do retorno dos Stuarts ao trono. (Sim, a história dos Campbell e a profecia em é bem diferente entre livro e série, se quiser se aprofundar no assunto, confira nosso Livro vs Série do episódio 3×13). Pois bem, o reverendo chegou a Jamaica em 1767, e traduziu a profecia para sua anfitriã. Confira a profecia original do livro Resgate do Mar:

“— Talvez compartilhe o interesse de nossa anfitriã, e o meu próprio, na história e na cultura escocesa? — Seu olhar ornou-se mais penetrante e, com um aperto no coração, reconheci o brilho fanático do pesquisador aficionado em seus olhos. Eu o conhecia bem.
— Bem, é muito interessante, tenho certeza — eu disse, afastando-me em direção à porta. — Mas confesso que não sei muito a respeito. — Avistei a folha de cima de sua pilha de documentos e estanquei, paralisada.
Era um mapa genealógico. Eu já vira muitos iguais àquele, vivendo com Frank, mas reconheci aquele em particular. Era um mapa da família Fraser — o maldito papel exibia até o cabeçalho “Fraser de Lovat” — começando em algum ponto por volta de 1400, até onde eu podia ver, e vindo até o presente. Pude ver Simon, o falecido — e não muito lamentado, em alguns lugares — lorde jacobita, que fora executado por sua participação na Revolução de Charles Stuart, e seus descendentes, cujos nomes eu reconheci. E embaixo, num dos cantos, com o tipo de anotação indicando ilegitimidade, estava Brian Fraser — o pai de Jamie. E embaixo dele, escrito numa letra negra e nítida, James A. Fraser.
Senti um calafrio percorrer minha espinha. O reverendo notara minha reação e observava com uma expressão divertida e árida.
— Sim, interessante que fossem os Fraser, não?
— Que… o que fossem os Fraser? — eu disse. A despeito de mim mesma, aproximei-me da escrivaninha.
— O alvo da profecia, é claro — disse ele, parecendo ligeiramente surpreso. — Não a conhece? Mas talvez, seu marido sendo um descendente ilegítimo…
— Não, não sei nada sobre isso.
— Ah. — O reverendo estava começando a se divertir, aproveitando a oportunidade para me informar. — Achei que talvez a sra. Abernathy tivesse falado com você a respeito, já que estava tão interessada a ponto de me escrever em Edimburgo sobre o assunto. — Ele folheou a pilha, extraindo um documento que parecia escrito em gaélico.
— Esta é a língua original da profecia — disse ele, enfiando a prova A embaixo do meu nariz. — Do adivinho Brahan. Já ouviu falar do adivinho Brahan, não é? — O tom de sua voz denotava pouca esperança, mas na realidade eu já ouvira falar no adivinho Brahan, um profeta do século XVI considerado o Nostradamus escocês.
— Já, sim. É uma profecia referente aos Fraser?
— Os Fraser de Lovat, sim. A linguagem é poética, como eu ressaltei para a sra. Abernathy, mas o significado é bastante claro. — Seu entusiasmo aumentava à medida que ele falava, apesar de suas desconfianças a meu respeito. — A profecia diz que um novo governante da Escócia surgirá da linhagem Lovat. Isso ocorrerá depois do eclipse dos “reis da rosa branca”, uma clara referência aos Stuart papistas, é claro. — Balançou a cabeça indicando as rosas brancas no desenho do tapete. — Há referências mais obscuras na profecia, é claro; a época em que esse governante surgirá e se será um rei ou uma rainha, há alguma dificuldade de interpretação, devido ao manejo errado do original…”

No ano de 1767 Geillis reencontrou sua velha amiga, Claire. As duas conversaram muito, e Geillis soube, pelas idas e vindas de Claire, que era possível fazer mais de uma viagem no tempo, que era possível retornar para sua época. O mais importante, ela descobriu que Claire havia tido uma filha com James Fraser, e que essa criança estava viva e já era uma mulher em 1968, a última descendente dos Frasers de Lovat, no século XX, alguém necessário para a profecia (na série era um bebê de 200 anos, mas no fim tudo levava à Brianna). Confira os trechos do livro 3 em que Claire e Geillis conversam sobre as viagens e em que Claire se dá conta das reais intenções da outra viajante:

“Atravessei as portas que se abriam para a varanda, entrei no salão e parei. Geilie estava sentada em sua poltrona de vime, o casaco de Jamie no braço e as fotografias de Brianna espalhadas no colo. Ela ouviu meus passos e ergueu os olhos, uma sobrancelha clara arqueada acima de um sorriso astuto.
— Uma bela moça, sem dúvida. Qual o nome dela?
— Brianna. — Meus lábios pareciam dormentes. Caminhei lentamente em sua direção, lutando contra a vontade de arrancar as fotos de suas mãos e correr.
— Parece-se muito com o pai, não é? Achei que ela me parecia familiar, aquela jovem alta, de cabelos ruivos, que eu vi naquela noite em Craigh na Dun. Ele realmente é o pai dela, não é? — Ela inclinou a cabeça em direção à porta por onde Jamie saíra.
— Sim. Dê-me isso. — Não fazia diferença; ela já vira as fotos. Ainda assim, eu não podia suportar ver seus dedos grossos e brancos segurando o rosto de Brianna.
Sua boca torceu-se como se ela pretendesse recusar, mas ela ajeitou-as perfeitamente num retângulo e entregou-as a mim sem objeção. Segurei-as contra o peito por um instante, sem saber o que fazer com elas, depois as enfiei no bolso de minha saia.
— Sente-se, Claire. Já trouxeram o café. — Fez um sinal com a cabeça indicando a mesinha e a cadeira ao lado. Seus olhos me seguiram enquanto eu me dirigia à cadeira, vivos e calculistas.
[…]
Algo começava a fazer sentido para mim, um pouco tardiamente. Em defesa da minha lentidão, só posso argumentar que eu estava simultaneamente ouvindo Geilie e mantendo um ouvido alerta a qualquer sinal de Jamie, retornando à sala embaixo.
— Você pretende voltar, então? — perguntei, o mais naturalmente possível.
— Creio que sim. — Um leve sorriso brincou nos cantos de sua boca. — Agora que tenho tudo de que preciso. Vou lhe dizer, Claire, eu não me arriscaria sem isso. — Olhou-me fixamente, sacudindo a cabeça. — Três vezes, sem nenhum sangue — murmurou ela. — Então pode ser feito. Bem, é melhor descermos agora — disse ela, repentinamente ativa; juntou as pedras e jogou-as de volta no bolso. — A raposa já deve estar de volta… Fraser, é o nome dele, não? Achei que Clotilda tivesse dito outra coisa, mas a idiota deve ter entendido errado.
[…]
— Você me perguntou por que eu achava que podemos passar pelas pedras — eudisse às suas costas. — Sabe por quê, Geilie? — Ela me olhou por cima do ombro.
— Ora, para mudar as coisas — disse ela, parecendo surpresa. — Por que mais seria? Vamos, estou ouvindo seu homem lá embaixo.
[…]
Inspirei fundo e percebi que estava tremendo, tanto como reação retardada à cena no salão quanto por uma terrível e crescente apreensão. Podia ser apenas que Geilie tivesse decidido tentar minha técnica — se pudesse ser elevada a essa categoria — junto com a dela e usar a imagem de Brianna como um ponto de fixação para sua viagem. Ou — pensei na pilha de documentos manuscritos do reverendo, os mapas genealógicos cuidadosamente desenhados, e achei que fosse desmaiar.
“Uma das profecias do adivinho Brahan”, dissera ele. “Referente aos Fraser de Lovat. O governante da Escócia virá desta linhagem.” Mas, graças às pesquisas de Roger Wakefield, eu sabia — o que Geilie provavelmente também sabia, obcecada como era pela história escocesa — que a linha direta dos Lovat fracassara nos anos 1800. Quer dizer, para todos os propósitos e intenções visíveis. Houve, de fato, um sobrevivente daquela linhagem vivendo em 1968 — Brianna.
Levei um momento para perceber que o som baixo e rouco que eu ouvia vinha de minha própria garganta, e mais um instante de esforço consciente para relaxar meus maxilares.
Enfiei a fotografia queimada no bolso de minha saia e girei nos calcanhares, correndo para a porta como se o gabinete de trabalho estivesse habitado por demônios. Eu precisava encontrar Jamie — agora.”

Fim da vida

Então, Geillis sendo Geillis, uma nacionalista extrema, não perdeu tempo quando teve as informações que precisava, logo pegou tudo que precisava e rumou para o círculo de pedras mais próximo, no caso Abandawe. O que ela não contava era que Claire decifraria seu plano, muito menos em tão pouco tempo, e que faria tudo para proteger a filha. Foi ali, numa caverna mística do Caribe, que Geillis encontrou a morte em 1767. Confira um trecho do livro 3, Resgate do mar, com o que houve na caverna:

“— Então você veio, hein? — Geilie estava de joelhos, tinha os olhos fixos num fluxo brilhante de pó branco que caía de seu punho fechado, desenhando uma linha no chão escuro. […]
— Não faça isso, Geilie — eu disse, sabendo que palavras não iriam resolver nada.
— Eu tenho que fazer — disse ela calmamente. — Sou destinada a fazê-lo. Lamento ter que levar a garota, mas eu lhe deixarei o homem.
— Que garota? — Os punhos de Jamie estavam cerrados com força ao lado do corpo, os nós dos dedos brancos mesmo à luz turva da tocha.
— Brianna? É esse o nome dela, não é? — Sacudiu os cabelos pesados para trás, afastando-os do rosto. — A última da linhagem Lovat. — Sorriu para mim. — Que sorte você ter vindo me ver, hein? Se não fosse por isso, eu jamais ficaria sabendo. Pensava que todos tinham morrido antes de 1900.
Um estremecimento de horror percorreu-me como um dardo. Pude sentir o mesmo tremor percorrer o corpo de Jamie conforme seus músculos retesaram-se.[…]
O fogo é uma luz ineficiente, mas teria sido necessária uma escuridão total para ocultar aquele olhar no rosto de Geilie; a repentina compreensão do que vinha em sua direção.
Ela arrancou a outra pistola da cintura e girou-a para apontá-la para mim; eu vi com clareza o buraco redondo da boca da arma — e não me importei. O estrondo do tiro ricocheteou pela caverna, os ecos provocaram uma chuva de pedras e poeira, mas a essa altura eu já havia agarrado o machado do chão.
Notei com absoluta clareza o cabo forrado de couro, decorado com desenhos de contas. Era vermelho, tinha zigue-zagues amarelos e pontos negros. Os pontos repetiam a brilhante obsidiana da lâmina, e o vermelho e o amarelo refletiam os tons da tocha em chamas atrás dela.
Ouvi um barulho atrás de mim, mas não me virei. Reflexos do fogo ardiam, vermelhos, nas pupilas dos seus olhos. A coisa vermelha, Jamie a descrevera. Eu me entreguei a ela, dissera ele.
Não precisei me entregar; ela se apossara de mim.
Não houve medo, raiva ou dúvida. Somente o golpe do machado.
O choque do golpe repercutiu pelo meu braço e eu soltei o machado, com os dedos dormentes. Permaneci absolutamente imóvel, não me mexi nem mesmo quando ela cambaleou em minha direção.
O sangue à luz do fogo é negro, não vermelho.
Ela deu um passo cego à frente e caiu, todos os seus músculos repentinamente lassos, sem fazer nenhum movimento para se salvar. A última visão que tive de seu rosto foram seus olhos; arregalados, belos como pedras preciosas, um verde claro e transparente como água e lapidado com o conhecimento da morte.”

Geillis Abernathy, uma vez Geillis Duncan, uma vez Gillian Edgar e sabe-se lá quantos outros nomes, encontrou seu fim pelas mãos de uma das poucas amigas que pode ter tido na vida, ao trair sua confiança. Seu corpo ficou ali na caverna, esquecido do mundo, entregue ao tempo, sendo encontrado 201 anos depois pelo departamento de antropologia de
Harvard. Eles pediram ao dr. Joe Abernathy, amigo de Claire, que fizesse uma autópsia do esqueleto em 1968, Claire estava junto quando isso ocorreu. A cena que pode ser vista no episódio 3×05, é o ponto final da história de Geillis. Confira o trecho de Resgate do Mar sobre o esqueleto:

“— Ah, bonito — disse ele, encantado, virando o objeto delicadamente de um lado para o outro.
“Bonito” não foi o primeiro adjetivo que me ocorreu; o crânio havia mudado muito de cor, o osso era de um marrom-escuro e manchado. Joe levou-o até a janela e segurou-o à luz, os polegares tocando com delicadeza as pequenas bordas ósseas das órbitas.
— Uma bela senhora — disse ele brandamente, falando tanto para o crânio quanto para mim ou para Horace Thompson. — Adulta, madura. Talvez com cinquenta ou cinquenta e poucos anos. Você tem as pernas? — perguntou ele, virando-se repentinamente para o rapaz gorducho.
— Sim, bem aqui — assegurou Horace Thompson, enfiando a mão na caixa. — Na verdade, temos o esqueleto completo. […]
— Tome, dra. Randall. —Joe inclinou-se e com extrema cautela colocou o crânio em minhas mãos. — Diga-me se esta senhora gozava de boa saúde, enquanto eu verifico suas pernas.
— Eu? Não sou legista. — Mesmo assim, olhei automaticamente para baixo. Ou era um espécime antigo ou severamente castigado pelas condições do tempo; o osso estava liso, com um brilho que os espécimes recentes nunca possuíam, manchado e com a cor alterada pela ação dos pigmentos da terra. — Ah, está bem. […]
Em seguida, segurei o crânio junto ao meu estômago, os olhos fechados, e senti a tristeza sutil preenchendo a cavidade do crânio como água corrente. E uma leve e estranha sensação — de surpresa?
— Alguém a matou — disse. — Ela não queria morrer. — Abri os olhos e encontrei Horace Thompson fitando-me, os próprios olhos arregalados em seu rosto pálido e redondo. Entreguei-lhe o crânio com muito cuidado. — Onde a encontrou? — perguntei.
O sr. Thompson e Joe entreolharam-se. O sr. Thompson voltou a olhar para mim. As sobrancelhas ainda erguidas.
— É de uma caverna no Caribe — disse ele. — Havia diversos artefatos com ela. Achamos que tenha entre cento e cinquenta a duzentos anos.
— Ela o quê?
Joe exibia um largo sorriso, divertindo-se com a situação.
— Nosso amigo, o sr. Thompson aqui, é do departamento de antropologia de Harvard — disse ele. — Seu amigo Wicklow me conhece; perguntou-me se eu daria uma olhada neste esqueleto, para dizer-lhes qualquer coisa que eu pudesse encontrar.
— Que audácia! — exclamei, indignada. — Pensei que ela fosse algum corpo não identificado que o escritório do legista tivesse arrastado para cá.
— Bem, ela não foi identificada — ressaltou Joe. — E provavelmente vai continuar assim. — Começou a fuçar a caixa de papelão como um terrier. Na aba da tampa, lia-se: MILHO PICT-SWEET. — Bem, o que temos aqui? — disse ele, tirando da caixa, com muito cuidado, um saco plástico contendo uma mixórdia de vértebras.
— Estava toda desfeita quando a encontramos — explicou Horace.
— Ah, o crânio é ligado ao… osso do pescoço — cantarolou Joe, arrumando as vértebras ao longo da borda da mesa. Seus dedos grossos e curtos iam e vinham habilmente entre os ossos, empurrando-os e alinhando-os. — O osso do pescoço é ligado à… espinha dorsal…
— Não dê atenção a ele — disse a Horace. — Só vai encorajá-lo.
— Ah, ouça… a palavra… do Senhor! — terminou ele triunfalmente. — Santo Deus, L. J., você é inacreditável! Olhe aqui. — Eu e Horace Thompson nos inclinamos obedientemente sobre a linha de pontiagudos ossos vertebrais. O eixo largo exibia um sulco profundo, as zigapófises posteriores haviam sido decepadas completamente e a fratura atravessava completamente o centro do osso.
— Pescoço quebrado? — perguntou Thompson, espreitando com interesse.
— Sim, porém mais do que isso, eu acho. — O dedo de Joe percorreu a linha da extensão da fratura. — Está vendo aqui? O osso não está apenas quebrado, simplesmente desapareceu naquele lugar. Alguém tentou decapitar esta mulher. Com uma lâmina rombuda — concluiu com satisfação.
Horace Thompson olhava-me de forma estranha.
— Como soube que ela havia sido assassinada, dra. Randall? — perguntou ele.
Pude sentir o sangue subir ao meu rosto.
— Não sei — respondi. — Eu… ela… parecia que sim, só isso. […]
— Achamos que se tratava de um… hã, de um local secreto de sepultamento de escravos — explicou o sr. Thompson, enrubescendo, e eu compreendi de repente por que ele parecera tão envergonhado quando percebeu qual de nós dois era o médico a quem ele fora enviado.
Joe lançou-lhe um olhar repentino e penetrante, mas em seguida inclinou-se novamente sobre seu trabalho. Continuava a cantarolar o spiritual “Dem Dry Bones” baixinho para si mesmo, enquanto media a bacia pélvica. Depois, voltou às pernas, desta vez concentrando-se na tíbia. Finalmente, endireitou-se, sacudindo a cabeça.
— Não era uma escrava — disse ele.
Horace pestanejou.
— Mas deve ter sido — disse ele. — Tudo que encontramos com ela… uma clara influência africana…
— Não — disse Joe sem rodeios. Bateu de leve no fêmur longo, no lugar onde estava sobre sua mesa. Sua unha produziu um ruído seco sobre o osso. — Ela não era negra.
— Pode-se saber pelos ossos? — Horace Thompson ficou visivelmente agitado. — Mas eu pensei… aquele artigo de Jensen, quero dizer… teorias sobre diferenças físicas raciais… amplamente contestado… — Ficou vermelho, incapaz de terminar.
— Ah, elas existem — disse Joe, com grande indiferença. — Se quer pensar que negros e brancos são iguais sob a pele, por mim tudo bem, mas cientificamente não é assim. — Virou-se e retirou um livro da estante às suas costas. Tabelas de variação de esqueleto, dizia o título.
— Dê uma olhada nisto — disse Joe. — Pode-se ver as diferenças em diversos ossos, mas especialmente nos ossos das pernas. Os negros possuem uma proporção entre fêmur e tíbia completamente diferente dos brancos. E esta senhora — apontou para o esqueleto sobre a sua mesa — era branca. Caucasiana. Não há nenhuma dúvida a respeito.
— Ah — murmurou Horace Thompson. — Bem. Vou ter que pensar… quer dizer… foi muita gentileza sua dar uma olhada nela para mim. Hã, obrigado — acrescentou ele, com uma pequena e desajeitada mesura.”

Então Sasse, entendeu tudo? Que tal aquele belo resumão de forma mais gráfica? Essa seria a linha da vida de Geillis:

Com isso, encerremos a história de Geillis. Espero que para aqueles que tinham dúvidas, as tenham esclarecido. Comente, diga o que achou da história, se ainda tem alguma dúvida e compartilhe com aquele amigo que ainda não entende donde surgiu essa mulher que cada hora aparece de um jeito! 😉

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3 comentários sobre “A história completa de Geillis Duncan – Ou pelo menos até onde nós sabemos

    1. Sobre o Roger, sim ele é descendente direto da Geillis. Ela estava grávida do Dougal no julgamento, deu a luz ao filho. Essa criança, um menino, foi entregue a um casal da família MacKenzie, que havia perdido um filho bebe e o criaram como seu. Esse menino cresceu, constitui família, assim como seus filhos, até chegar no Roger. Se eu não me engano o Roger é um descendente de 7ª ou 8ª geração da Geillis.

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