Daily Line: Memórias de Ellesmere

POSSUI SPOILER DO LIVRO 9 | Leia outros em Trechos da Diana

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(Trecho de VÁ DIZER ÀS ABELHAS QUE PARTI, Copyright 2018 Diana Gabaldon)

Andar superior. Uma ampla escada, quadrada e aberta conduzia ao segundo andar. Aqui, o telhado se elevava bastante e uma galeria cercava a escadaria em três lados, com janelas altas de um lado e vários retratos nas outras três paredes.

– Isobel me disse que este foi pintado logo após o casamento de Geneva – disse Lord John, apontando para o retrato de uma jovem muito bonita. O pintor não era particularmente habilidoso: o cabelo da mulher era simplesmente escuro, alguma cor entre marrom e preto, e seu vestido estava mal pintado, mas William reconheceu o seu rosto, o mesmo rosto que ele tinha visto todos os dias durante anos, em uma miniatura que ele carregou com ele para Londres, para a escola e até mesmo para a plantação na Virgínia.

Ele pensou que o pintor estivesse apaixonado por ela, ou que, talvez, se sentisse ao menos atraído por ela: o rosto revelava cuidado e sentimento.

– Alguém me disse que eu tenho a boca dela – disse ele, suavemente, como se não quisesse assustá-la.

– Sim – disse Lord John, levantando uma sobrancelha. – Quem te disse isso?

– A mãe Isobel. – Ele afastou-se do retrato, sentindo-se repentinamente inquieto. – Parece estranho vê-la.  Mãe Genebra, aqui, sozinha. – Havia vários retratos dela em Helwater, mas sempre retratos onde estava com sua irmã mais nova, com seus pais. Até mesmo os retratos onde estava sozinha ficavam ao lado de um retrato semelhante de Isobel.

– É verdade – disse Lord John, também em voz baixa. O local estava tão quieto quanto uma igreja, uma ilusão realçada pelas janelas altas e silenciosas com suas bordas de vitral. E também pelo fato de que todas as pessoas retratadas estão mortas…

Ele virou-se, inquieto, em direção à parede oposta, através do vão aberto da escada. A parede era dominada por um grande retrato de um homem idoso com uma peruca formal e trajado como um conde. – Nada mal para sua idade – pensou William. Sua expressão, no entanto, era um pouco dura. O pensamento fez William sorrir.

– É ele, não é? O meu pai?

– O oitavo conde de Ellesmere – disse Lord John, acenando com a cabeça para o retrato. – Foi pintado cerca de dez anos antes de sua morte.

– O meu pai – interrompeu-se, sentindo-se estranho. Lá estava ele, de pé com seu pai, o único pai que ele conheceu, discutindo sobre o seu verdadeiro pai, que ele nunca conheceu. E nunca viria a conhecer, ele supôs. Ele olhou para Lord John.

– Como ele era? Você o conheceu?

Lord John franziu os lábios e abanou a cabeça.

– Eu o vi uma vez. Em Londres, anos atrás. Acontece que nós nos encontramos no jardim em uma espécie de baile e tivemos uma breve conversa. – Ele fez uma pausa, sua testa franzindo enquanto pensava; então, olhou para William, sorrindo.

– Eu iria dizer, “uma conversa do tipo que se tem com um total estranho em tais circunstâncias”, mas você sabe… na realidade não foi assim. Ele… – Lord John acenou com a cabeça para o retrato, com um ar que William considerava que fosse respeito. – Ele não era dado a maneiras corteses. As quais, como você logo descobrirá, são projetadas para ocultar os verdadeiros pensamentos de uma pessoa. Mas o velho Rudyard não se incomodava em esconder seus pensamentos. Em absoluto.

Isso parecia promissor, mas William apenas levantou a sobrancelha, não querendo atrapalhar a aparente linha de pensamento do pai com uma pergunta direta. Lord John percebeu o olhar e, para surpresa de William, sorriu.

– Ele gostava de mulheres – disse Lord John. – No sentido físico; ele não era o tipo de homem que ficava amigo de uma mulher. A primeira coisa que ele me disse foi: “Está vendo aquela de vestido violeta? Você acha que os seios dela são verdadeiros?”

– E eram?

Lord John tossiu cautelosamente.

– Eu disse que se fossem, ela os estaria exibindo um pouco mais. Ele concordou comigo e passamos vários momentos agradáveis em uma avaliação franca dos nossos convidados antes que nossa anfitriã aparecesse e me convidasse para dançar com alguém.

TEXTO

Fonte: Diana Gabaldon
Data de publicação: 02/02;2018

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