Livro vs Série – 6×03 – Temperance

Sassenachs desse meu Brasil, que terceiro episódio maravilhoso foi esse!? O preferido dessa que vos fala até o momento. Mas gente, tenho uma queixa: a produção quer dificultar minha vida nessa temporada. Como escrever um livro vs série, quando a série insisti em seguir o livro tão lindamente? Hahaha… No nosso artigo de hoje, vamos apontar algumas pequenas diferenças na adaptação, além de algumas informações complementares, que podem ser úteis para entender o contexto geral.

O episódio já começa com um momento de tensão, com Roger salvando o pequeno Henri-Christian de se afogar nas corredeiras de Ridge. A cena foi toda muito fiel aos livros, uma pequena diferença é não temos o envolvimento de Germain e Aiden no livro, pelos menos eles não são nomeados. Jamie também presencia o final do resgate e ele mesmo conversa com um dos pestinhas que aprontou aquilo. Diferente da série, nosso highlander é mais duro com as crianças, aplicando um castigo físico. Eu, particularmente, gostei muito da adaptação. Colocar o Germain ali dá uma responsabilidade a mais pra ele sobre irmão, isso pode impactar ainda mais eventos futuros, tanto a curto prazo (alô caverna), quanto a longo prazo (livro 8, estou falando de você). Também aprovo o castigo ser sido menos severo, mantendo a conversa e interação de Jamie com as crianças. Confira um trecho de como as coisas se desenrolaram no livro:

“Jamie agarrara um dos meninos que havia esbarrado nele durante a fuga, puxando-o pela nuca e quase fazendo o garoto literalmente se mijar de medo. Levara o jovem com firmeza até a mata, imprensara-o contra uma árvore e exigira saber a motivação daquela tentativa de assassinato.
Tremendo e chorando, o garoto tentara se justificar, dizendo que eles não tinham qualquer intenção de fazer mal ao bebê, de verdade! Só queriam vê-lo flutuar, pois seus pais haviam dito que ele era um bebê-demônio, e todo mundo sabe que os nascidos de Satã flutuam, porque a água rejeita sua perversidade. Eles haviam apanhado o bebê na cesta e enfiado na água porque temiam tocá-lo, temiam que sua carne os queimasse.
– Eu disse que o queimaria eu mesmo – respondeu Jamie, com amargor –, e foi o que fiz.
Ele então dispensara o garoto, sofrendo de dor, com instruções para que fosse para casa, trocasse as calças e informasse aos aliados que eles eram aguardados no escritório de Jamie antes do jantar para receber sua própria parcela de castigo – do contrário, ele próprio iria visitá-los em suas casas após o jantar, e dar uma sova neles diante dos próprios pais.
– Eles foram? – perguntei, fascinada.
Ele me lançou um olhar surpreso.
– Claro. Provaram do remédio, então foram até a cozinha e comeram pão e mel. Eu dissera a Marsali que trouxesse o pequenino, e depois de comermos eu o pus sobre o joelho e fiz todos eles se aproximarem e tocarem o pequeno, só para verem.
Ele abriu um sorriso torto.
– Um dos garotos me perguntou se era verdade o que o sr. Roger havia dito, sobre o garotinho pertencer ao Senhor. Eu respondi que sem dúvida não discutiria com o sr. Roger em relação a isso… mas, fosse lá a quem mais ele pertencesse, Henri-Christian também pertencia a mim, e era bom que se lembrassem disso.
Ele correu o dedo devagar pela bochechinha redonda de Henri-Christian. O bebê já quase dormia, as pálpebras pesadas semicerradas, o dedo brilhoso meio dentro, meio fora da boca.
– Me desculpe por perder isso – falei baixinho, para não o acordar.
Seu corpinho já estava mais quente, como ocorre com os bebês adormecidos, e pesado na curva do meu braço. Jamie viu que eu tinha dificuldade em segurá-lo e o tomou de mim, entregando-o de volta à sra. Bug, que se movimentava em silêncio pelo quarto, arrumando as coisas, enquanto escutava com aprovação a narrativa de Jamie.
– Ah, foi uma bela cena – garantiu ela, com um sussurro, dando uma batidinha nas costas de Henri-Christian ao pegá-lo. – E os garotos todos estendendo os dedos para tocar a barriguinha do pequeno, agitados, como se estivessem espetando uma batata quente, e ele gargalhando e se contorcendo feito uma lombriguinha. Os bobos tinham os olhos arregalados feito moedas de cinco centavos!”

Mantendo o tema infantil, quando Bree está mostrando nova roca de fiar para Marsali, vemos o Jemmy surgindo com um carrinho. Brianna chama atenção para que ele não brigue, provavelmente com os primos, ou não terá mais seu “vrum”. Para contextualizar, Roger criou gosto por fazer brinquedos de madeira para o filho, dentre eles ele faz um carrinho, com rodas e tudo. O brinquedo vira a felicidade do pequeno, assim como de muitas outras crianças. Sem querer dar o nome real, eles os chamam de “vrum”. E não é que os brinquedos fazem grande sucesso em Ridge? Confira dois trechos sobre o brinquedo:

“– O que é isso que você anda fabricando?
– Só uma bobagenzinha para Jem. – Ele a deixou pegar o objeto e sentiu o calor de um modesto orgulho. – Todas as rodas giram.
– É meu, papai?
Jemmy até então estava brincando no chão com o gato Adso, que tolerava crianças pequenas. Ao ouvir seu nome, porém, abandonou o gato, que na mesma hora escapuliu pela janela, e levantou-se para ir ver o brinquedo novo.
– Ah, olhe!
Brianna fez o carrinho correr pela palma da mão e o levantou para deixar as quatro rodas girarem livremente. Jem estendeu as mãos, ansioso, e puxou as rodas.
– Cuidado, cuidado! Assim você arranca! Venha cá, deixe eu lhe mostrar. – Roger se agachou, pegou o carrinho e o fez rolar pelas pedras da lareira. – Viu só? Vrum. Vrum-vrum!
– Grão! – imitou Jem. – Deixe eu fazer, papai, deixe eu fazer!
Sorrindo, Roger entregou-lhe o brinquedo.
– Grão! Grão-grão!
O menino empurrou o carrinho com entusiasmo até este lhe escapulir da mão, e ficou olhando boquiaberto enquanto ele seguia zunindo sozinho até o final das pedras da lareira, batia na borda e caía para fora. Guinchando de alegria, saiu correndo atrás do brinquedo novo.
Ainda sorrindo, Roger ergueu os olhos e viu Brianna olhando para Jem com uma expressão um tanto estranha no rosto. Ela sentiu que o marido a encarava e baixou os olhos para ele.
– Vrum? – falou, baixinho, e Roger sentiu um pequeno choque interno, como um soco no estômago.
– O que é, papai, o que é? – Jemmy havia tornado a pegar o brinquedo e corria até ele apertando-o contra o peito.
– É um… um… – começou Roger, sem saber o que dizer.
Na verdade aquilo era uma réplica grosseira de um Morris Minor, mas nem mesmo a palavra “carro”, quanto mais “automóvel”, tinha significado ali. E o motor de combustão interna, com seus ruídos agradavelmente sugestivos, ainda estava a pelo menos um século de distância.
– Acho que é um vrum, meu amor – disse Bree, com um tom de empatia perceptível na voz.
Roger sentiu sobre a cabeça o peso delicado da sua mão.
– Ahn… isso, é isso mesmo – falou, e pigarreou para desobstruir a garganta. – É um vrum.
– Grão – disse Jemmy, feliz, e se ajoelhou para fazer o carrinho rolar de novo na lareira. – Grão-grão!”

“Os vrums eram um grande sucesso entre os pequenos, e a demanda por mais exemplares não parava. Brianna observou, achando graça, Roger repelir a curiosidade de Jem com um cotovelo ágil enquanto franzia o cenho de concentração. A ponta de sua língua aparecia entre os dentes, e aparas de madeira coalhavam a pedra da lareira, suas roupas e, claro, havia uma delas grudada em seus cabelos, um cacho claro em meio aos fios escuros.
– Qual é esse daí? – perguntou ela, erguendo a voz para ele poder escutar.
Roger ergueu os olhos, verde-musgo à luz difusa do dia chuvoso que entrava pela janela atrás de si.
– Acho que uma picape 57 da Chevrolet – respondeu, sorrindo. – Tome, a nighean. Este aqui é para você.”

Vamos agora para um ponto que deve ter deixado muitas Sassenachs bufando de raiva: a conversa entre Jamie e Malva(dona). Sinto informar minhas queridas, mas foi outra cena 100% copia e cola do livro. Heheheh… A diferença é que, no livro, Jamie puxa conversa com Malva a fim de averiguar o bem estar da garota, já que, alguns dias antes, Claire testemunhou a jovem apanhando do pai. No entanto, nossa média viu o castigo escondida, não tinha como abordar o tema com os envolvidos. Jamie não viu grande coisa nisso, visto que era um homem de seu tempo, isso leva a toda uma conversa com Claire, que não cabe aqui. Então, ao encontrar Malva outro dia na floresta, não vê mal que puxar conversa com a garota. A conversa é exatamente a mesma que vemos na série.

Agora para finalizar, vamos falar um pouco de Claire e Tom Christie. O relacionamento conturbado desses dois está muito fiel aos livros, assim como os diálogos entre eles. O único ponto que me deixou curiosa foi ele ter enviado o livro que pegou emprestado de volta, chamando-o de lixo. No livro, ele conhece a história e diz que gosta apesar de tudo, o que chama a atenção de Claire. A adaptação colocou um tatinho mais de atrito entre eles, o que é legal. Confira o trecho da conversa sobre “Tom Jones” no livro, vão notar que é um diálogo bem similar com o da série:

“– Já leu Tom Jones? – indaguei, continuando a conversa para fazê-lo relaxar.
– Não exatamente, embora conheça a história. Minha esposa…
Ele se calou de maneira abrupta. Era a primeira vez que mencionava a esposa. Imaginei que fosse o simples alívio por ainda não ter sentido nenhuma dor que havia soltado sua língua. Mas ele pareceu se dar conta de que precisava completar a frase, e retomou com relutância. – Minha esposa… lia romances.
– É mesmo? – murmurei, iniciando o trabalho de remover as partes infeccionadas da ferida. – E ela gostava?
– Imagino que sim.
Algo esquisito em sua voz me fez erguer os olhos do que estava fazendo. Ele reparou no meu olhar e desviou os olhos, enrubescendo.
– Eu… eu não aprovava o fato de ler romances. Na época. […]
– Ah… e o que fez o senhor mudar de opinião? – perguntei, concentrandome nos pedacinhos de tecido morto que retirava da ferida com o fórceps.
Farpas, lascas de casca de árvore. O que ele tinha feito? Manejado um porrete de algum tipo, pensei… um galho de árvore? Inspirei fundo, concentrando-me no trabalho para evitar pensar nos corpos na clareira.
Ele mexeu as pernas, nervoso; agora estava doendo um pouco.
– Eu… foi… em Ardsmuir.
– O quê? O senhor lia na prisão?
– Não. Não tínhamos livros lá. – Ele inspirou longamente, olhou para mim, em seguida para longe, e fixou os olhos no canto do recinto, onde uma aranha empreendedora havia aproveitado a ausência temporária da sra. Bug para fazer uma teia. – Na verdade eu nunca cheguei a ler este livro. Mas o sr. Fraser costumava contar a história para os outros prisioneiros. Ele tem boa memória – acrescentou, com certa relutância. […]
– Quer dizer que o senhor gostou de Tom Jones? – perguntei, voltando ao assunto. – Não teria imaginado que fosse considerá-lo um personagem admirável. Quero dizer, ele não é lá um grande exemplo de moral.
– Não considero – disse ele, direto. – Mas entendi que a ficção… – Ele pronunciou a palavra com cautela, como se fosse algo perigoso. – Que a ficção talvez não seja, como eu pensava antes, apenas um incentivo ao ócio e às fantasias malvadas.
– Ah, é mesmo? – falei, achando graça, mas tentando não sorrir por causa do meu lábio. – E quais o senhor acha que são suas características redentoras?
– É, bem. – Suas sobrancelhas se aproximaram quando ele se pôs a pensar. – Achei deveras notável. Que aquilo que basicamente não passa de uma invenção de mentiras de algum modo ainda consiga exercer um efeito benéfico. Pois isso acontecia – concluiu ele, ainda soando um tanto surpreso.
– É mesmo? Como assim?
Ele inclinou a cabeça, pensativo.
– Com certeza era uma distração. Em condições como aquelas, a distração não é algo ruim – garantiu-me ele. – Embora, é claro, seja mais desejável se refugiar na oração…
– Ah, claro – murmurei.
– Mas, tirando essa consideração… a ficção aproximava os homens. Ninguém iria pensar que homens como aqueles… homens das Terras Altas, agricultores… que eles fossem simpatizar particularmente com… situações e pessoas como aquelas. – Ele acenou na direção do livro com a mão livre, indicando, imagino eu, pessoas como o distinto cavalheiro Allworthy e lady Bellaston. – Mas eles passavam horas conversando a respeito… enquanto trabalhávamos no dia seguinte, ficavam se perguntando por que o alferes Northerton tinha feito o que fizera com relação à srta. Western, e discutindo se eles teriam ou não se comportado assim. – Sua expressão se desanuviou um pouco ao recordar algo. – E invariavelmente algum homem balançava a cabeça e dizia: “Pelo menos eu jamais teria sido tratado daquela maneira!” Ele podia estar faminto, com frio, coberto de feridas, separado permanentemente da família e da sua situação habitual… mas mesmo assim conseguia se reconfortar por nunca ter sofrido as mesmas vicissitudes que haviam se abatido sobre aqueles seres imaginários! Ele chegou até a sorrir, balançando a cabeça ao recordar aquilo, e pensei que o sorriso melhorava muito o seu aspecto.

E com isso encerramos no Livro vs Série da semana. E você, Sasse, gostou do episódio? O que está achando da adaptação da temporada até então? Comente! 😉

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