Livro vs Série – 6×06 – The World Turned Upside Down

Não sei para você, mas o mundo realmente deu uma virada de ponta-cabeça nesse sexto episódio, como o próprio título diz “The World Turned Upside Down”. Muitos acontecimentos, todos lindamente adaptados do livro. Mais uma vez a série decide dificultar a vida dessa que vos fala, pois trouxeram o lindo copia e cola para os diálogos, mas eu sempre acho coisas interessantes para gente conversar sobre. 😉

Acho que vale começar falando da timeline do livro, que é um pouco diferente. A série sempre tem por costume separar diferentes narrativas para que essas sejam trabalhadas com devido destaque e isso é algo que podemos observar nessa altura do livro. Todo o ocorrido do terceiro episódio, com Henri-Christian sendo colocado no rio, a beira do penhasco que vimos o Fergus atingir, tudo isso acontece quando Claire se encontra acamada com febre. Jamie quem conta toda a história para ela enquanto se recupera. Eu, particularmente, gosto de como a série adapta esses trechos, separando e destacando pra dar a devida importância a diferentes temáticas.

Da doença da Claire, uma coisa que talvez a série não tenha deixado claro é o quão próximo da morte nossa médica chegou. Ela se viu numa experiência fora do corpo, com a sensação de a paz e fim de seu sofrimento estava bem ali ao seu alcance, mas visão de seu amado, ainda mais perto de jovem bonita, fez que com ela lutasse para ficar. Tanto é que o capítulo de que traz Claire por um fio, dentro de sua própria perspectiva, é chamado de “Momento de Decisão”. Uma observação interessante, os sonhos são os mesmos que vemos no episódio, porém a série acrescentou um elemento que não temos no livro, a cobra. Confira o trecho da decisão da nossa amada curandeira pela vida:

“Eu me virei – sem qualquer esforço – e vi que estava deitada na cama abaixo.
Estava de costas, as cobertas amarrotadas e espalhadas, como se em algum momento eu tivesse tentado jogá-las longe, mas tivesse me faltado força. O ar no quarto estava estranhamente parado, e os blocos de cor do tecido cintilavam através dele, feito joias no fundo do mar, valiosas porém em silêncio.
Minha pele, ao contrário, era da cor das pérolas, pálida e brilhosa. Então vi que era porque eu estava tão magra que a pele do meu rosto e dos meus membros estava colada aos ossos, e era o fulgor de osso e cartilagem abaixo que dava aquele verniz ao meu rosto, uma dureza suave reluzindo através da pele diáfana.
E que ossos! Eu me enchi de admiração e me maravilhei com a sua forma. Meus olhos acompanharam, com uma sensação de espanto e respeito, a delicadeza das costelas arqueadas, a beleza estonteante do crânio esculpido.
Meu cabelo estava bagunçado, emaranhado e sem brilho… e mesmo assim eu me sentia atraída por ele, traçando as ondas com o olho e o… dedo? Eu não tinha consciência de me mover, mas sentia a maciez das mechas, a seda fria e castanha e a energia viva do tom prateado, ouvia os fios aderirem suavemente passando uns pelos outros, um farfalhar de notas ondulantes feito uma harpa.
Meu Deus, eu disse, e ouvi as palavras, embora nenhum som tivesse irrompido no ar, você é tão linda!
Eu tinha os olhos abertos. Encarei com afinco e encontrei um olhar âmbar e dourado-claro. Os olhos encararam através de mim, para algo bem além – no entanto, também me enxergavam. Vi a leve dilatação das pupilas e senti o calor de sua escuridão me abraçar, com sabedoria e aceitação. Sim, disseram aqueles olhos sábios. Eu conheço você. Vamos embora. Senti uma imensa paz, e o ar à minha volta se agitou, como o vento a soprar por entre as folhas.
Então um som me fez virar em direção à janela, e vi o homem que estava parado ali. Eu não sabia como chamá-lo, mas mesmo assim o amava. Ele estava parado de pé, de costas para a cama, agarrado à grade, a cabeça afundada no peito, de modo que a luz da aurora lhe conferia um brilho avermelhado aos cabelos e um tom dourado aos braços. O homem balançou o corpo com um espasmo; pude sentir, como os tremores de um abalo distante.
Alguém se moveu perto dele. Uma mulher de cabelo escuro, uma garota. Ela se aproximou, pôs as mãos em suas costas e murmurou qualquer coisa a ele. Reparei na forma como ela o olhava, a suave inclinação da cabeça, a íntima proximidade do corpo em relação a ele.
Não, pensei, com muita calma. Assim não dá.
Dei outra olhada para mim mesma, deitada sobre a cama, e, com uma sensação de firme determinação e incalculável arrependimento, respirei mais uma vez.”

Ainda na parte da recuperação de Claire, temos um momento lindo entre mãe e filha, no qual Bree proíbe a mãe de morrer e lhe conta sobre a nova gravidez. No livro, esse momento é um pouco diferente. A Brianna dos livros é um tanto mais cabeça quente e direta. Ela percebeu que sua mãe quase se foi, e dá uma bronca nela por isso. A gravidez ocorre mais a frente no livro. Segue o trecho para vocês verem um pouco da Brianna dos livros que nós tanto amamos, mas devo dizer que amei demais a adaptação da cena, ficou linda e fofa e perfeita.

Confira a reação original de Brianna ao encontrar a mãe com saúde:

“A porta se escancarou e Brianna entrou, de cabelos desgrenhados e rosto vívido, com uma expressão severa. Parou defronte ao pé da minha cama, apontou o dedo comprido para mim e disse:
– Você está proibida de morrer.
– Ah? – respondi, pestanejando. – Não achei que fosse morrer.
– Você tentou! – respondeu ela, num tom acusativo. – Você sabe que tentou.
– Bom, eu não diria que “tentei”, exatamente… – retruquei, com fraqueza.
Ainda que eu não tivesse exatamente tentado morrer, era bem verdade que não havia tentado não morrer; talvez tivesse exibido uma expressão de culpa, pois ela estreitou os olhos feito pequenas fendas azuis.
– Não ouse fazer isso de novo! – disse e, rodopiando o manto azul, saiu pisando firme, então parou diante da porta e completou, num tom abafado, antes de disparar escadaria abaixo: – Porqueeuteamoenãoseiviversemvocê.
– Eu também te amo, meu amor! – gritei, as lágrimas sempre prontas me invadindo os olhos, mas não houve resposta, exceto pelo som da porta da frente se fechando.”

Ah! Se você está criticando Brianna por cogitar duvidar da palavra de Jamie quando Malva o acusa, saiba que a culpa não é da série. O diálogo entre Bree e Roger, comparando a honra de seus dois pais, veio todinho do livro. A diferença são as circunstâncias do caso de Frank, que no livro é mais discreto. Confira o trecho da conversa original:

“– Não é verdade – repetiu ela, com teimosia. – Papai simplesmente não seria capaz…
Ele, no entanto, viu a leve dúvida em seus olhos – e uma expressão de pânico ao pensar nisso.
– Não, ele não seria – disse Roger, com firmeza. – Brianna… você não está mesmo achando que isso pode ser verdade, não é?
– Não, claro que não!
Ela, no entanto, falara muito alto, com muita clareza. Ele baixou o garfo e a encarou calmamente.
– Qual é o problema? Está sabendo de alguma coisa?
– Nada.
Ela apanhou o último pedaço de panqueca do prato, espetou com o garfo e comeu.
Roger produziu um barulhinho de ceticismo, e ela franziu o cenho para a poça grudenta em seu próprio prato. Sempre botava mel ou xarope demais; ele, mais comedido, sempre terminava com o prato limpo.
– Não sei de nada – disse ela. No entanto, mordeu o lábio inferior e levou a ponta do dedo à pocinha de xarope. – É só que…
– O quê?
– Não é sobre ele – disse ela, devagar. Levou a ponta do dedo à boca e lambeu o xarope. – É que eu não tenho certeza em relação a papai. É só que… olhando em retrospecto, para coisas que eu não compreendia na época… agora eu vejo… – Ela parou de súbito e fechou os olhos, então tornou a abri-los e o encarou. – Um dia eu estava olhando a carteira dele. Não estava fuxicando, só me distraindo, tirando todos os cartões e trecos e botando de volta. Havia um bilhete metido no fundo, entre as cédulas de dólar. Era um convite para que ele encontrasse alguém para almoçar…
– Bastante inocente.
– Começava com Querido, e não era a caligrafia da minha mãe – disse ela, sucinta.
– Ah… quantos anos você tinha?
– Onze. – Ela desenhava no prato com a ponta do dedo. – Eu só guardei o bilhete e meio que apaguei aquilo da cabeça. Não queria pensar a respeito… e acho que nunca pensei, desde aquele dia. Houve outras coisinhas, que eu via e não compreendia… mas a respeito da relação entre eles, os meus pais… de vez em quando acontecia alguma coisa. Eu nunca sabia o que era, mas percebia que havia algo muito errado.
A voz dela foi morrendo; ela soltou um suspiro profundo e limpou o dedo com o guardanapo.
– Bree – disse ele, com delicadeza. – Jamie é um homem honrado, e ama profundamente a sua mãe.
– Bom, é essa a questão – retrucou ela, baixinho. – Eu poderia jurar que papai também era. E jurei.”

Outra linda adaptação foi a conversa entre Claire e Malva, na qual a médica tenta estender a mão para sua aprendiz, uma forma de ajudar, porém seus esforços vão por água abaixo com surgimento de Allan. Os diálogos dessa cena são bem fiéis, com uma exceção: quem tem essa conversa com Malva originalmente é Roger, que tem certo papel de líder religioso a essa altura. A conversa é basicamente a mesma, com Allan também o interrompendo e o mandando embora.

Por fim, vale falar do sonho que Claire tem no final do episódio ao usar o éter, pois sim foi sonho, bem claramente pra mim, mas acredito que intenção era gerar dúvidas no público. Em primeiro lugar, vamos voltar a timeline, o tempo que se passa entre a doença da Claire e a revelação de Malva é bem maior no livro, cerca de seis meses, enquanto na série foi por volta de um mês. Depois temos uma nova passagem de tempo na série de dois meses. No livro, após a revelação também se passam algumas boas semanas, mas não conseguimos medir o tempo exatamente, por isso a gravidez já adiantada de Malva não surpreende as pessoas, ela esperou para contar. E temos todas as discussões e eventos que temos no livro. Então, a série mostra uma Claire solitária, tendo um gatilho de seu trauma. Nisso, ela vê Malva indo procura-la e se desespera e busca o mais uma vez a paz fornecida pelo éter. Então nossa viajante está no meio de gatilho de trauma, com alguém chamando por ela quando adormece, dá pra entender a indução ao sonho. Ela mesma disse que o éter podia causar sonhos, depende da pessoa. Então ela sai e encontra Malva ali, morta em sua horta. No livro, Claire não depende do éter, e não percebe que a senhorita Christie estava indo visita-la, ela simplesmente encontra seu corpo da mesma forma, na horta, com a complicação que no livro ela também cria abelhas, e uma das colmeias foi destruída, espalhando os insetos por ali. A cena em si, tirando as abelhas, é exatamente a mesma.

Uma coisa interessante de se destacar é que, na conversa do sonho, Malva insulta a Claire de maneiras específicas. O que ela fala são medos da própria Claire. Quando a jovem releva a gravidez e Claire sai correndo, nossa viajante tem um tempo sozinha com seus pensamentos, o que leva discussões internas, e em seus pensamentos surgem justamente as coisas que vemos a Malva do sonho falando na série. Outro fator, nesse momento, o sentimento de traição que a médica está sentindo para com sua aprendiz ainda é bem forte. Confira o diálogo e Claire consigo mesma:

“Meu subconsciente cedeu frente àquela certeza, mas eu podia sentir uma agitação subjacente – não uma suspeita, nem forte o bastante para ser chamada de dúvida. Apenas pequeninas e frias reflexões que emergiam da superfície de meu próprio poço escuro feito sapinhos de silvos agudos e finos, pouco audíveis individualmente, mas que juntos formavam uma confusão de sons para agitar a noite.
Você é uma mulher velha.
Veja as veias saltando em suas mãos.
A carne já despencou dos seus ossos; seus seios estão caídos.
Se ele estivesse desesperado, precisando de consolo…
Ele poderia rejeitá-la, mas jamais daria as costas para uma criança de seu próprio sangue.
Fechei os olhos e combati uma crescente sensação de náusea. O granizo havia passado, seguido por uma chuva forte, e um vapor frio começava a se erguer do chão, uma névoa que subia e desaparecia em meio ao aguaceiro feito um fantasma.
– Não – exclamei, em voz alta. – Não!
Eu me sentia como se tivesse engolido vários pedregulhos, pontudos e cobertos de terra. Não era só a ideia de que Jamie pudesse… mas de que Malva tinha, muito provavelmente, me traído. Havia me traído se fosse verdade… e mais ainda se não fosse.
Minha aprendiz. Minha filha do coração.”

E com isso encerramos o nosso Livro vs Série de hoje. E você Sassenach, o que achou do episódio? Também está amando essa adaptação assim como eu? Comente! 😉

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